• 31ºC
    Barbacena, MG Previsão completa
  • Meu pai, meu herói, meu exemplo

    A crônica de Francisco Santana

    Firmei um compromisso com meu coração de todo segundo domingo do mês de agosto escrever algo para homenagear o senhor João Pedro de Santana, meu pai. Quando eu falo que ele nasceu no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes todos dizem: “Terra da Nhá Chico?” Eu respondo que lá nasceram meus pais, meus irmãos e ela. A frase pode ser interpretada como prepotente ao colocá-la depois dos parentes no tocante a valores. Todos estão no mesmo patamar, mas cito meus parentes porque os conheci e convivi com eles. 

    João Pedro era um ser especial, iluminado, muito benquisto por todos, carregado de bom humor e de boas intenções. Até hoje quando cito que sou filho dele, as pessoas elogiam o chamando homem de bom coração. Ele era uma espécie de São Francisco que levava o amor onde houvesse ódio; o perdão onde houvesse ofensa; a união onde houvesse discórdia; a fé onde houvesse dúvida; a verdade onde houvesse o erro; a esperança onde houvesse o desespero; a alegria onde houvesse tristeza e a luz onde houvesse as trevas. Sou um ser abençoado por ter aprendido com ele muitas coisas no que tange às suas atitudes. O seu altruísmo encantava-me. O seu lado cômico levava alegria a quem dele se aproximava. Ele era divertido, o meu cômico preferido. Ele gracejava em algumas situações mesmo chorando por dentro. Isso era constante onde os sorrisos recebidos de outrem, secavam suas lágrimas transformando-as em alegria. 

    Numa viagem de férias à sua querida terra natal, encontrei-me com uma senhora muito bonita e elegante de nome Julieta que me pediu para assentar ao seu lado num banco de pedra. Ela me disse que nos arredores ele era conhecido como “pé de valsa” por dançar magnificamente bem. A sua presença modificava o ambiente para melhor. Era sinal de show de danças e gargalhadas. Disse ainda que o senhor João Pedro Santana era um ser simpático, muito querido, envolvente, admirável, um “gentleman”. Tratava todos como irmão e as mulheres, com respeito e distinção. Muitas o procuravam em busca de palavras de apoio e consolo. Era extremamente sensível e absorvia as dores e os problemas dos outros. Ele ouvia a todos com calma, paciência e jamais cortava o assunto. Todos queriam ouvir seus ensinamentos e seus conselhos coerentes. 

    Ela também contou que pelos assédios, angariava ciúmes que morriam no nascedouro, pois era cheio de argumentos e graciosidade. Tudo dele terminava em gargalhadas. Uma vez pedimos a ele que se exibisse em casa. Ele deu um show no “dois para lá e dois para cá”. Seus passos eram ritmados num bailado envolvente. Ele gostava dos olhares da plateia. No gingar de corpos pensávamos que minhas irmãs iriam cair, mas elas sempre permaneceram cativas nos seus braços fortes. 

    Entre algumas predileções, o rapé se tornou um vício. No seu bolsinho da calça havia sempre uma latinha do pozinho. Uma vez quando estávamos reunidos na sala de nossa casa, ele começou: Atchin! Atchin! Atchin! E nós acompanhando: 4! 5! 9! E ele continuou: Atchin! E nós: 10! 15! 20! Sem exageros, ele deu seguidamente 20 espirros. Ele não sabia se ria do nosso coral ou dos espirros. Esse exercício lhe causou muito suor e exaustão. Ele sorriu para nós e alguém perguntou: “Pai, cadê sua dentadura?” Num espirro, ela foi arremessada para longe se quebrando em vários pedaços.   

     Outro vício era o jogo de bicho. Notamos uma característica interessante. Quando ele chegava à nossa casa tarde e levemente alcoolizado, era porque ganhara dinheiro no jogo. Quando morreu, foi encontrado sob o seu colchão um caderno. Nele estavam inseridos nomes de pessoas conhecidas e na frente, características pessoais e o bicho correspondente do tipo: Jussara, peituda = vaca; Laerte, caminha rebolando = veado; Pereira, sempre arrumadinho e perfumado = pavão e Batista, falso = urso. Analogia muito interessante. Era comum vê-lo fumando seu cigarro de palha ou com um atrás da orelha. Uma vez minha irmã gritou: “Pai! Seu cabelo está pegando fogo!” Rimos muito, ele se esqueceu de apagar o cigarro e o colocou atrás da orelha. O grito da irmã foi maior que o ocorrido.  Como eu disse, tudo acabou em gargalhadas. 

    Nas festas natalinas do 9º Batalhão de Polícia Militar ele representava sempre a figura do Papai Noel. Como desempenhava bem esse papel! A sua responsabilidade era a de entregar os presentes aos filhos dos militares, brinde do quartel, distribuir sorrisos, gargalhar e fazer a criançada feliz. Ele sempre fez isso com maestria. Em casa, depois dos festejos ele sempre dizia: “Vocês perceberam que os choros das crianças se transformam em sorrisos de felicidades”?    

     

    Numa tarde ele chegou em casa abatido e bastante magoado. O motivo era que fora convocado para um jogo de futebol sem nunca ter calçado uma chuteira, cabeceado uma bola ou entrado num campo. Achei a ideia importuna e maldosa. O jogo começou.  A bola foi passada para o meu pai e quando ele deu um toque na bola o árbitro trilou o apito e os 21 jogadores em campo e demais militares ovacionaram meu pai com uma salva de palmas e abraços. Aquilo fora uma encenação para homenageá-lo. Coitado, ficou tão emocionado que não sabia se chorava ou se sorria. No meio da torcida, um jovem chorou muito – eu.   

    Meu pai, João Pedro de Santana, se encontra há tempos no oriente eterno. Eu o sinto em minhas intuições, ouço suas gargalhadas gostosas. Pai, você foi um mestre, um exemplo e um ser maravilhoso. Obrigado por ser meu pai. Agradeço-o por compartilharmos juntos inúmeros momentos de alegria, felicidade e prazer.