Pauta em prosa, verso em trova (volume 58)

JGHeleno*

 

O indivíduo: a dívida e a dúvida, em “O Processo”, de Kafka.

Entre os autores estrangeiros mais lidos entre nós, encontra-se Franz Kafka (1883 – 1924). Dentre seus livros disponíveis em tradução, inclusive em edições baratas, está “O processo”. K. é a personagem narradora que, nesse livro, relata seu sofrimento diante de um processo criminal que existe contra si. Só que ele desconhece o crime de que o acusam. Com isso, o protagonista se vê enredado num labirinto de informações, lugares estranhos, personagens esquisitas. Quanto mais ele se desdobra na procura de alguém ou alguma informação que o leve a entender o processo, mais ele se vê enredado numa situação completamente absurda. Nem as falas nem as ações dos representantes da justiça lhe trazem qualquer esclarecimento.

Ele não se lembra de ter cometido qualquer crime, mas – caso exista alguma acusação objetiva contra ele – ele deseja, pelo menos, saber qual é. A partir do conhecimento dessa acusação, seria possível algum caminho de defesa, ou de reparo. Se ele tem uma dívida com a justiça, o que ele mais quer é que não lhe reste dúvida sobre que dívida é essa. O absurdo, no entanto, só lhe agrava o sofrimento diante da total  impossibilidade de qualquer conhecimento ou qualquer ação.

 

Segundo o livro do Gênesis, o Criador chamou sua criatura e lhe ordenou que dominasse a terra, e desse nomes a todos os seres, ou seja, encontrasse sentido para todas as coisas. Ora, dar nome às coisas supõe conhecimento, supõe a ciência.  Reconhecendo, no entanto, que o homem não tinha instrumentos para dar nome a tudo, porque sua  razão é limitada, o Criador  lhe deu uma outra ordem: não comer dos frutos da árvore das  ciência do bem e do mal. Entre as várias interpretações a que está sujeita essa passagem bíblica, eu adotei aquela que explica o desafio dessa ordem divina como a passagem do estado de inconsciência para o estado de consciência do homem, que eu identifico com a própria racionalidade.

Surge daí o impasse que acompanha o homem desde então: para dar nome às coisas, é necessário o uso da consciência/razão; mas esta, na prática, é incapaz de deslindar-lhe todo o conhecimento pedido por sua vontade. Mesmo lançando mão de toda ciência, o homem não chega ao conhecimento de todo o universo. K. vive uma tragédia: quanto mais ele tenta desembaraçar o que lhe parece um contrassenso, mais ele se afunda nele. Lembra Édipo: quanto mais Édipo procurava se afastar do seu destino, mas ele caminhava para sua realização.

Na obra “O Processo”, o indivíduo K., sua dúvida e sua (suposta) dívida perpassam toda a narrativa, instaurando uma situação trágica. Todos os episódios giram em torno destas questões: a dúvida: – existe um delito? Qual é o delito?; e a dívida: como pagar por ele? Para cobrá-lo, há um processo na justiça, a que é necessário responder com a afirmação da inocência ou de alguma punição quitativa. É a mesma situação trágica que vem desde o Gênesis: encontre sentido para o mundo, mas não coma da árvore da ciência, senão você vai sofrer, porque você descobrirá que sua razão é instrumento limitado. Há na sua razão uma falha original. (Kafka, Franz\; “O  processo”, Texto em português de Marques Rebelo. Rio de Janeiro: Ediouro, s/data).

 

Como tudo termina em trova:

 

O poeta vive certo

de que em todo ser visível

há muito mais de encoberto

coberto pelo indizível. (JGHeleno, 19/9/2023)

 

  • Das Academias: Barbacenense de Letras, Juiz-forana de Letras, UBT – Barbacena.

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