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O negro no futebol brasileiro

Hélcio Ribeiro Campos

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Vinte de novembro é o Dia Nacional da Consciência Negra e 19 de julho, o Dia Nacional do Futebol. Negros e Futebol estiveram separados não só no calendário. Demoraram um pouco para se reunir.

De início, o futebol era apenas para os ricos, e os pobres (brancos e negros) improvisavam para jogar. Daí a “bola de meia”, pois tudo era caro e importado. Nesse tempo (virada do século XIX para o XX), o brasileiro gostava de esportes náuticos (remo e regata) e turfe.

Aos poucos, o futebol foi se projetando. Para isso, muito atuaram as escolas, estudantes repatriados do exterior (onde conheceram o jogo), marinheiros estrangeiros que batiam uma pelada nos litorais, jornais impressos e, depois, as rádios.

Contudo, isso não significou a introdução imediata de mulatos e negros no futebol brasileiro. O preconceito era gritante poucas décadas após o fim da escravização. Sua ideologia permanecia e ainda está presente, conforme presenciamos nesses tempos bestiais de recentes debates políticos.

Relatos de times que passaram a incorporar os negros Brasil afora são, hoje, conhecidos. Talvez o caso mais repercutido (mas não pioneiro) seja o do Vasco, em 1923. Isso se deu provavelmente devido ao bicampeonato estadual de 1923 e 24, pois outras agremiações que tinham atletas negros não lograram tamanho êxito nas primeiras décadas do século XX.

Vasco da Gama e seus jogadores negros nos anos 1920. Fonte: netvasco.com

Outros clubes, porém, relutaram em aceitar os negros. Adiaram tal processo times como Grêmio e Fluminense, por exemplo. Ambos tiveram, curiosamente, grandes heranças dessa situação. O hino gremista seria composto exatamente por um afro-brasileiro, o genial Lupicínio Rodrigues. Já o tricolor carioca, eternizou seu racismo em 1914, quando maquiou Carlos Alberto (mulato que contratou junto ao América-RJ), recebendo daí em diante a alcunha de time e de torcida “pó de arroz”.

A final da Copa de 1950 mostraria que os negros já eram comuns no futebol, mas que o racismo ainda não tinha saído de cena no Brasil. A estupenda campanha se transformaria em decepção na final. A defesa brasileira, formada por negros, foi duramente criticada. Bastava o empate. Começamos vencendo com o tento de Friaça. O goleiro Barbosa nunca mais teve paz por ter sido considerado culpado pelo segundo e decisivo gol uruguaio. A culpa recaiu apenas nos jogadores negros, definiu Mário Filho em seu livro O negro no futebol brasileiro, cujo título reverencio neste texto.

Nossa mistura de raças era tida como explicação pelo fracasso nacional no futebol e nas condições de vida do (ainda) sofrido povo brasileiro: o “complexo de vira-latas” parecia grudado em nós, até que as Copas de 1958 e 1962 redimiram o futebol, sobretudo pelo talento de Didi, Pelé e Garrincha.

Garrincha, Didi e Pelé: os grandes nomes das seleções de 1958 e 1962. Fonte: Positional Hall of Fame.

Em 1970, Pelé fez sua última e primorosa Copa. Nasceria depois dali o “rei do futebol”, eleito e aclamado mundialmente. Tais jogadores abriram um extenso caminho para a contratação de jogadores brasileiros no exterior.

Mesmo que pouco atuante na causa negra, Pelé mostrava que o negro podia vencer. Outros já o tinham feito, como Friedenreich, Leônidas da Silva e Garrincha, mas não com o mesmo efeito midiático de Pelé.

Apesar disso, um ano antes, em 1969, ao marcar seu milésimo gol, Pelé ousou pedir atenção às criancinhas brasileiras em plena ditadura militar. Já era uma estrela e, por isso, nada sofreu. Foi criticado e tido como piegas.

Depois, Pelé não atuou politicamente nos anos 70 em prol dos negros. As décadas de 1960 e 70 ficaram marcadas por variadas manifestações pelos direitos civis e sociais nos EUA, como dos Panteras Negras e a recusa de Muhammad Ali em lutar no Vietnã, algo que não acontecia com os brancos ricos. O movimento Black Power ecoou e “pegou” no Brasil. Ao contrário, Pelé foi garoto-propaganda para o brasileiro João Havelange chegar ao poder na FIFA, podendo se imortalizar como o dirigente de falcatruas e que globalizou as Copas.

Todavia e ainda bem, o maior legado de Pelé foi o de ser o atleta incomparável. Em Bauru-SP e apenas com 13 anos, seu técnico, Waldemar de Brito, já o via como o maior jogador de futebol da história. A trajetória de Pelé no futebol abriu caminho para o recrutamento de jogadores (negros) pelos europeus em suas antigas colônias, ali nascidos ou delas oriundos. Assim o mundo conheceu, dentre tantos, Eusébio (Moçambique), Zidane (Argélia), Gullit (Suriname) e os 15 atletas da atual campeã mundial, a França.

No Brasil, todavia, nada parece ter servido de exemplo, apesar de contarmos com outros brilhantes jogadores negros, como Romário, Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, todos eleitos melhores do mundo.

O problema é que reconhecemos e aceitamos somente alguns poucos negros, como esses citados, e com destaque em suas respectivas áreas, como na ciência (o geógrafo Milton Santos) e na música (Pixinguinha e Milton Nascimento). A maioria da população brasileira (cerca de 54%) é composta de mulatos e negros, justamente aqueles mais desfavorecidos e massacrados pelas elites. Precisamos também figurar entre os melhores do mundo em saneamento, moradia, honestidade…

Brasil, o país de melhores jogadores entre as piores condições. Até quando?

Hélcio Ribeiro Campos

NOTA DA REDAÇÃO: Helcio Campos é autor de publicações sobre Futebol e Geografia; escreve o Blog Futebol, Cultura e Geografia; mestre e doutor em Geografia Humana pela USP; editor da Revista Pluritas; professor do IF Barbacena.

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