Take a fresh look at your lifestyle.

“Onde o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez mais pobre …”

A opinião do administrador Pedro Tostes

0 601

Apesar do título do texto remeter a um famoso hit de anos atrás da música pop brasileira, (que enquanto tocava até causava alguma diversão) … quando trazida para a realidade, abala qualquer senso de humor: é a triste síntese de um país marcado por tantas diferenças de classes!

 Antes de entrar propriamente no impacto da inflação sobre o seu bolso, eu gostaria de acrescentar e refletir informações relevantes dentro do tema e que se encontram inseridas nos bastidores da economia, mas que acabam por nos atingir de uma forma bastante sensível: são os chamados depósitos compulsórios

Esse termo é estranho a você ou nem tanto? Bom, vamos lá, vejamos o que traz como definição do Banco Central (BC), autarquia federal responsável por “assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda e um sistema financeiro sólido e eficiente”:

 

O recolhimento compulsório é mais um dos mecanismos que o Banco Central (BC) tem à disposição na sua caixa de ferramentas na manutenção da estabilidade financeira e de combate à inflação

Trata-se de parcela do dinheiro dos correntistas que os bancos são obrigados a manter depositada no BC. Embora tenham sido criados, originalmente, para influenciar a quantidade de moeda na economia, os recolhimentos compulsórios assumem também o papel de “colchões de liquidez”, isto é, reservas de emergência que podem ser utilizadas pelas instituições financeiras, a critério do BC, em situações de crise como a que ocorreu em 2008.

 

As expressões grifadas acima podem ter explicado um pouco a respeito dos depósitos compulsórios, mas é interessante entender na prática como o mecanismo por trás dessa questão atua no seu dia-a-dia. É importante salientar que, há diferentes taxas percentuais que incidem sobre os depósitos compulsórios para as operações bancárias, quer sejam elas à vista (conta-corrente), a prazo (investimentos diversos) e/ou poupança. A fim de simplificar, irei utilizar o seguinte exemplo:

Supondo que você (Cliente A) deposite R$ 1.000,00 em sua conta poupança hoje, no “Banco X” e a taxa percentual de depósito compulsório determinada pelo BC seja de 20%. Obrigatoriamente, R$ 200,00 desse montante deverão ser depositados pelo “Banco X” em uma conta específica do BC, no intuito de quitar o depósito compulsório

Continuando …

Da fatia restante, ou seja, R$ 800,00 estarão disponíveis no “Banco X” para que ele próprio decida como vai administrar esse dinheiro. Num determinado momento, esses mesmos R$ 800,00 são destinados como empréstimo pessoal ao “Cliente B”. Repare que aqui houve “uma multiplicação de valores monetários”, SEM QUE O DINHEIRO TENHA SIDO MULTIPLICADO FISICAMENTE (EM FORMA DE PAPEL-MOEDA), pois o banco usou parte do dinheiro do “Cliente A” para emprestar ao Cliente B: não há impressão de novas cédulas. 

Revisando …

Você, sendo o “Cliente A”, tem um saldo em conta de R$ 1.000,00 e o “Cliente B” tem agora R$ 800,00 à disposição também; no entanto, isso não quer dizer necessariamente que há dinheiro em espécie no “Banco X” para cobrir os dois valores, embora estejam reconhecidos nas contas do “Cliente A” e do “Cliente B” os respectivos saldos. 

O que ocorre é que na maioria das vezes os clientes não têm a necessidade de sacar dinheiro ao mesmo tempo, PORÉM, em caso de múltiplos saques efetuados nas contas bancárias, a figura dos mencionados depósitos compulsórios entra em ação para cobrir esse déficit de dinheiro físico, via transferência do BC para os bancos comerciais.

Mas se eu, o “Cliente A”, quiser resgatar os meus R$ 1.000,00, posso? Claro que sim, pois a liquidez em poupança é imediata (“capacidade de transformação em dinheiro – papel-moeda”). Só que o banco, como entidade que visa o lucro, dentro do intervalo de tempo que você não resgata, faz o seu dinheiro girar favoravelmente a ele, (que coisa, não?!), através dos empréstimos concedidos, conforme foi exemplificado no caso do “Cliente B”.

