Luzes da noite: a solidão no fim do dia

Por Bianca Rosa, advogada e escritora, com orientação do professor  Doutor Delton Mendes Francelino, Diretor da Casa da Ciência e da Cultura de Barbacena, Orientador na Escola de Escrita Criativa e Coordenador do Centro de Estudos em Ecologia Urbana do IFET, Campus Barbacena. Membro Diretor do Instituto Curupira e autor de livros.

Era uma quarta-feira à noite. Luiz pela primeira vez conseguira chegar em casa antes das 21h. Estava cansado como sempre, mas feliz por poder jantar na companhia de sua doce mãe. Moravam somente os dois, desde o dia em que seu pai faleceu. Sua mãe, já idosa, sentia muita falta de seu companheiro, porém se mantinha firme, pois, mesmo sabendo que seu filho já tinha 40 anos era pleno adulto, fazia-lhe bem a ideia de que ele ainda precisava de seus cuidados. Por outro lado, em semelhante intensidade, Luiz também se dedicava a cuidar com carinho de sua mãe, que após o falecimento de seu pai, teve a saúde ainda mais fragilizada. Ambos convenciam-se disso e, de certo modo, isso os acalentava.

Aquele dia conversavam pouco, já que Luiz era professor, e dava aulas diariamente, em sete escolas diferentes. Na verdade, foi quase um milagre, naquela quarta, ele conseguir chegar mais cedo em casa. Assim, naquela noite puderam estar na companhia um do outro para compartilhar aquele simples jantar. Conversaram bastante, sua mãe pôde o atualizar sobre todas as fofocas da vizinhança e dos parentes, que havia guardado a semana inteira para lhe relatar em detalhes. Do outro lado da mesa, Luiz reclamava como sua rotina era exaustiva, e como os alunos a cada dia que passava perdiam ainda mais o respeito pelos professores, e que apesar do amor que sentia em sua profissão, que era tão desvalorizada, já não se sentia bem mais e gostaria de poder ir para outro lugar.

Jantar terminado, ambos recolheram os pratos e se despediram. As luzes da cozinha foram apagadas, sua mãe logo adormeceu. A única lâmpada que se manteve acessa naquele apartamento do 3º andar, era a do quarto de Luiz. Na pequena luz que se via a distância, ele foi completamente engolido pela reflexão de como era só, e que apesar de passar o dia rodeado de gente e da companhia de sua mãe, no fim sua televisão era sua única companhia.

Sentiu saudades de seu pai, que de certa forma foi seu grande amigo e confidente, e das vezes que não teve tempo para ele. Lembrou-se dos momentos que recusara lhe dedicar mais tempo; de quando chegou a tão sonhada aposentadoria “do velho” e, ainda assim, ele não pôde viajar para comemorar com o pai, já que estava estudando para o último concurso, prometendo-lhe que assim que possível viajariam juntos. Contudo, foi seu pai que não teve mais tempo.

Recordou-se de seus amigos da época de faculdade e que, agora com quase todos sendo casados e com filhos, mal sobrava tempo para se reencontrarem aos fins de semana; quando em seu tempo de juventude, inventava mil desculpas para não sair de casa, sem vontade do futebol e dos churrascos aos domingos. Gostaria de vivenciar todas essas coisas, mas agora já nem recebia mais convites, os quais pudesse, eventualmente, recusar.

Lembrou-se também de todas as namoradas que teve, e se questionou o motivo de nunca ter dado certo com ninguém, e que apesar de todo seu jeito orgulhoso e um pouco difícil, não existiam motivos para desistirem tão cedo. Reconhecia que havia sido muito frio com aqueles que o amava, talvez pelos traumas que teve em sua vida. Arrependeu-se dos momentos que escolheu não ficar, e das vezes que não disse “eu te amo” e de não dizer o quanto se importava. No entanto, ainda naquele momento, aquela noite, sua alegação, e conforto mental, era “eu nunca tive tempo”.

Para ele já não havia muito que fazer. Sentia saudade das pessoas que havia deixado para trás e, sobretudo, daquelas que o deixaram. Todavia, naquele momento, em seu quarto, já não importavam mais, já que ainda continuava sem tempo, nem mesmo para pensar naquelas coisas, já que precisava dormir ao menos algumas horas, para conseguir ter o mínimo de energia e reviver novamente os mesmos dias.  A “falta de tempo” era o seu argumento, quase uma tese de defesa automática lançada para si mesmo e, às vezes, contra si mesmo. Mal sabia, que se conseguisse libertar-se deste senso comum criado em seu íntimo, talvez encontraria, de fato, a liberdade que tanto sonhara, em praticamente toda a sua existência até ali.

Apoio divulgação científica: Samara Autopeças, Jornal Barbacena Online e SEAM – Serviços Ambientais.

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