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    Barbacena, MG Previsão completa
  • História de Nossa Terra: A primeira usina hidroelétrica da cidade de Barbacena

    A população barbacenense, em maio de 1904, nutria esperanças de ver instalado o seu primeiro sistema de geração de energia elétrica

    por Silvério Ribeiro

     

    Barbacena, até 1904, era iluminada por escassos lampiões a querosene e acetileno. Este tipo de iluminação pública, dispendiosa e de poder iluminativo extremamente inferior, não se comparava aos sistemas elétricos já instalados em outras cidades do interior mineiro, a exemplo de Belo Horizonte e Juiz de Fora. O desenvolvimento econômico foi fator primordial no investimento em usinas hidroelétricas nestas cidades. A primeira, evidentemente, por ser a capital do estado e a segunda, pelo seu espetacular desenvolvimento industrial.

    A primeira grande usina hidroelétrica da América Latina, a Usina de Marmelos, instalada em Juiz de Fora, se deve à idealização e ao empreendimento de Bernardo Mascarenhas, importante industrial daquela cidade, fundador, em 1888, da Companhia Mineira de Electricidade. A Usina de Marmelos foi projetada para atender as indústrias de tecidos do empresário e, por consequência, fornecer eletricidade e iluminação pública à cidade. Ali, o poder econômico se antecipou ao poder público.

    Barbacena, ao contrário da Manchester Mineira, teve que fazer o caminho inverso. O investimento na geração e distribuição de energia elétrica teve que ser efetuado pelo município. O Chefe do Executivo Municipal, à época, Dr. Henrique Diniz, tomou providências para a instalação da primeira usina hidroelétrica da cidade, confiando os trabalhos ao Dr. Francisco de Paula Cunha, engenheiro da Municipalidade, que foi responsável direto pela escolha do local onde se construiria a usina. O encarregado pelos estudos e de todo o projeto de instalação dos geradores foi o engenheiro eletricista e mecânico Camillo Ferreira Filho, diplomado pela Escola Politécnica de São Paulo.

    Construção da tubulação da 1ª Usina de Ilhéus, a partir da barragem até a Casa
    de Máquinas. Foto de 1904.

     

    Os trabalhos de campo tiveram início em junho de 1904 e, examinadas diversas quedas d’água vizinhas à cidade, escolhida foi a cachoeira, no Rio das Mortes, localizada próxima à Estação Ferroviária de Ilhéus. Tratava-se de uma propriedade particular, do comerciante Manoel Simões.

    Manoel Simões Coelho era português e para o Brasil imigrou no ano de 1876, vindo logo estabelecer-se no estado de Minas Gerais, onde começou a trabalhar nas obras de prolongamento da Estrada de Ferro Pedro II. Dez anos depois, com muito trabalho e esforço, comprou terrenos na localidade de Padre Brito e aí instalou ponto comercial que prosperou com relativa rapidez.

    Na ocasião, verificou-se curiosa ocorrência. Henrique Diniz interrogou Manoel Simões se estava disposto a ceder à Municipalidade a cachoeira, parte desta lhe pertencia. Avaliada, o preço da queda d’água chegava aos cinquenta contos de réis, aproximadamente 6 milhões de reais em valores atuais.¹ A Municipalidade não possuía este montante. Manoel Simões, sensibilizado com a situação, propôs ceder a queda d’água sem qualquer ônus ao Município. O Dr. Henrique Diniz, em contrapartida, determinou, com aprovação da Câmara Municipal, que toda a energia elétrica consumida pelo Sr. Simões não seria cobrada, a título de indenização.

