O estranho caso de George Boyer

Jairo Attademo

Uma situação bizarra

Desde pequeno, George tinha ódio de sua perna esquerda. Uma verdadeira aversão. Sua repugnância era tanta que durante toda a sua vida seu maior sonho era acabar com ela usando as próprias mãos.

A família não conseguia entender o comportamento do menino e os constantes ferimentos que ele fazia em sua pobre perna esquerda, enquanto a direita permanecia incólume.

Todos achavam que aquele garoto tinha um problema mental.

Os pais poderiam pensar que talvez ele tivesse sofrido algum trauma na ausência deles e que, por isso, descontava o sofrimento em si, ferindo repetidamente a própria perna em vários pontos.

Isso é especulação minha, contudo.

George, não aparentava ter outros distúrbios além da estranha vontade de se livrar da própria perna.

Apesar de constantemente ansioso, ele tinha, em outros aspectos, uma vida normal.

MENDIGO COM MULETAS – GOYA

O mistério

O que poderia ser aquilo? Será que um dia passaria?

À época, tentaram vários recursos médicos para ajudar o menino, que de nada serviram.

No entanto, a adolescência chegou e George continuou demonstrando insatisfação com a presença daquela perna presa ao seu corpo. Para ele, era um apêndice indesejável.

Estava óbvio que ninguém iria autorizar que lhe arrancassem a perna! Quem compactuaria com uma maluquice dessa?

Uma vida sofrida

Assim, George prosseguiu vivendo. Estudou, formou-se em arquitetura, trabalhou por muitos anos e aposentou-se, mesmo incomodado por ter duas pernas, quando seu maior anseio era ter apenas uma.

Mas o que ocorreu é algo impensável para a absoluta maioria dos mortais.

WHOLE – O DOCUMENTÁRIO

A atitude

O aposentado George Boyer tinha 68 anos de idade, em 1992, quando resolveu tomar uma providência. Como num dia normal, levantou-se, fez a higiene matinal, tomou café e tornou aquele dia o mais anormal de sua vida.

Pegou numa espingarda de caça e sentou-se na grama em frente à casa.

Não é incomum ver homens limpando armas, calmamente, sentados na varanda, especialmente no interior dos Estados Unidos, onde manter armamentos e munições em casa é corriqueiro.

Só que não era uma limpeza o que ele estava fazendo.

Com a carabina de lado, George Boyer fez um torniquete apertado na parte superior da coxa esquerda, pegou a arma com a mesma naturalidade com que pegaria uma vassoura, apontou o cano para a perna esquerda e a explodiu em pedaços.

O ESTUDO ÉTICO-FILOSÓFICO

As consequências

Logo os vizinhos o acudiram, chamaram o Socorro, que encaminhou George ao hospital mais próximo, a fim de estancar o sangramento e salvar a sua vida, e, talvez, a perna.

No caminho, o aposentado implorava aos paramédicos para que não recuperassem aquele membro, um inimigo seu desde que nascera. Obviamente os socorristas nunca dariam ouvidos a um paciente aparentemente delirando.

George Boyer foi levado para a sala cirúrgica, mas continuava implorando aos médicos e enfermeiros para que amputassem a sua perna. Aquilo era insólito demais.

Após uma série de medidas emergenciais, os médicos achavam que poderiam salvar a perna de George, que chorava, implorava e pedia, pelo amor de Deus, que lhe poupassem o sofrimento de ficar com aquele membro.

Tudo foi tentado, mas a perna acabou por ser amputada.

A reação

Quando George acordou da anestesia e viu que não tinha mais a perna que tanto repudiava, sua reação foi imediata.

Ele sorriu aliviado e mostrou uma fisionomia de plenitude. Disse que se sentia completo.

Completo com apenas uma perna.

Boyer viveu o resto da vida usando uma prótese para andar.

A explicação (?)

Esse é um assunto que está no centro de uma polêmica que nunca acaba.

