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O que seu corpo diz sobre o passado da espécie humana e da evolução da vida na Terra?

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Por Vitória Oliveira, Graduada em Ciências Biológicas e membro do Centro de Estudos em Ecologia Urbana do IF Barbacena, sob orientação do professor Delton Mendes Francelino. 

Para você, o ato de caminhar certamente parece algo bastante simples. Entretanto, tal habilidade envolve uma parte importantíssima da história da vida na Terra e, mais especificamente, dos animais: a maneira como você se desloca, caminha hoje, só se tornou possível após uma série de processos evolutivos complexos, inclusive quando nossos ancestrais hominídeos deixaram de se apoiar em 4 membros para adotar uma postura bípede (2 membros). Tal alteração primordial definiu, ao longo de um longo tempo, características que garantiram a sobrevivência do gênero Homo e, portanto, a sua existência. Se analisarmos um pouco mais a fundo, o aparecimento da postura bípede alterou muito a morfologia da estrutura óssea que é intimamente ligada à proteção da medula espinhal (órgão do sistema nervoso) e que também desempenha função extremamente importante para a sustentação do corpo e para a locomoção: a coluna vertebral, que não é exclusividade da espécie humana, como veremos a seguir.

Se pudéssemos contar a história evolutiva dos animais vertebrados (seres que apresentam coluna vertebral, incluindo nós) numa linha do tempo, precisaríamos retornar há cerca de 500 milhões de anos, aos hostis ambientes marinhos e que ainda eram dominados por gigantes animais invertebrados. Naquele momento, a água abrigava a maior parte dos seres vivos existentes, o que tornava a luta pela sobrevivência ainda mais difícil. A maioria das espécies que ali vivia precisava de condições básicas à sobrevivência: oxigênio, alimento e reprodução. Considerando a superpopulação dos oceanos, fica evidente que tais recursos não eram abundantes e por consequência, somente os animais mais adaptados conseguiriam obtê-los. Foi nesse momento que a presença de uma estrutura chamada notocorda (estrutura flexível em forma de bastão encontrada na região dorsal de alguns seres vivos) representou uma importante vantagem evolutiva, por possibilitar movimentos rápidos, eficientes e precisos. Foi essa estrutura que originou, muito tempo depois, a coluna vertebral.

Embora ainda existam seres vivos que apresentam e mantém apenas a notocorda por toda vida, em classes mais complexas tal estrutura ocorre apenas na fase embrionária (inclusive de seres humanos), sendo substituída posteriormente pela coluna vertebral. Os primeiros animais a apresentarem esse padrão (notocorda – coluna vertebral) foram os peixes, seguidos pelos anfíbios, répteis, aves e mamíferos (grupo no qual estamos). Seria presunçoso pensar que uma estrutura tão complexa como a coluna vertebral tenha surgido de forma isolada em várias espécies e grupos animais diferentes, o que nos leva a assumir o fato científico de que, todos os grupos acima citados: anfíbios, répteis aves e mamíferos evoluíram a partir de um único ancestral comum, que apresentava tal característica e que é representado por um peixe.Diversas outras características comprovam tal afirmação, tais como o padrão e número de ossos encontrados em seus braços, algo que é também reconhecido em peixes, e todos os grupos que se seguem. Além disso, se fizermos uma comparação entre embriões de espécies de vertebrados diferentes, veremos que existem muitas semelhanças. 

Você deve estar se perguntando nesse momento “Então quer dizer que a origem espécie humana está ligada a um peixe?” e a resposta é sim! “Bom, se isso é fato, porque ainda existem peixes nos oceanos e nos rios?” É importante compreendermos que o processo evolutivo não ocorre de maneira linear. Em outras palavras, existiam naquele momento, diversas espécies de peixes e apenas uma sofreu mutações genéticas sucessivas que resultaram no aparecimento de uma nova característica (ou várias). Ou seja, para que haja o surgimento de uma nova espécie ou grupo, o anterior não precisa desaparecer completamente.  

Obviamente, este artigo traz apenas recortes e pontos específicos do processo evolutivo que é amplo e extremamente complexo. Entretanto, considerar tais informações pode alterar a maneira como você se relaciona com o planeta e também com outras espécies. Ter essa compreensão auxilia a termos posturas ecológicas e cidadãs importantes, capazes de transformar a visão de que somos os seres mais especiais da Terra, assumindo condutas respeitosas e de igualdade para com outros seres vivos que também habitam esse planeta. Hoje somos uma das espécies que apresentam maior complexidade por aqui, mas não somos melhores e mais importantes que os outros seres – somos partes do todo. O criacionismo, perspectiva religiosa que entende que a vida foi criada por alguma entidade, infelizmente estimula a nos considerarmos seres superiores aos outros seres vivos, o que é um erro grave. Mudar essa visão, muito comum ainda na sociedade, é fundamental para um futuro mais sustentável e ecossistemicamente equilibrado. 

Apoio divulgação científica: Barbacena Online e Samara Autopeças

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