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O professor da pequena área

A crônica de Helcio Ribeiro Campos

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Esta foi a reverência feita pelo Santos FC diante da morte de seu maior centroavante, Coutinho, que, para tantos fãs, o melhor dentre todos os demais da história. Exagero? Vejamos… pois o reconhecimento não nasce do nada.

Coutinho virou futebolista profissional com apenas 14 anos, mais precoce do que Pelé. Marcou mais de 300 gols na carreira, incluindo 3 dos 5 que o Santos fez diante do Boca Juniors na final da Libertadores de 1963. Ganhou diversas vezes os campeonatos paulista e nacional, além de ser bicampeão da Libertadores e do Mundial de Clubes. Era o titular da Seleção de 1962, mas, lesionado, foi campeão sem ter atuado naquele “ano Mané”.

Ainda com 30 anos de idade, Coutinho parou de jogar. Um ditado popular afirma que “quantidade não é qualidade”. Há outra frase dá sentido a essa ideia: para Pelé, Coutinho foi melhor que ele próprio dentro da área. O que mais precisa ser dito?

No atual momento do futebol no qual o apelo midiático é tamanho (e que até confere mais endeusamento a certos atletas do que seria merecido), a morte de Coutinho foi lamentada por agremiações do Brasil (incluindo rivais do Santos, como Palmeiras e Corinthians) e do exterior (como o Napoli-ITA), além de diferentes confederações de futebol, chegando até a FIFA. Detalhe: Coutinho nunca jogou na Itália.

Não poderia deixar de me referir aqui ao belo trecho exposto pelo Santos diante da morte de seu maior atacante: “Antônio Wilson Vieira Honório. Negro. Intenso. Inquieto. Lendário. Coutinho”. E tudo isso não é mera idolatria ou culto a uma personalidade: é merecimento, é justiça.

Em razão do milésimo tento marcado por Pelé em 1969, o também genial Carlos Drummond de Andrade assim escreveu: “O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé”. Coutinho foi o grande parceiro do rei do futebol, com Pelé compôs a dupla imbatível das tabelinhas que imortalizou a espetacular equipe santista dos anos 60. A harmonia entre eles era tão grande que Coutinho passou a usar no punho uma faixa feita com esparadrapos e, às vezes, também descia um pouco os meiões. Você, leitor, não entende porque ele fazia isso? Simples e honrado ao mesmo tempo: ocorre que, comumente, Coutinho era confundido por torcedores e jornalistas com Pelé. “Apenas” isso!

 

Pelé e Coutinho no Santos FC (Fonte: arquivos do Santos FC)

Imaginemos como certos atacantes ficariam, hoje, cheios de marra ao serem confundidos com o maior de todos… Mas Coutinho ria dessa situação: Pepe, outro dos ícones daquele Santos multicampeão, conta que Coutinho dizia: “Se eu faço um gol dizem que foi do Pelé, e quando Pelé perde um gol dizem que fui eu”.

Sim, Drummond, Coutinho fez não apenas um, mas vários gols como Pelé!

NOTA DA REDAÇÃO – Helcio Ribeiro Campos é autor de publicações sobre Futebol e Geografia; doutor em Geografia Humana pela USP; professor do IF Barbacena; e editor da Revista Pluritas.

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