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    Barbacena, MG Previsão completa
  • Meu amigo de fé, meu irmão camarada

    Por Francisco Santana

    “Amigo é aquele que lhe dá a mão quando a vida lhe tira o chão, quando o mundo desaba em sua cabeça e lhe faz perder a ação, quando tudo vem contra você e ele cuida do seu coração. Amigo é aquele que entra no barco com você e enfrenta as tempestades mesmo sabendo que ele também pode de alguma forma afundar, mas ele permanece ali, só para não lhe deixar afogar. Amigo é aquele que sabe o verdadeiro significado do verbo amar”. (Anônimo)

    Não sei se é algum aviso do além ou intuição, mas tenho pensando muito num grande amigo que morreu há tempos. Ontem recebi a mensagem acima, o conteúdo o define. Nós trabalhamos na mesma empresa por mais de 25 anos e desde a nossa apresentação, ele foi leal até à sua morte. Eu vou chamá-lo pelo apelido “Jerry Adriani” pela grande semelhança física ou de “crânio” pela sua enorme cabeça. Ele incorporou o apelido do cantor e sempre estava cantarolando o seu grande sucesso: “Doce, doce amor/onde tens andado/diga, por favor,/doce, doce amor/doce, doce amor/que eu vou te encontrar/meu bem seja onde for”. Ele era sinônimo de humildade, alegria e solidariedade. Sinto saudades.

    Jerry era tão especial que me fez passar por alguns apertos, mas perdoados pela amizade e lealdade recíproca. Num encontro de ex-alunos do curso de Direito realizado na cidade de Conselheiro Lafaiete, ele nos levou (eu e esposa) dirigindo o meu carro. Quando lá chegamos, a comissão de recepção já nos aguardava.  Como ninguém conhecia ou se lembrava do Jerry Adriani, ele se apresentou como “motorista particular do Dr. Santana”. Infeliz ideia, pois até hoje a turma zomba de mim. O mestre de cerimônias fez a chamada dos advogados presentes e de seus familiares. Quando chegou a minha vez, acrescentaram ao meu nome e de minha esposa, o do meu motorista particular, senhor Jerry Adriani, sob gargalhadas e piadas inteligentes. Sem nenhuma cerimônia, ele atravessou a passarela do Clube Dom Pedro sorridente e acenando para os amigos sob aplausos. Festa marcante.

    Numa noite, ele foi à nossa casa em companhia da noiva para nos convidar para sermos padrinhos do seu casamento. Claro que aceitamos com orgulho. Foi uma cerimônia simples e emocionante. Retornamos para nossa casa e em menos de duas horas a campainha tocou. Abri e era o casal que acabáramos de testemunhar sua união conjugal. Brinquei com ambos: “Já querem se separar?” Ele respondeu que não e me pediu o carro emprestado para ser usado na lua de mel, caso precisasse. Eu lhe entreguei as chaves, o documento e o carro com o tanque cheio de gasolina. Ele agradeceu pelo tanque cheio porque não orçara esse gasto. Passados alguns dias, retornaram à nossa casa à noite para entregarem o carro. Ele estava diferente, ressabiado e ela apreensiva dando beliscão nele e o chutando por baixo. Algo acontecera e eles estavam com vergonha de me contar. Findadas as formalidades, ele me agradeceu e foi embora. Ela disse: ”Jerry Adriani, o Santana foi tão legal conosco e você não vai fazer uma maldade dessas com ele!” Assustei com suas palavras. E ela continuou a confissão. “Santana, o Jerry Adriani encheu a cara e ao manobrar o seu carro de ré, bateu no poste amassando-o bem”. Fui verificar e o estrago não era pouco. Ele chorou e disse que pagaria o conserto. Pensei: se ele não tem dinheiro para colocar gasolina no carro, não terá dinheiro para custear o estrago feito. O mecânico orçou os reparos. Ao tomar conhecimento, Jerry exclamou: “Puxa! Ficou caro hein, padrinho!” Sorriu e morreu o assunto. Eu fiquei no prejuízo. 

    Era um sete de setembro de um ano qualquer. Jerry Adriani nos convidou para almoçar com ele em sua residência. Marcamos o encontro para 12h. Nesse horário, lá estavam eu, esposa e meu filho pequeno.  Fomos recepcionados pela mãe do Jerry, suas irmãs e sobrinha. Ficamos sabendo que o Jerry não estava em casa como combinado. Ele fora ao centro da cidade para assistir o desfile cívico em comemoração ao Dia da Independência do Brasil. Ele não comunicou aos familiares que almoçaríamos com eles. Meu filho choramingava dizendo que estava com fome. Para despistar, nos serviram café com pão. Meu filho clamava por comida. Eis quem chega! O Jerry Adriani todo serelepe, sorridente, distribuindo beijos e me perguntou qual era o motivo daquela visita. Indignado e nervoso, eu disse a ele: “Nós estamos aqui porque você nos convidou para almoçar com vocês, comer pato ao molho de laranja com arroz e que enquanto a gente esperava pelo almoço, seria servida uma tábua de frios e tomaríamos uns vinhos que já estavam na geladeira”. 

    Ele ficou sem graça por alguns segundos. Os familiares reclamaram pela falta de aviso e pela vergonha que estavam passando. Não tinha nada pronto. A irmã mais nova foi ao terreiro para matar o pato, a outra foi fazer o almoço. Depois de um longo tempo, o almoço foi servido. Jerry, muito generoso, me serviu o peito do pato que estava branquinho. Na primeira mordida percebi que estava cru, pois senti um gosto de sangue na boca. Parece que ouvi o pato dizer: “Quack, quack, bem feito! Quem mandou você dizer que comeria pato com laranja e arroz!” Não tive coragem de dizer o que senti naquele momento. Fomos salvos pela mãe do Jerry que nos pediu que não comêssemos o pato porque ele estava cru. Graças a Deus, nosso filho chorou e pediu para ir embora e foi o que fizemos. No outro dia, Jerry me procurou, pediu desculpas, falsamente chorou e marcou outro almoço para o próximo domingo. Eu lhe disse: “Almoçar na sua casa, nunca mais”.

    Com todos esses dissabores, ele foi um grande e inesquecível meu amigo de fé, meu irmão camarada, como ele costumava me chamar. 

    “Abençoemos aqueles que se preocupam conosco, que nos amam, que nos atendem as necessidades… Valorizemos o amigo que nos socorre, que se interessa por nós, que nos escreve, que nos telefona para saber como estamos indo… A amizade é uma dádiva de Deus… Mais tarde, haveremos de sentir falta daqueles que não nos deixam experimentar solidão” 

    (Chico Xavier).