Por. Camila Monteiro, psicóloga clínica na abordagem existencial (crp: 04/80672), com orientação de Dr. Delton Mendes Francelino
Que as redes sociais se tornaram parte constante do nosso cotidiano não é novidade. No Brasil, essa realidade se intensifica a cada ano, e a presença online ocupa espaço cada vez maior na vida das pessoas. De acordo com o relatório Digital 2024, da We Are Social, o país ocupa a 2ª posição no ranking mundial de tempo online e a 3ª posição especificamente em tempo de uso de redes sociais.
Diante desse cenário, além da necessidade de conscientizar sobre o tempo excessivo nas redes, pergunto-me: por que nós, brasileiros, permanecemos tanto tempo conectados? O que buscamos ou tentamos evitar nesse uso constante das redes sociais?
A fuga do real no digital
Uma breve pesquisa mostra que o uso contínuo das redes, especialmente de vídeos curtos, estão diretamente ligados à dopamina que produzem em nosso cérebro. Grandes empresas realizaram inúmeras pesquisas sobre o comportamento humano e aplicam esses conhecimentos às plataformas, justamente para prender nossa atenção cada vez mais.
Mas há também uma dimensão social que não podemos ignorar. Em um país marcado por profundas desigualdades, muitas pessoas, sobretudo as de classe média baixa, encontram no celular e nas redes sociais não apenas a principal forma de acesso à internet, mas também um espaço de refúgio diante de realidades duras e limitadas. Para quem enfrenta jornadas de trabalho exaustivas, falta de lazer acessível e poucas oportunidades de mudança concreta, as redes podem funcionar como um escape: um lugar de distração, pertencimento e sonhos possíveis.
Então me pergunto: será que as redes sociais são de fato tão estimulantes, como os dados indicam, ou também existe uma parte de nós que encontra refúgio daquilo que o real insiste em mostrar? Esse tempo online é apenas prazer momentâneo ou uma tentativa de suportar rotinas cansativas, frustrações e a distância entre a realidade que temos e a realidade que gostaríamos de ter, exibidas em vidas idealizadas em discursos meritocráticos?
O olhar sobre nós e o outro
Buscar conscientizar a população sobre a necessidade de reduzir o tempo dedicado às redes sociais é fundamental, mas é igualmente importante ir mais a fundo. Precisamos compreender o que nos leva a permanecer tanto tempo conectados, tanto do ponto de vista social quanto individual. Estamos evitando olhar para o nosso cotidiano, nossas relações, e a vida?
Diminuir o envolvimento com as redes é essencial para recuperar nossa concentração, nossa presença e a capacidade de fazer escolhas mais alinhadas às nossas reais condições. Compreender esses aspectos pode nos ajudar a retomar o controle sobre nosso tempo, nossa atenção e nossas decisões, permitindo uma vida mais consciente e significativa.
Ainda assim, é essencial expandir esse olhar para o coletivo, como foi apresentado anteriormente: grandes empresas desenvolveram sistemas específicos para nos manter conectados e lucram com o nosso vício em rede. Além disso, é compreensível que, em uma sociedade cada vez mais individualista, as redes oferecem, ainda que falsa, uma sensação de conexão e pertencimento; e que, diante de uma realidade social desafiadora e dos incômodos da existência, busquemos nelas espaços de relaxamento e entretenimento. Nesse sentido, quando usadas de forma consciente, as redes podem, sim, ser lugares de diversão, expressão e encontro.
Por fim, ao refletirmos sobre a presente discussão, abrimos espaço para compreender não apenas o que cada um busca nas redes sociais, mas também o contexto coletivo que pode estar moldando nosso comportamento digital. Um olhar ampliado pode nos ajudar a pensar em alternativas mais intencionais para lidar com a presença constante do virtual em nossas vidas.
——
Para contato com a Casa da Ciência e da Cultura, basta enviar mensagem via whatsapp: (32) 98451 9914, ou Instagram: @casadacienciaedacultura/ @delton.mendes. O site é: www.casadacienciaedacultura.com.br.
Apoio Divulgação Científica: Samara Autopeças e Anjos Tur – Turismo e escolares.