O “Cliente B”, que tomou R$ 800,00 de empréstimo, pagará juros ao banco sobre o capital. Nesse momento, você deve estar pensando: mas isso reflete a realidade de apenas dois clientes e os demais clientes desse banco, como ficam? Nessa ciranda financeira, circulam montantes enormes de dinheiro, permitindo que os bancos “façam o seu dinheiro trabalhar para eles próprios continuamente e numa velocidade gigantesca”, sendo os saldos finais, quase que invariavelmente, MUUUUUUUUUUITO POSITIVOS! 

A título de curiosidade, segundo a Economatica (empresa especializada em levantamento de informações financeiras), somente no primeiro trimestre de 2019, Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil lucraram estratosféricos RS 19,95 BILHÕES de reais, aumentando 22,3% seus lucros em relação ao mesmo período do ano passado e, em grande parte, tal geração de riqueza se deve a este trabalho eficaz de gerar $$$$$$$$$$$ através das SUAS ECONOMIAS!

Decorre daí um outro conceito importantíssimo no entendimento do assunto “como os bancos ganham dinheiro”: o chamado SPREAD BANCÁRIO, que representa a relação entre a taxa de juros que o banco remunera os investimentos que você faz nele e a taxa de juros que ele cobra para emprestar dinheiro a você, algo que hoje em dia está girando mais ou menos entre 7,5% a.a. contra 200% a.a., respectivamente! Confira o infográfico abaixo, que ilustra de maneira bem oportuna em que nível os depósitos compulsórios estão encaixados dentro do Spread Bancário (para os bancos, é só felicidade, já para você …).

 

Fonte da Imagem: Folha/Caderno Mercado

 

Atentem-se a um detalhe: volumes imensos

Atentem-se a um detalhe: volumes imensos de dinheiro (como os R$ 19,95 bilhões), logicamente, não teriam condições de serem sacados de uma hora para outra. Exatamente aí, que está uma das principais funções dos depósitos compulsórios: garantir a “realidade do dinheiro”. Ora, o banco ao emprestar dinheiro para o “Cliente B”, também fez de forma idêntica para o cliente C, D, E … Z (e mais não sei quantas vezes o alfabeto em clientes), porém, muitas dessas operações bancárias não acontecem imediatamente com saques “em espécie”, fazendo com que as operações financeiras aconteçam apenas de forma “digital” (pagamentos de boletos, transferências, etc.). 

Se não houvesse um controle financeiro por parte do BC chegaríamos em determinado ponto de completa “irrealidade” econômica, pois a velocidade das operações bancárias hoje é gigantesca! Nesse sentido, o somatório presente nas contas bancárias está longe de refletir a realidade “material” do dinheiro dentro das agências bancárias, mas para que não seja criada uma bola de neve na economia, a figura dos depósitos compulsórios vem para garantir níveis mínimos de liquidez.

A Revista Superinteressante traz em matéria veiculada no dia 04/07/2018 uma nota a respeito dessa nossa discussão: estima-se que APENAS 4% DO NOSSO PIB esteja impresso, cerca de R$ 165 bilhões circulando ao longo do território nacional.

Em decorrência disso, entra a questão inflacionária. Como mecanismo de controle de oferta de moeda na economia, o BC pode aumentar a taxa de depósitos compulsórios para os bancos, retirando destes a possibilidade de oferta de maiores volumes de produtos financeiros a você cliente. Uma vez que as disponibilidades de créditos se restringem aos clientes, as taxas de juros dos bancos sobem, fazendo com que o número de operações bancárias diminua, o que reduz consequentemente o número de compras e vendas no comércio em geral (consumo), realização de investimentos …, uma vez que a própria população, agora com menor poder aquisitivo, passe a valorizar mais a moeda, principalmente aquela que já está “impressa”, evitando dívidas grandes e/ou no longo prazo. De forma contrária, a partir do controle inflacionário, o BC pode diminuir a taxa de depósitos compulsórios, permitindo que a economia se reaqueça, caminho inverso à situação exposta anteriormente. (Se isso mexeu com seu imaginário é porque começou a perceber a importância da influência das ações governamentais na economia, assim como pode notar também o papel dos grandes agentes econômicos e as políticas desenvolvidas para captarem seus recursos e transformá-los em lucros PARA ELES!).

