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    Barbacena, MG Previsão completa
  • História da nossa gente: Hercília

    Susana Furtado Dias

    Ela ficava na saída da escola, religiosamente, aguardando o último sino para acender sua poderosa máquina de felicidade. Hoje sei que aquilo era o seu ganha-pão, mas acreditava piamente que ela era uma feiticeira: abria a tampa do caldeirão, untava com cuidado as paredes daquela velha e amassada vasilha de alumínio, atirava os ingredientes como se estivesse recitando algo parecido com “abracadabra, pé-de-cabra…bim Salabim” e, pronto! Em breve a poção mágica estaria entregue, em pequenos pacotes, àquele punhado de projetos de ogro desembestados…

     

    Nas minhas gavetas profundas consigo resgatar o medo que eu tinha dela, quando ouvia os rangidos do seu velho carrinho vermelho, misturados aos gritos de sua voz rouca, anunciando o feitiço iminente. Seus trajes, compostos quase sempre de uma calça jeans bem larga, botinas pretas de borracha e aquele chapéu escondendo pequena parte dos fios grisalhos e esfiapados, me faziam ter, no alto dos meus sete ou oito anos, a absoluta certeza de que se tratava de uma bruxa. Mas o meu encanto um dia se quebrou…

     

    Eu não ia para aquela escola como aluna. Ainda estava naquela fase da vida em que, se pudesse, me enfiava no bolso da calça de minha mãe para não me separar dela. Então, uma das formas que eu tinha de postergar esse rompimento, era inventar que os livros do colégio onde ela trabalhava eram muito melhores do que os meus. Por óbvio ela não acreditava, mas hoje estou certa de que também não se importava.

     

    Já era quase a hora da saída. Da secretaria dava para ouvir aquele som de caixa de abelha característico dos últimos cinco minutos de aula. Chovia muito forte e pensei: hoje não tem bruxaria! Minha mãe estava mergulhada naquele monte de papel com cheiro de álcool que brotava de uma coisa parecida com a máquina de macarrão do meu avô. Saí de mansinho e me escondi atrás da coluna para conferir se o carrinho vermelho ia aparecer, mas nada. Observei cada aluno indo embora, trocavam rápidas palavras, possivelmente concluindo que a chuva teria atrapalhado o tradicional encerramento do expediente. Já estava conformada de que não teria poção naquele dia quando ouvi um grito rouco:

     

    – Ô Loirinha! Dá uma ajuda aqui! – meu coração saiu pela boca. Não sabia se corria, escalava a coluna ou pulava o muro… agora já era! Olhei para aqueles fiapos de cabelo molhados, as botinas completamente encharcadas e, quando ia partir em disparada, vi que ela não conseguia mover o porta-caldeirão. O instinto falou mais alto do que o medo.

     

    O pequeno pneu furado daquele carro enferrujado desencadeou um dos encantos bonitos que marcaram a minha infância: pilotei um carrinho de pipoca de verdade, não apenas ajudando-a a arrastá-lo, mas, depois, fazendo minha própria poção mágica, com direito a brincar de “abracadabra, pé-de-cabra…bim-salabim”, gritando e gesticulando como se fosse tirar um coelho da cartola.

     

    Eu aprendi naquele dia muito mais do que manejar uma pipoqueira de verdade. Nunca me esquecerei do olhar alegre daquela doce bruxa que acendeu sua panela para fazer um único saquinho de poção para mim, em agradecimento por tê-la ajudado a sair da chuva com o seu carrinho. Tive uma dessas aulas que valem pelo ano letivo inteiro, regadas com simplicidade e afeto, ingredientes fundamentais à magia da vida.

     

    – Sua menina é esperta, Cleusa! Você quer uma pipoca também? E nos despedimos daquela querida feiticeira.

     

    (Essa crônica é uma homenagem carinhosa e especial a uma personagem muito querida de nossa cidade de Barbacena, a saudosa Hercília. Ela era uma figurante para a maioria das pessoas que passavam por sua vida, mas eu tenho certeza de que fez uma grande diferença nos dias de seus inúmeros espectadores, deixando saudades de sua alegria e do cheirinho de pipoca!)

     

    A barbacenense Susana Furtado

    NOTA DA REDAÇÃO: Susana Furtado Dias é barbacenense, formada em Direito e servidora do Poder Judiciário de Minas Gerais. Divide seu tempo entre o trabalho, a família, os esportes e a paixão pela escrita.