O índio Peraltap

Marina Cerqueira

No século passado, o número de analfabetos era grande em nosso país, principalmente na área rural, sobretudo nas populações indígenas. Por terem um idioma próprio, muitos não tinham acesso ao nosso idioma.

Em um pequeno sítio, localizado no interior de Minas Gerais, no município de Teófilo Otoni vivia um casal de imigrantes italianos, sem filhos. Nesse torrão de terra o casal vivia muito feliz, por terem adquirido esse espaço e  poderem viver em paz. Simpáticos, como a maioria dos conterrâneos, Lorenzo e Ermelinda eram muito queridos entre os vizinhos, e até entre alguns nativos.

Bem perto dali havia uma Aldeia de Maxakali. Ermelinda lavava suas roupas nas águas cristalinas do Rio Todos os Santos, que banhava o local. Vez ou outra ela via nativos por perto. Um indiozinho lhe chamava atenção, pois olhava para ela e sorria, quase todos os dias. Com o passar do tempo houve uma aproximação entre ele e o casal, pois Lorenzo ia até o rio pescar, pelo menos nos finais de semana. É difícil precisar quem conquistou quem, o casal ou o guri. Penso que houve uma simpatia mútua. Aos poucos, Juruna passou a viver a maior parte do dia no sítio do casal, com a aprovação do Cacique da Aldeia, que já confiava no casal, apesar de não compreender o idioma dos imigrantes. Juruna levava presentes do casal para sua Aldeia e trazia outros da Aldeia para o casal. Aos poucos se tornou um mensageiro entre o casal e a vizinhança, principalmente ente os conterrâneos do casal, assim que aprendeu palavras básicas do idioma italiano portuguesado.

Naquela época, os vizinhos se visitavam com frequência. D. Ermelinda andava com a pulga atrás da orelha, pois os compadres Giovanni e Michella, vizinhos e conterrâneos não vinham visitá-los a longo tempo. Ela já estava saudosa deles, principalmente das seis crianças, que enchiam sua casa de  alegria quando vinham passar o dia com eles. Ermelinda era madrinha de Paola, a mais velha  que contava com apenas oito anos de idade.

Diante do sumiço das visitas dos compadres do Síto Ternura, Ermelinda e Lorenzo prepararam uma cesta rica em petiscos, incluindo frutas e pediram Juruna para levar até a casa dos compadres. Dentro de um bornal, colocou petiscos suficientes para o mensageiro se nutrir durante a viagem, pois a distância entre os sítios era de aproximadamente, 5 km. D. Ermelinda entregou ao Juruna uma carta para ele entregar à comadre. Juruna saiu feliz pelos campos orvalhados da manhã, carregando a cesta tecida em taquara, coberta com um lindo pano de prato bordado à mão, em ponto de cruz. Ao longe, o sol despontava faceiro derretendo o orvalho das folhas verdinhas. Os pássaros entoavam linda alvorada.

Pulando, assobiando ou  cantando, seguia o guri pelos trilhos afora. De vez em quando parava para pegar gabirobas, banhar-se no rio e/ou saborear petiscos que despendiam um cheiro convidativo.

Quando já havia percorrido mais da metade do caminho parou debaixo de uma árvore frondosa, uma figueira exuberante e percebeu que o sol estava a pino, meio dia!

Ele sentiu o cheiro de uma fruta mui saborosa: banana! Defrontou com um problema, em seu bornal não havia nenhuma. Matutou, matutou e buliu uma banana da cesta! Que delícia, murmurou baixinho… jogou a casca para um macaco que pulava de galho em galho na figueira e seguiu direto rumo ao destino.

Ao chegar à casa dos famosos compadres foi recebido pelo Biru, o cãozinho faceiro, que não queria morder, apenas anunciar a chegada da visita.

Logo apareceu D. Michella que o recebeu muito bem, sendo sua primeira atitude ler a carta e, em seguida tirar os petiscos da cesta.

Assim que esvaziou a cesta, veio a pergunta:

– A banana estava gostosa?  A resposta, meio trêmula, veio em seguida:

-Como a senhora sabe que eu comi uma banana?

-Pela carta, rapaz. Disse a senhora com sorriso maroto.