    No local cedido por Manoel Simões foi construído, entre fins de 1904 e início do ano de 1905, um canal de aproximadamente 278 metros de extensão, com capacidade de 1,70 metros de largura por 0,70 de altura, sendo 60 metros abertos na rocha e 218 feitos de pedra e cimento. A queda aproveitada foi de 15 metros, tendo sido instalados em uma casa de alvenaria a turbina, o dínamo e demais acessórios. A força aproveitada foi de 200 cavalos-vapor, podendo ser elevada a 400. A corrente alternada gerada pela usina era transportada por aproximadamente 14 quilômetros até uma central distribuidora localizada no perímetro urbano.²

    A cidade foi dividida em oito séries independentes de 23 lâmpadas cada uma, evitando contratempos em todo o sistema, caso houvesse a necessidade de corte eventual de energia elétrica numa dessas séries ou se desejasse ali realizar alguma manutenção. As lâmpadas eram do Sistema Edison,³ globulares, de fio de algodão carbonizado e poder iluminativo de 32 watts.

    Os primeiros testes de iluminação pública foram efetuados, por três vezes consecutivas, durante o mês de setembro de 1905, mais precisamente, o primeiro teste ocorreu no dia 28 de setembro. Em 26 de novembro do mesmo ano a cidade, contando apenas com um gerador, já possuía um adiantado sistema de distribuição elétrica domiciliar. O custo das instalações, conforme anotações da época, não foram superiores a 130.000$000 (cento e trinta contos de réis) e todo o material foi encomendado da América do Norte, vindos dos Estados Unidos e do Canadá.

    Casa de Máquinas da 1ª Usina de Ilhéus. 1910.

     

    A instalação da primeira máquina geradora na primitiva Usina de Ilhéus em 1905, proporcionou um razoável sistema energético que, satisfatoriamente atendeu por alguns anos a cidade. Em 1910 foi instalada a segunda máquina geradora, com 175 kilowatts. Entretanto, com o incipiente desenvolvimento industrial do município e o aumento do consumo domiciliar de energia elétrica, no ano seguinte, os barbacenenses já exigiam um aumento na infraestrutura de sua usina hidroelétrica, mas, isto aconteceria somente em 1918, quando foi construída a segunda usina de eletricidade da cidade.

    A 1ª Usina de Ilhéus. Na foto, à esquerda, a Casa de Máquinas, à direita, a residência do Chefe da Usina. Acima se vê os vagões de um comboio da Estrada de Ferro Oeste Minas. 1910.

     

     

    NOTA DA REDAÇÃO: Silvério Ribeiro é Pesquisador e Escritor.

     

    Notas:

    ¹ https://www.diniznumismatica.com/2015/11/conversao-hipotetica-dos-reis-para-o.html

    ² A Central de Distribuição de Energia Elétrica da Cidade de Barbacena localizava-se onde hoje funciona o Prédio da Prefeitura Municipal.

    ³ O Sistema Edison foi denominado o processo de fabricação da lâmpada incandescente, inventado pelo cientista norte-americano Thomas Alva Edison, utilizando uma haste de carvão (carbono) muito fina que, aquecida acima de aproximadamente 900 k, passa a emitir luz, inicialmente bastante avermelhada e fraca, passando ao alaranjado e alcançando a cor amarela, com uma intensidade luminosa bem maior, ao atingir sua temperatura final, próximo do ponto de fusão do carbono que é de aproximadamente 3.800 k. A haste era inserida numa ampola de vidro, onde havia sido formado alto vácuo.  sistema diferia da lâmpada a arco voltaico, pois o filamento de carvão saturado em fio de algodão ficava incandescente, ao invés do centelhamento ocasionado pela passagem de corrente das lâmpadas de arco. O filamento de carvão tinha pouca durabilidade, Edison então começou a fazer experiências com ligas metálicas, pois a durabilidade das lâmpadas de carvão não passava de algumas horas de uso. A lâmpada de filamento de bambu carbonizado foi a que teve melhor rendimento e durabilidade, sendo em seguida substituída pela de celulose.

     

    Fontes:

    Jornais: 

    Cidade de Barbacena, Edição de 3 de dezembro de 1905, págs 1 e 2.

    Livros:

    RIBEIRO, José Silvério. História Econômica do Município de Barbacena. 2012. Editora Cidade de Barbacena, págs. 91 a 97.

    Site:

    https://www.diniznumismatica.com

     

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