Guerra, pássaros contra Santana

Francisco Santana

Se eu produzisse um filme, qual gênero ele seria? Estou com dúvidas. Ação? Muita luta interminável entre o bem e mal? Comédia? Não sei. Careço de humor inteligente, sou tímido e não tenho graça para conquistar a hilaridade do público e da crítica. Eu já sou uma comédia.  Que tal um romance? Haverá muito choro, sorrisos, sofrimentos, beijos, abraços e no final a felicidade vencerá todos os obstáculos de relacionamentos. Que tal o suspense? É muito drama, angústias, incertezas e nem sempre o final é bom para os personagens. Muito mistério. E sobre o gênero horror? Bem interessante. O susto do espectador sinaliza que o filme foi bom. Eu usaria um fundo musical de tensão, sobressaltos e medo. E se fosse um sobre documentário? Interessante. Eu retrataria a realidade com perfeição ou perto dela.  E sobre um musical? Gostaria sim. A música me fascina e encanta.

 

Essa imaginação fértil nasceu de um fato ocorrido comigo há alguns meses, quando estava chegando a um consultório médico da área hospitalar de Barbacena. A tarde estava linda e ensolarada. O táxi me deixou a poucos metros da clínica. Até chegar ao consultório eu teria que passar sob algumas árvores viçosas, floridas e perfumadas.  Tudo isso percebi ao passar sob a primeira. Sob a segunda, ouvi muitos piados e resolvi olhar para cima e me deparei com ninhos de passarinhos. Cena fascinante. Parei por segundos para ver e sentir a natureza em festa. Depois, saí rapidamente porque faltavam apenas 10 minutos para minha consulta. De repente, senti algo pular sobre minha cabeça ao sentir bicadas e unhadas. Como reação, passei a mão na cabeça. Senti algo e o joguei para longe. Só aí percebi que era um pássaro que saíra do ninho em vôo rasante para me atacar. O susto foi grande. A minha carteira foi jogada para longe. Corri para pegá-la, outro pássaro pulou sobre meu pescoço, bicando-o sem dó e sem piedade. O primeiro que caíra quando passei a mão na cabeça veio energizado e os dois me atacaram furiosamente. Tentei proteger meu rosto com os braços que também foram bicados e arranhados. Deu tempo de pensar. Ao parar e olhar para os filhotes no ninho, eu me tornei uma ameaça, um predador que estava desrespeitando o seu espaço. Saí em disparada.  Quando mais eu corria mais eles voavam e pousavam sobre mim. Deu tempo de contar quantos eram: um, dois e três. Senti fortes picadas e unhadas no pescoço, testa, cabeça, braços e até no rosto. Ataque covarde, a maioria pelas costas. 

 

Um taxista me socorreu dizendo que todos que passam sob as árvores e olham para cima eram atacados. Sorrindo, ele disse que eu era o terceiro que ele socorria naquele dia da agressão digamos, ornitológica. Cheguei ao consultório assustado e me vi diante de uma atendente e três pacientes. Percebi de soslaio que todas olhavam para mim de uma maneira digamos, pouco convencional. Uma começou a rir e para despistar tossiu, se levantou e foi tomar água no corredor da clínica. Tomei uma decisão que na verdade foi um desabafo: pedi atenção de todos e relatei o ocorrido. Elas gargalharam à vontade. Uma me perguntou: “Como se chamam aqueles pássaros?”. Respondi: Não sei e não quero saber. Riso geral. A outra disse que meus cabelos estavam em desalinho. Por momentos, a conversa girou em torno dos passarinhos e uma falou algo interessante. Ela tem certeza que eu fora atacado por fêmeas que cuidam e protegem seus filhotes. Que normalmente os pais não tomam essas iniciativas, responsabilidades e que a mãe, para proteger o filho, dá sua vida. Concordei com ela porque o ataque foi provocado pelo instinto de proteção e chilrear altíssimos.  Lembre da história do pelicano que abre seu peito com o bico e oferece a própria carne aos filhotes famintos e depois morre. 

 

A paciente do lado me disse num tom bem humorado: “Depois o senhor dá uma olhada no seu pescoço porque ele está todo vermelho, arranhado e ficando empolado. Sua esposa é ciumenta?”. Safadinha, não tive tempo de pensar nisso. A outra disse que poderia ser uma alergia contraída pelo contato com os pássaros. Ao ficar diante do médico pensei que seus olhos fossem pular das órbitas. Fui para examinar uma parte do corpo e ele não parava de olhar para outras. Discreto ele não perguntou nada, não falou nada. Saí do consultório e resolvi dar uma passada num restaurante frente à clinica. A atendente fitou o meu pescoço por alguns segundos. A moça do caixa, idem. Fui a um comércio de velas para comprar umas perfumadas. Diante do olhar indiscreto do vendedor eu lhe contei o ocorrido. Ele sugeriu que eu fosse ao hospital, ali do lado para uma consulta de emergência. Resolvi não ir. Corri para casa pedindo a Deus para não encontrar com nenhum conhecido. Já em casa fui consultar o espelho. Realmente, o estrago foi grande. As bicadas e unhadas deixaram a região do pescoço, nuca e rosto bem vermelha. Um arranhão enorme atrás da orelha estava visível. Uma coceira forte dominou toda a área. Tomei um banho e passei uma pomada antiinflamatória que encontrei no banheiro.  Resultado: coceira, vermelhão e inchaço diminuíram bastante. Para disfarçar, fugir dos olhares indiscretos e das perguntas dos curiosos, eu antecipava e contava o ocorrido e ouvia gargalhadas. Alguém me disse que aquilo é obra de corvo. Aqui não tem corvo. Eu diria que fui atacado por três dinossauros. Com certeza, dinossauro aqui tem. Há quem diga que fui atacado por um OVNI e outros disseram que foram por Drones.  

 

Na semana passada passei pelo local, que fica ao lado do educandário SESI (Serviço Social da Indústria) e frente do Hospital Ibiapaba, sem me lembrar de nada. Quando eu estava debaixo das árvores, ouvi piados dos filhotes, lembrei-me do ocorrido há meses, não olhei para cima, sai de mansinho e quando me senti seguro, saí em disparada como um louco. 

 

E aí, qual o gênero do meu filme?  Terror? Suspense? Drama? Comédia? Você decide.

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