Não conhecemos o próprio corpo

Maria Solange Lucindo Magno

Recentemente, ficamos perplexos diante de um acontecimento trágico e inusitado: a morte de uma moça de 19 anos ao se relacionar sexualmente com um rapaz de mesma idade.

Muita especulação, burburinhos e comentários maldosos, principalmente por se tratar de um jovem jogador de futebol. Acredito que em parte seja pelo fato de esses atletas estarem sempre envolvidos em escândalos relacionados a mulheres, quais sejam: estupro, feminicídio, violência doméstica, episódios de traição.

Mas o que mais se destaca nessa triste ocorrência, é que veio à baila uma parte de nossa anatomia desconhecida por nós: a do Saco de Douglas, uma cavidade localizada na região abdominal existente em homens e mulheres. O nome por si só já causa estranheza e a sua localização é ignorada por muitos de nós.

Eu, particularmente, bastante experiente em assuntos ginecológicos, confesso que desconhecia. E acredito ter sido uma fatalidade o acontecimento bizarro com a garota em questão.

Fiquei imaginando que, diante de tamanha repercussão do caso, ginecologistas viriam a público dar explicações acerca de algo incomum. Entretanto, foram poucos os esclarecimentos para o fenômeno. Ademais, fiquei surpresa ao ver as declarações de uma ginecologista, dizendo que era preciso ter cuidados ao praticar sexo violento, o que poderia ser considerado crime. Como assim? Uma médica declarar isso, sem ao menos aguardar a conclusão do caso? Bem, não entremos no mérito. Outros ainda disseram que o rapaz deveria estar preso! Que gana é essa de querer culpar, julgar, sem dar a chance de o outro se defender? Nada foi comprovado contra o rapaz que justificasse a sua prisão. Aguardo com interesse o final desse caso, cujo laudo final deve sair em 30 dias.

O fato é que um casal bem jovem marcou um encontro pela primeira vez e, claro, praticaram o ato sexual de forma afoita como é comum em início de relacionamentos, envolvendo pessoas com tanta energia. Nenhum objeto foi usado durante a relação sexual, os dois não estavam drogados e nem tomaram bebida alcoólica, além de usarem preservativo. Ou seja, mais certinho do que isso, impossível. Só que por uma falta de sorte da moça, e do rapaz também, houve uma ruptura de fundo de Saco de Douglas.

Os internautas mordazes não pensaram que por trás dessa ocorrência há uma família, uma pessoa que morreu, um rapaz traumatizado.

Foram tantos os comentários cruéis, jocosos, ignorantes, que deu engulho ler.  Não levaram em conta a dor da família por ter perdido a moça de forma tão inesperada, o rapaz que ficou abalado emocionalmente, assustado, e sem falar no bullying que sofrerá principalmente por parte de colegas, o trauma que terá ao se relacionar com mulheres de próximas vezes.

O grande aprendizado nesse lamentável acontecimento é o fato de não conhecermos o próprio corpo, de não prestarmos atenção aos sinais que ele dá quando algo está errado. De não nos tocarmos, de não lermos sobre as nossas várias particularidades, de não conhecermos a própria anatomia.

Pronto, agora todos nós ouvimos falar no tal fundo de Saco de Douglas, aquele que se sofrer uma ruptura, que não for acudida a tempo, pode levar à morte, como foi o caso da moça de São Paulo. Mas nem por isso é preciso, como foi sugerido pela médica ginecologista, agir com cuidado e não usar de arrebatamento no ato amoroso. Afinal, já é preciso ser contido em tantas outras coisas! Violência sexual acontece em outros contextos.

Interessante ainda levar em consideração, e acredito que o laudo final possa definir isso, que a moça poderia ter uma predisposição, um problema físico que a tornou suscetível a esse rompimento: endometriose, ovários policísticos, miomas, líquido na cavidade pélvica, em suma, algum problema ginecológico, pois apesar de incomum, pode acontecer a ruptura do fundo. Será que essa moça estava com a saúde ginecológica em dia? Não é essa a recomendação para quem tem uma vida sexual ativa?

É preciso que observemos o nosso corpo, que tenhamos ciência dele. Recomenda-se que olhemos a nossa urina, as fezes, os sinais que aparecem no corpo, pintas, verrugas, caroços, gânglios, apalpar as mamas, queda de cabelos, emagrecimento inesperado, visão turva, ufa, quanta coisa! É enfadonho demais, mas costuma prolongar a nossa estada nesse mundo.

Pasmem, para quem não sabe, um número considerável de homens perde total ou parcialmente o pênis todos os anos pelo fato de não fazer uma higiene adequada ou não observar sinais alarmantes de que algo não está normal. Quando soube disso, achei que era mais uma bazófia, uma piada de mau gosto, mas, infelizmente, é uma verdade constatada pela Sociedade Brasileira de Urologia. A falta de higiene, de cuidados e conhecimento pode provocar a perda daquilo que é o símbolo da masculinidade, afora que pode provocar diversos tipos de câncer.

Há alguns anos, quando tive a suspeita de ter endometriose (o que não se confirmou), procurei saber tudo a respeito. Lia muito, fui a conferências, palestras, participei de fóruns, interagi com várias portadoras da doença, me consultei com diferentes médicos e, em alguns casos, sabia mais que eles. Até que eu mesma concluí que eu não tinha aquilo. Claro que foi descartado depois de uma videolaparoscopia. Todavia, eu quis saber tudo sobre uma doença altamente incapacitante, que acaba com a vida de uma mulher, destrói seus relacionamentos e que pode provocar sua infertilidade. Apesar de não ser maligna, acaba com a qualidade de vida de quem a tem. Como eu tinha muito conhecimento à época, quis criar um grupo de apoio para esclarecer às mulheres sobre aquela doença que muitas poderiam ter e desconheciam. Mas logo abortei a ideia ao perceber que as mulheres não estavam interessadas no assunto. Não sabiam e “tinham raiva” de quem sabia. A endometriose era desconhecida até mesmo por profissionais da área. Poucos eram os especialistas.

Mas voltando ao casal que protagonizou o acontecimento fatídico, só nos resta lamentar o falecimento da moça e a postura desumana de milhares de pessoas diante de um fato inusitado, que expôs sobremaneira a moça e o rapaz em sua intimidade, além da falta de respeito para com o sofrimento da família envolvida.

Pelo caminhar da humanidade, talvez não demore, as pessoas terão que apresentar atestado de que não estão com alguma infecção sexualmente transmissível (IST) para concluírem um encontro amoroso. Ou ainda, pode chegar o tempo em que os amantes não mais trocarão toques, fricções ou fluidos, se relacionando intimamente apenas de forma telepática. É esperar para ver.

 

 

 

 

Maria Solange Lucindo Magno, casada, sem filhos

Professora da rede estadual de ensino (anos iniciais do Ensino Fundamental – aposentada

Inspetora Escolar da rede estadual de Minas Gerais

Pedagoga tendo atuado como Técnico em Educação na Secretaria municipal de Educação de Barbacena – aposentada

Autora do livro “Escritos com o Coração” – publicação independente e de várias crônicas

Participação em duas Antologias

Articulista do barbacenaonline

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