• 23ºC
    Barbacena, MG Previsão completa
  • Os pássaros 3

    A crônica de Francisco Santana

    Se eu produzisse um filme, qual gênero seria? Estou em dúvida. Ação? Muita luta interminável entre o bem e mal? Comédia? Não sei. Careço de humor inteligente, sou tímido e não tenho graça para conquistar a hilaridade do público e da crítica. Eu já sou uma comédia.  Que tal um romance? Haverá muito choro, sorrisos, sofrimentos, beijos, abraços e, no final, a felicidade vencerá todos os obstáculos de relacionamentos. Que tal o suspense? É muito drama, angústias, incertezas e nem sempre o final é bom para os personagens. Muito mistério. E sobre o gênero horror? Bem interessante. O susto do espectador sinaliza que o filme foi bom. Eu usaria um fundo musical de tensão, sobressaltos e medo. E se fosse um documentário? Interessante. Eu retrataria a realidade com perfeição ou perto dela.  E um musical? Gostaria sim. A música me fascina e encanta.

     

    Já decidi meu filme, será “Os pássaros 3”. Sim! É isso mesmo! Já existem “Os pássaros” de Alfred Hitchcock e outro com o número 2. Não vejo motivo para alardes.  Se você pensar um pouco perceberá que já temos: Duro de matar de 1 a 20; Missão Impossível de 1 a 30; Loucademia de Polícia de 1 a 50 e Máquina mortífera de 1 a 200. Qual é o problema? Continuando. Ano: 2020. Autor: Francisco de Santana. Elenco: Keira Knightley, Charlize Theron, Chloe Moretz e Jennifer Aniston. Vou convidá-las. Se vão aceitar, não sei. Não custa tentar. 

     

    Essa imaginação fértil nasceu de um fato ocorrido comigo há alguns meses, quando estava chegando a um consultório médico. A tarde estava linda e ensolarada. O táxi me deixou a poucos metros da clínica onde eu teria que passar sob algumas árvores viçosas, floridas e perfumadas.  Tudo isso percebi ao passar sob a primeira. Sob a segunda, ouvi muitos piados e resolvi olhar para cima e me deparei com vários ninhos de passarinhos. Cena fascinante. Dei alguns passos rápidos porque faltavam apenas 10 minutos para minha consulta. De repente, senti algo pular sobre minha cabeça e senti bicadas e unhadas. Como reação, passei a mão na cabeça. Só aí percebi que um passarinho saíra do ninho em vôo rasante para me atacar. O susto foi grande. A minha bolsa foi jogada para longe. Ao tentar pegá-la outro pássaro pulou sobre meu pescoço, bicando-o sem dó e piedade. O primeiro que caíra quando passei a mão na cabeça veio energizado e os dois me atacaram furiosamente. Eu me tornei uma ameaça, um predador que estava desrespeitando o seu espaço. Saí em disparada.  

     

    Um taxista me socorreu dizendo que todos que passam sob as árvores e olham para cima eram atacados. Sorrindo, ele disse que eu era o terceiro que ele socorria naquele dia da agressão digamos, ornitológica. Cheguei à clinica assustado  e me vi diante de uma atendente e três pacientes à espera da consulta. Percebi de soslaio que todas olhavam para mim de uma maneira digamos, pouco convencional. Uma começou a rir e para despistar tossiu, se levantou e foi tomar água no corredor da clínica. Tomei uma decisão que na verdade foi um desabafo: pedi atenção de todos e relatei o ocorrido. Elas gargalharam à vontade. Uma me perguntou: “Como se chamam aqueles pássaros?”. Respondi: Não sei e não quero saber. Diante dos ataques por todos os lados e mais fortes pelas costas, acredito pertencerem à família “FDP”. Riso geral. A outra disse que meus cabelos estavam em desalinho. Por momentos, a conversa girou em torno dos passarinhos e uma falou algo interessante. Ela tem certeza que eu fora atacado por fêmeas que cuidam e protegem seus filhotes. Que normalmente os pais não tomam essas iniciativas e que a mãe, para proteger o filho, dá sua vida. Concordei com ela porque o ataque foi provocado pelo instinto de proteção e chilrear altíssimos.  Lembre da história do pelicano que abre seu peito com o bico e oferece a própria carne aos filhotes famintos e depois morre. 

     

    A paciente do lado me disse num tom bem humorado: “Depois o senhor dá uma olhada no seu pescoço porque ele está todo vermelho, arranhado e ficando empolado. Sua esposa é ciumenta?”. Safadinha, não tive tempo de pensar nisso. A outra disse que poderia ser uma alergia contraída pelo contato com os pássaros. Ao ficar diante do médico, pensei que seus olhos fossem pular das órbitas. Fui para examinar uma parte do corpo e ele não parava de olhar para outra. Discreto, ele não perguntou nada. Saí do consultório e resolvi dar uma passada num restaurante em frente à clínica. A atendente fitou o meu pescoço por alguns segundos. A moça do caixa, idem. Corri para casa pedindo a Deus para não encontrar com nenhum conhecido. Já em casa, fui consultar o espelho. Realmente, o estrago foi grande. As bicadas e unhadas deixaram a região do pescoço, nuca e rosto bem vermelhas. Um arranhão enorme atrás da orelha estava visível. Uma coceira forte dominou toda a área. Tomei um banho e passei uma pomada antiinflamatória que encontrei no banheiro.  Resultado: coceira, vermelhão e inchaço diminuíram bastante. Para disfarçar, fugir dos olhares indiscretos e das perguntas dos curiosos, eu antecipava e contava o ocorrido e ouvia gargalhadas.

     

    Na semana passada, passei pelo local, em frente do Hospital Ibiapaba, sem me lembrar de nada. Quando eu estava debaixo das árvores e ouvi piados dos filhotes, não olhei para cima, saí de mansinho e quando me senti seguro, saí em disparada que nem um louco. 

     

    E aí, qual o gênero do meu filme?