Acabrunhado ele se despediu pegando a carta-resposta, a cesta vazia e voltou sem parada para o Sítio Florença. Na varanda, D. Ermelinda esperava ansiosa por noticias do compadre, comadre e família. Pegou logo a carta e foi mudando o semblante diante das notícias de sarampo com a criançada toda. Mal aguardou a chegada do Lorenzo para lastimar a penúria que os compadres passavam com o maldito sarampo. Como o casal ainda não havia tido a peste, eles passaram boa parte da noite ao redor das brasas na cozinha de chão batido, matutando uma maneira de aliviar a peleja dos compadres e filhos. Lorenzo tratou de achar sabugueiro para enviar para a familia. Ermelinda tratou de preparar quintadas, macarrão…Costurou algumas peças de roupa para as crianças e enviou mais frutas para a comadre oferecer as crianças. Escreveu uma carta detalhada para a comadre, explicando o motivo de não poder visitá-los e oferecendo ajuda, na medida do possível.

Juruna pegou a cesta, o bornal e foi tranquilo pelo caminho afora. Quando ele cansava, fazia as paradas costumeiras. Até que na última parada, após sentar em cima da carta, gritou bem alto:

– Sua linguaruda, quero ver você fofocar, você não vai ver nadinha de nada. E  buliu duas banana. Saboreou-as matando o desejo provocado pelo odor delicioso, jogou as cascas para um casal de mico estrela que estava bem pertinho.

Ao chegar ao destinho, entregou tudo direitinho à D. Michella, que logo foi lendo a carta e perguntou:

– As bananas estasvam gostosas?

– Como a senhora sabe ?

-Pela carta. Desta vez ela não viu nada, eu sentei em cima dela, disse o guri peralta.

Com um sorriso disfarçado ela perguntou-lhe:

– Você não sabe ler?

– Ler, o que é isso? Inteveio todo embaraçado o guri.

– É através da leitura e escrita que conversamos, mesmo longe de pessoas queridas, Juruna.

Pera aí, vou ler a carta que escrevi para a comadre para você entender e começou:

Sítio Ternura, 05 de julho de 1947

         Prezada comadre Ermelinda,

               É com imenso carinho e gratidão que pego na pena para escrever-lhe estas poucas linhas. Graças ao São Francisco de Assis, padroeiro de nossa saudosa Itália as coisas por aqui estão melhorando. As crianças já estão comendo melhor. Imagine que nem polenta elas comiam no auge do maldito sarampo. Acho que os conmpadres preocuparam muito com a gente, estamos até sem jeito por tantos presentes. E as roupinhas? Parece que você mediu nos bambini. Eles vão vestir no dia que vocês vierem aqui, combinado, comadre?

Comadre, vou lhe pedir um grande favor, ensina esse guri a ler. Ele é esperto por demais e me cativou. Depois lhe conto uma historinha bonita, sim?

As crianças pedem as bênçãos dos compadres, especialmente Paola, a afilhada de vocês.

Estou enviando-lhe uma rapadura, o Giovanni tem feito e vendido para o pessoal que vem pescar aqui nos finais de semana. Repara não, pois é a unica coisa que tenho para retribuir um pouquinho do imenso carinho de vocês.

Perdoa-me pelos erros e termino rogando à Nossa Senhor Aparecida para proteger-nos nesta terrinha abnçoada, nosso já querido Brasil, onde se plantando tudo colhe.

           Sua comadre que muito a estima,

                              Michella Rizzo Lombardi

De boca aberta, Juruna olhava e ouvia atentamente. Será que eu aprendo, D. Michella?

– Com certeza, você é muito esperto, vai aprender logo, logo…

Eles se despediram. E, em um só fôlego,  Juruna percorreu os 5 km até o Sítio Florenza, onde D. Ermelinda e senhor Lorenzo o aguardava. Ele foi logo entregando a carta ansioso para ver a titude de D. Ermelinda. Após ler emocionada a mississiva, dirigiu-lhe um profundo olhar e um longo abraço. No dia seguinte abriu-se a primeira Escola naquele Sítio Florenza com o primeiro aluno nativo… Uma linda história de leitura e escrita foi construída a partir da empatia, tributo essencial para a vida harmônica e produtiva em uma sociedade, por mais heterogênea que seja a sua composição. Juruna estudou…estudou…e, se tornou um famoso deputado…

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