É minha gente, não é fácil digerir o quanto estamos reféns de uma economia carente de ajustes para que os menos favorecidos tenham chances de obterem rendimentos mais dignos, haja vista a enoooooooorme lucratividade dos “grandes barões” (a balança é absurdamente desfavorável)!

Ótima oportunidade para entrarmos num assunto que já deve ter passado na cabeça de muitos e sem dúvida, girou as rodas de conversa: se tanta gente está carente de dinheiro, por que o BC não imprime mais papel-moeda e “salva a pátria”?

Lá pela década de 1960, houve uma política desse tipo, em que o Governo começou a imprimir dinheiro para dar conta de pagar as suas dívidas e financiar projetos de desenvolvimento do país. Mas não houve nesse mesmo período aumento significativo o suficiente da produção de bens e serviço (que vem a ser o verdadeiro “termômetro da riqueza de um país” e não o volume de dinheiro, por si somente). Ou seja, não adiantava ter mais dinheiro, se não havia o que comprar (consumir) na mesma abundância: resultado, mais se gastava para obter os poucos bens e serviços disponíveis (havia intensa disputa!), e de pouco em pouco, (até virar de muito em muito), o dinheiro foi valendo cada vez menos = INFLAÇÃO. [Em outras palavras: “La Casa de Papel” (ou melhor, a Casa da Moeda) não pode trabalhar produzindo dinheiro a todo vapor, deixemos isso SOMENTE para os bons seriados … rsrs] 

Após aquele período, anos e anos foram passando … até que somente em 1993/1994, com a chegada do Plano Real, o cenário pode começar a ser modificado, afinal, com um patamar de mais de 2.000% de inflação anual, e trazendo para os dias de hoje, seria o mesmo que comprar um pãozinho de sal custando R$ 0,50 em janeiro e, “de repente”, em dezembro, ele passasse a custar R$ 10,00/unidade!! VEJAM O CAOS que a inflação causa: a cruel realidade de COMPLETA PERDA DE NOÇÃO DO REAL VALOR DAS COISAS !!

Para finalizar, gostaria de fazer um especial agradecimento pela preciosa contribuição de um amigo, Gabriel Medeiros (dedicado e brilhante estudante de economia) que tem o dom de inserir com maestria o “economês” na rotina das pessoas e que em muito me ajudou na construção do artigo de hoje! A ele, devo os belíssimos esclarecimentos concedidos e a indicação de vídeos sobre os assuntos abordados, mas em especial, resolvi deixar o link a seguir <https://youtu.be/MUwutz4q-18>, propondo então uma “volta no tempo”, o que no meu modo de entender, é uma ótima maneira de compreendermos o quanto as políticas econômicas brasileiras já nos deixaram praticamente com ZERO PODER DE CONSUMO, abordando para isso, o nosso tão polêmico, histórico e carente salário mínimo, que será a pauta do próximo texto que espero levar até vocês!

Grande abraço e muito obrigado pelo carinho, atenção às leituras, os elogios e as críticas, que é ponto-chave para a melhora dos assuntos e das explicações que venho trazendo aqui na página do Barbacena Online.

Até breve!

 

NOTA DA REDAÇÃO – Pedro Tostes Ribeiro é servidor público municipal de Barbacena; formado em Administração pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sudeste de Minas Gerais – campus Barbacena; e pós-graduando em Gestão Pública Municipal pela Universidade Federal de São João del-Rei. 

Contato: pedro@tostes.org

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.