Há quem diga que se trata de apotemnofilia, que é o desejo de ter um membro amputado e até à acrotomofilia, que é o desejo sexual por pessoas amputadas.

Palavras difíceis que podem não explicar o fenômeno de Boyer.

George é mais um caso de amputado voluntário, uma condição rara, pouco documentada e ainda investigada.

O nome da provável patologia que acometia o arquiteto aposentado foi dado pelo psiquiatra Michael First, da Universidade de Columbia: Transtorno de Identidade de Integridade Corporal, T.I.I.D.

Há neurocientistas que relacionam esse distúrbio ao lóbulo parietal direito do cérebro, onde ocorreria uma distorção do mapa que temos de nosso próprio corpo. Com a palavra, os neurocientistas e neurologistas.

É uma situação rara, diagnosticada muito pouca gente no mundo, os chamados wannabe, ou wanna be, que significa quero ser. Quero ser o quê?

Um amputado.

Cientistas e grupos de wannabes discutem até hoje se seria ética a amputação de membros saudáveis de pessoas com T.I.I.D.

De um lado, há quem diga sim à amputação, alegando que o T.I.I.D. pode ser mais prejudicial ao paciente do que perder um membro. Ainda alegam que a cirurgia seria realizada num ambiente médico, evitando autoagressões como a que fez George.

De outro lado, há muitos que entendem a remoção de um membro saudável como uma mutilação intencional e antiética.

O documentário

Os casos de Boyer e de outros pacientes com T.I.I.D. são retratados no documentário do ano de 2003, chamado Whole – ou inteiro – dirigido pela cineasta Melody Gilbert.

Quando ela ouviu falar dos wannabes, achou que tudo não passava de fake-news, mas depois conheceu vários nos Estados Unidos e na Europa.

No filme aparece Baz, um holandês de 50 anos que congelou uma das pernas para que os médicos fossem obrigados a amputá-la.

Também surge Kees, um outro holandês que anda de muletas simulando uma incapacidade que não tem, um típico wannabe, ou seja, um quero ser amputado.

O filme de Melody Gilbert tenta explicar o paradoxo de sentir-se inteiro e saudável tendo um membro a menos. Para a diretora, os portadores dessa condição fogem da mídia, pois sabem que a reação da maioria das pessoas não é positiva.

O Estudo ético-filosófico*

Um paciente que ficou famoso e motivou um estudo filosófico é o palestrante e professor universitário Kevin Wright, também um wannabe.

Ele afirma que apesar de saber que o desejo de ser amputado é uma coisa bizarra, isso não elimina o anseio por se ver livre de um membro indesejável.

Wright foi citado no estudo do professor Macario Alemany, titular de filosofia do Direito da Universidade de Alicante, na Espanha.

O palestrante foi amputado pelo cirurgião escocês Robert Smith em 1997, custeado pelo Serviço de Saúde do Reino Unido. O médico envolveu-se numa enorme polêmica depois de operar outro wannabe dois anos depois, no mesmo hospital da Escócia.

A cirurgia de amputação de pacientes wannabe foi proibida pela diretoria do hospital depois que um paciente dos Estados Unidos procurou o estabelecimento em busca do mesmo procedimento.

Seria ético retirar um membro saudável de uma pessoa que deseja, de qualquer maneira, não ter aquele membro?

Ou seria antiético, pois não se deve remover membros saudáveis, fato que seria considerado mutilação intencional?

Tema polêmico, interessante e que mostra, sem dúvida, que há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que pode imaginar a nossa vã filosofia.

E que há mais disrupção no comportamento humano do que pode inventar o mais criativo dos mortais.

Se estiverem interessados em ver esse artigo em vídeo, basta ir ao canal do autor no Youtube: www.youtube.com/@lendas.historias396

 

* O Estudo pode ser encontrado nesse link:

https://repositorio.uam.es/handle/10486/669312

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