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Ode à devastação

Ricardo Tollendal

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espaço que homem não frequenta

permanece território preservado

 

onde pisamos

desde átila não cresce grama

 

já me dou por satisfeito

que restem apenas

dois fiapos de capim no meio-fio

 

devastação principia no acúmulo

de dois sacos plásticos e jornais velhos

 

deixemos de comprar

abandonemos coisas triviais

 

na sala de casa reina ordem

que diverte carunchos e cupins

madrugada afora

 

quando dormimos, a sala exulta

porque onde homem pisa, destruição se instala

 

sem que nenhuma presença

conspurque sua integridade

livros se ajeitam na estante

 

madeira estala e atinge o esplendor

mas há uma traça rondando

já que manuseio humano tudo destroça

 

ainda bem que infinitas galáxias

a essa altura

não registram rastros

 

silêncio é o desejo maior

de espaços vazios

 

satisfaçamos a ordem cósmica:

aniquilemos a zoeira humana

 

onde homem não pisa

reina opulência

 

o planeta é simplesmente

uma bola achatada, tal qual abóbora

mas nunca amarelou

 

era azul

quando gagárin a viu das alturas

há meio século

 

logo será cinzenta

mas teremos tecnologia para abrigar

alguns eleitos em paraíso

ainda não forjado

 

aqui fica um elogio

a panacas motorizados

que não andam três quadras

porque pra isso pernas não foram feitas

 

venha o desejável poço de detritos

gerado pela máquina inescrupulosa

que nos traz delícias e comodidade

 

já que o destino nos impõe

coçar o saco

espalhemos resíduos por toda parte

infestando becos, mananciais, mares

além de almas estúpidas e inconsequentes

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