O engano fatal de Teócrito Teodósio

A crônica de Ricardo Tollendal

Na manhã de cinco de março de 1947, uma quarta-feira, Teócrito Teodósio se assentou no vaso sanitário e defecou antes que se passassem três minutos. As tripas aliviadas lhe sugeriram que era necessário retomar o prumo de uma vida mais que rotineira. A profissão já não lhe bastava. Estava ansioso por um passo além de seus cinquenta e poucos anos bem-sucedidos.

Sozinho em casa quando os sinos repicaram sete horas e nu no quarto de banho, ainda assim Teodósio refugou ante a ideia de comprometer sua reputação escrevendo banalidades literárias, ou empunhando pincéis como sonhara na infância rural. Sua mulher tinha viajado há dois meses, para cuidar dos pais doentes. Dois filhos mais velhos estudavam na capital, e as duas mais novas já tinham saído para o colégio. A cozinheira fazia a feira. Teodósio afundou na banheira de água morna e disse para si mesmo: – Assim não pode ser. Não vou me estrepar de novo nessa esparrela.

Suas reticências provinham dos flertes com uma dama insinuante, que todas as tardes o aguardava rente à janela. Ele dirigia seu automóvel de volta para casa, quase pontualmente, às quatro da tarde, e lá estava ela, regando flores ou simulando polir a vidraça.

Em suas noites solitárias, Teócrito Teodósio frequentava o clube dos notáveis, onde era costume jogar xadrez, arriscar tacadas no pano verde da sinuca ou compactuar com os versejadores, que não se afastavam do balcão do bar. Teodósio preferia lançar vista d’olhos nos jornais chegados pelo trem das cinco horas e, a seguir, acercar-se das eminências locais que discutiam o noticiário. Ainda se recordava do que havia dito o Senador Masseta, quando a guerra mal se iniciava: – Fascista é quem pretende esmagar a divergência, em prol da hegemonia de uma visão unilateral, que favorece a preservação de privilégios.

Nunca mais Teodósio esqueceria aquela definição de intolerância, que tão bem se ajustava a seus critérios. Liquidado o conflito, em cinco de março de 1947 sua peleja pessoal persistia e alcançava limites intoleráveis. Que fazer do resto de sua vida? Não cederia à dama da janela. Sua vida pregressa já lhe trouxera dois ou três filhos fora do matrimônio, e isso era irrepetível.

A terra em que Teodósio se havia radicado no início dos anos trinta, por acidente de percurso, era um burgo friorento e avesso à sabedoria, ao talento, à criatividade. A energia dos habitantes se exauria em questiúnculas politiqueiras que contrapunham dois primos, em oposição não apenas conveniente, mas permeada de nuances mais que frívolas. Nesse ambiente Teodósio se movimentara com desenvoltura e independência, sem aderir às correntes dominantes. Servira como edil durante décadas, quando a esse cargo não cabia remuneração.

Em cinco de março de 1947, ele pôs o carro na garagem após presenciar uma vez mais o oferecimento da dama insinuante. Quando ia trancar os portões de ferro, foi abordado por um comerciante libanês e correligionário do partido que, na velha República, fora hegemônico. Disse-lhe o turco: – Precisamos pensar nas eleições para a prefeitura. Nos reunimos amanhã.

Teodósio entrou em casa, foi mimado pelas filhas colegiais e pendurou o paletó no cabide do quarto de dormir. A seguir, retornou pelo longo corredor, assentou-se numa poltrona da sala do rádio, ligou o transmissor e empunhou um romance de Georges Bernanos, que lhe fizera uma dedicatória. A leitura não o absorveu. O noticiário do rádio anunciava que o Presidente Eurico Gaspar Dutra garantia a realização de eleições municipais ao fim do ano em curso.

Às seis e meia, Firmina veio anunciar que o jantar estava servido. Teodósio se limitou a um prato de sopa, e nem ouviu a tagarelice das filhas, que se encantavam com um poema do lúgubre poeta local, publicado na mais recente edição do semanário da cidade.

Teodósio raspou o prato. Após a última colherada, desceu as escadas ao lado da despensa, a fim de verificar as trancas que levavam ao porão. Foi para o clube, onde percebeu uma agitação incomum, acentuada por sua presença.

– As eleições, Teodósio. Vamos lançar seu nome contra o filho de       Nhonhô.

Teodósio disse que não. Era aventura. Quem podia prever o que faria o concunhado de Nhonhô, que vinha se aprumando após uma década de oposição a regime discricionário? Outras investidas se sucederam nessa mesma noite, e Teócrito Teodósio permaneceu irredutível. Saiu do clube mais cedo, sob a alegação de que na manhã seguinte daria suas aulas no colégio público, e a tarde era reservada ao atendimento gratuito de todos os necessitados.

Teodósio, na verdade, perambulou horas inteiras, sem sapatos, pelos corredores e salões de sua moradia. Descalço, o soalho não rangia. Suas filhas dormiam exaustas de estudo. Pouco após a meia-noite, ele foi à cozinha beber um copo d’água, porque a ansiedade o secava. Ouviu pela janela entreaberta o matraquear do trem que rumava para a capital.

Às seis da tarde de quinta-feira, o comerciante libanês o abordou no Jardim Municipal, para informá-lo de que a reunião do diretório, nessa mesma tarde, homologara sua candidatura. Teócrito Teodósio resgatou sua dúvida insolúvel: – E o concunhado de Nhonhô?

O turco lhe garantiu que tudo haveria de se acertar, e Teócrito dele se despediu com aperto de mãos, que acentuou em seus próprios dedos a friagem da noite e a suadeira que o incomodava há dois dias. Teócrito tinha lá suas pretensões, alimentadas por várias décadas. Mas qual seria a postura do concunhado de Nhonhô?

Mais uma noite Teócrito vagou por salas, salões e corredores. Descalço, não fazia bulha. Não sentiu sede nem ouviu passar o trem da madrugada. Acabou acreditando que era melhor seduzir a senhora das janelas que se envolver em questões políticas. Mas quando sorvia seu café com leite na manhã seguinte, o comerciante libanês entrou esbaforido pelos corredores e lhe anunciou que o concunhado de Nhonhô decidira apoiá-lo. Teócrito Teodósio teve dois segundos para remoer sua incredulidade e sua indecisão. Em seguida assinou sua sentença de morte, ocorrida apenas um ano ao fim do mandato.

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