Pauta em prosa, verso em trova (volume 61)

JGHeleno*

 

“O avesso da pele” é o título de um livro de Jefferson Tenório (TENÓRIO, Jefferson. São Paulo: Companhia das Letras, 2020). A explicação do título encontra-se na página 61. É o que está depois da pele, aquilo que não é atingido pela cor preta, o guia mais explícito para o preconceito racial. O livro é uma narrativa ficcional, calcada na realidade brasileira. A personagem central é um professor negro, pai da personagem narradora.

Vou fazer pequenas transcrições do livro:

“Muitos ficaram pelo caminho, saltaram antes e foram fazer outra coisa da vida. Mas acontece que existe um outro tipo de professor, um tipo único: aquele que resolve, ou por ingenuidade ou por imbecilidade, pegar o touro a unha, permanecer na linha de frente. Anos a fio. Um tipo que se propõe a todos os dias pegar a vida pela gola e sacudi-la. (…)

“E se um dia tentasse (o pai), teria dificuldade em distinguir as coisas, porque não saberia se fazer o que pensava era literatura ou uma observação precária sobre a vida. Você apenas pensava que, quando se lida com alunos, uma linha muito tênue passa a separar a lógica do absurdo, As coisa perdem sentido (…)

“Não acho que devemos apenas lidar com a lógica dos fatos. Prefiro uma verdade inventada, capaz de me por de pé.”

Não se trata de uma série de quadros estatísticos. O que seria uma verdade matemática, porém pobre, pouco abrangente diante da verdade literária. Já citamos aqui o pensamento atribuído a Aristóteles: a poesia (a literatura) fala de todas as guerras, enquanto a história fala apenas de uma. É por essa razão que o autor inventa essa história juntando os cacos que lhe foram narrados pelos parentes a respeito de seu pai. Na perspectiva de Aristóteles, a história aqui contada expressa o que é o racismo em toda sua intensidade e extensão.

O livro de Jefferson é uma narrativa densa, ao prensar tudo como se faz com um fardo de feno. Nem diálogo há para descanso do leitor. A vítima do racismo estrutural não tem uma árvore genealógica. Em vez de uma genealogia com tronco, galhos, folhas, flores, frutos, cada coisa se ordenando e previsível em algum lugar dessa árvore; o que há na sociedade  estruturalmente racista, é o cidadão e toda sua família vítima do racismo. Aí a família são fragmentos que flutuam conforme a pressão dos galhos das arvores genealógicas, nos espaços em que  as vítimas do racismo sobrevivem apenas nas poucas frestas por onde corre algum ar, penetra alguma luz, num agora sem antes nem depois. Não por acaso o protagonista desta história é um professor, porque na sociedade onde o racismo é estrutural, geralmente a escola torna-se mais um lugar de sua perpetuação.

 

Como tudo termina em trova:

 

No escuro da luz ausente

ninguém vê a cor da pele

mas o racista insistente

reafirma: a cor me repele

 

  • ABL, AJL, UBT

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