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Falar sobre a morte não precisa ser um tabu

Por Maria Solange Lucindo Magno

Numa época em que se fala tanto sobre morte digna e que tomamos conhecimento de tantos amigos e conhecidos que estão partindo, discutir o assunto está se tornando natural. Dá medo? Sim, muito, pois não sabemos o que vem depois e nunca se soube de alguém que tenha voltado para contar.

Quisera eu ter o talento de Edgar Allan Poe para escrever um texto sobre o tema com pitadas de mistério, suspense e frieza. Mas como não o possuo, vou dar as minhas próprias impressões.

Penso que não há quem não tema a morte, que a imagine, mesmo não querendo entender. É incômodo falar sobre isso, traz desconforto fazer um planejamento, um testamento, deixar instruções para parentes. Muitos preferem ignorar o assunto e deixar para que os que ficam tomem decisões depois.

Quando eu penso na minha morte imagino: será que vou ouvir os outros, vou ter consciência  de que estarei morta, haverá um silêncio tranquilizador e paz, retaliações, vou me encontrar com Deus e me sentir envergonhada por não ter “completado o meu copo”? Confesso que o grande receio que tenho é o de acordar debaixo da terra. Esse é o meu maior pavor. No meu imaginário, gostaria de ser enterrada suspensa como a Julieta do filme Romeu e Julieta. Quem sabe, para que o meu Romeu me resgate! Penso que esse meu temor tenha colaborado para  a minha pretensão em ser cremada.

O fato é que a morte é um grande e indecifrável enigma. E eu me recuso a acreditar que tudo tem um fim quando acaba a matéria. Do contrário, para que tanto sofrimento, restrição e provações. Para que tolerar tantas coisas? Tem que haver algo além, um outro plano.

Quando vamos fazer um procedimento ou cirurgia e nos aplicam aquele líquido da paz, apagamos docemente. Não há reação e nem contestação, somos dominados. Seria tão bom se a morte chegasse assim! Mas, não, normalmente voltamos e essa volta costuma ser dolorosa.

Entretanto, não há como prever, calcular e se precaver contra a morte. Como disse Dom Orlando Brandes, temos a certeza de que a morte virá, mas quando, como e em que circunstâncias, jamais saberemos. A senhora morte (aquela da foice) chega quando menos se espera e ela costuma ser bem cruel para algumas pessoas. Alguns poucos privilegiados tombam para o lado ou morrem dormindo, aparentemente, sem sentir dor. Costumamos nos perguntar: por que fulano, que é uma pessoa tão boa, teve uma morte tão triste? Não há respostas.  

Atualmente, se discute sem reservas a possibilidade de programar a própria morte. Essa discussão já chegou ao Brasil através de movimentos como o Eu Decido e tomou fôlego após o escritor Antônio Cícero ter ido até à Suíça e praticar o suicídio assistido. Dr. Drauzio Varella é favorável e está à frente dessa discussão. É o que chamam de ter direito a uma morte digna.

Ocorre que tal decisão envolve aspectos éticos, religiosos e jurídicos. É algo difícil até de discutir, uma vez que entre os mais jovens a questão religiosa não pesa tanto. Há aqueles que dizem que não ficarão velhos, pois antes disso vão se matar.

Com a aprovação recente de uma lei no Uruguai, autorizando por meios legislativos a eutanásia, essa discussão cada vez mais nos ronda, apesar de a religião católica condenar com veemência.

O Uruguai foi o primeiro país da América Latina a aprovar a eutanásia, mas para que ela aconteça é necessário que: a pessoa tenha cidadania uruguaia ou resida no país; seja maior de idade e esteja apta psiquicamente a tomar a decisão; ser paciente em fase terminal ou portadora de uma doença incurável que traga sofrimento ou afete sobremaneira a qualidade de vida.

Melhor explicando, a eutanásia é o ato intencional de abreviar a vida de pacientes com grave doença incurável ou estado terminal, com o objetivo de aliviar a dor e sofrimento. Há assistência médica e quase sempre a solicitação é feita pelo próprio paciente ou seus representantes legais.

Já o suicídio assistido, que consiste na prescrição médica de remédios que têm a mesma finalidade, que é pôr fim à vida, difere da eutanásia no sentido de que a pessoa que faz a opção é que autoadministra a substância que a levará à morte.

Ambos os procedimentos não são permitidos no Brasil, pois são considerados crimes e julgados como homicídio. O que se adota até então é a ortotanásia ou “morte natural”. Por vontade do paciente, os medicamentos são suspensos ou diminuídos gradualmente, evitando o prolongamento artificial da vida.

O fato, no entanto, é que cada vez mais pessoas defendem o direito de decidir quando deve terminar a própria vida, isso relacionado a quem tem doenças incuráveis, terminais, incapacitantes, enfim, quando não há mais uma boa perspectiva de vida.

De acordo com vários depoimentos sobre o tema morte, ouvimos de diferentes pessoas em todos os aspectos os seus receios mais comuns: há os que temem morrer sem realizar o que gostariam ou deixar assuntos mal resolvidos; há o receio de deixar a família ou perder a lucidez. O maior temor, porém, é o desconhecido da morte.

Ao pensarem na própria morte, as pessoas costumam refletir sobre ter medo de sofrer para morrer; na vontade de fazer escolhas mais ousadas, uma vez que haverá um fim e tentam conseguir abrir o coração para enxergar que o parto e a morte são processos naturais. Penso, entretanto, que é preciso ter um grande nível de evolução para entender ou tentar aceitar.

É possível ver beleza na morte? Mais cedo ou mais tarde ela vai surgir com alguém perto de nós ou com a gente mesmo. Olhar para ela de frente pode nos destruir, mas ter a consciência dela pode nos salvar. É quando permitimos que grandiosos sentimentos como o amor, perdão, gratidão se manifestem. Eu acredito que o maior alento que se pode ter ao chegar ao fim da vida é concluir que amou e foi amado o bastante. Ai, sim, terá valido a pena viver.

Li algo que considerei muito interessante: “Falar sobre a morte cria musculatura emocional para lidar com tamanho desafio”. De fato, cria-se vínculos fortes com quem aceita falar sobre a finitude. Mas é preciso exercitar, romper barreiras.

Dizem que os rituais de despedida são importantes para os que permanecem vivos. Uma prova disso é que todos querem enterrar os seus mortos. Num recente passado doloroso tomamos conhecimento de inúmeras pessoas que faleceram e não puderem ser veladas ou conduzidas aos túmulos por seus familiares por causa da Covid. Foi devastador e traumático. Uma dor adicional.

Em última instância: será que se soubéssemos o dia de nossa morte, viveríamos melhor ou agiríamos de forma inconsequente e seríamos ansiosos? Será que seríamos agradecidos pelo tempo vivido ou revoltados pelo tempo predefinido? Não há como saber.

Talvez o nosso maior temor não seja o da morte, mas o de olhar para trás e ver tudo que deixou de viver por sucessivos adiamentos.

Na minha concepção ao ter tantos princípios e crenças arraigadas, Deus deu a vida e só Ele pode tirar. Estar na vida implica ônus e podemos ter uma morte digna sem, necessariamente, escolher o dia de morrer. Não espero a concordância de ninguém, portanto, não posso me estender nesse assunto que é polêmico e vai gerar muita controvérsia.

Por Maria Solange Lucindo Magno – professora e pedagoga

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