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Grupo Escolar Dona Adelaide Bias Fortes

A crônica de Francisco Santana

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Divagando pela Rua Cruz das Almas, parei diante de um prédio onde há tempos funcionava o Grupo Escolar Dona Adelaide Bias Fortes, escola que estudei por quatro anos. Fique radiante por vê-lo praticamente com a mesma estrutura do meu tempo. Lembrei-me de vários momentos. Primeiramente das professoras Maria Aparecida Leite, Dayse Rocha Simão, Rosa Santos Buscácio e Stela Matutino do Nascimento. Cada uma com a sua peculiaridade de ensino. Dos castigos como ficar determinado tempo com o nariz na parede, determinado tempo no grupo no término das aulas, escrever determinada frase no mínimo cinquenta vezes, puxões de orelha, broncas dentre outros.

Lembrei-me do momento do “ditado” e ouvi o choro do Paulinho que nunca acompanhava as palavras da professora. Ela dizia: “Em que palavra você parou, Paulinho? Eu dito tudo novamente! Não precisa chorar”. Quanta paciência! Apelidamos o Paulinho de lesma. O apelido não pegou porque entrava num ouvido e saía no outro. Lembrei-me do momento da “leitura silenciosa”. Era impossível se concentrar diante dos risos dos colegas que sempre se transformavam em gargalhadas. O meu momento predileto era o dedicado à “composição”. A maioria detestava escrever e por eu gostar, me tornei secretário do Grêmio Literário. A “chamada” era um momento de descontração. Cada aluno respondia de um jeito e as professoras não conseguiam segurar seus risos. Quanta criatividade! Eles respondiam ao chamado: Pronto! Presente! Estou aqui! Oi! Fala! Olha eu aqui!

Na hora da “leitura de histórias”, eu me concentrava por inteiro, pois tinha a mania de me transformar nos personagens das histórias. Aprendemos muito com as lições de moral das histórias contidas no livro “As mais belas histórias” de autoria de Lúcia Casasanta. Encantei-me e fui embalado pelas histórias dos Três Porquinhos, Joca, Rapunzel (Rapunzel! Lance-me suas tranças!), João Jiló (Ai! João Jiló! Atire devagar, João Jiló, porque dói, dói, dói, João Jiló!), Epaminondas, A Cabra Cabriola, João Felpudo e tantas outras narrativas maravilhosas.

Eu vi a cantina onde trabalhavam a cozinheira, Dona Chica, e os senhores Nativo e Luiz, que tomavam conta das filas para a hora do mingau e sopa. Para uns, esse era o melhor momento da escola. Saboreávamos mingaus de fubá, maisena, sopas de legumes e, de vez em quando, algumas frutas da época. Muitos alunos traziam as merendas de casa em vasilhames sofisticados. No quarto ano, meu nome foi retirado da lista dos que recebiam a merenda. Chorei muito. A Dona Rosa, vendo minha tristeza, reclamou na secretaria com as Donas Célia Ferreira e Lourdes. Elas pediram um tempo para análise e enquanto isso a Dona Rosa pagou para mim o mingau e a sopa. Rapidamente, fui reintegrado.

Avistei o local onde as brincadeiras se realizavam na hora do recreio onde se pulava corda, brincava de queimada, jogava peteca, finco, bolinha de gude e no exterior do grupo havia um campinho de futebol onde a maioria dos alunos se divertia. Os jogos eram acirrados e não faltavam discussões e agressões físicas. Muitas vezes, o Senhor Nativo teve que intervir para apartar grandes brigas. Por conta delas, muitos alunos ficavam suspensos de assistir aulas por determinados dias e os pais eram comunicados dessas infrações. Carlos Fonseca “Cacá”, Turene e Vilmar se destacavam no futebol. Josias, Salvador, Quinha e Marlene se destacavam como bons de briga. Rolavam paqueras? Claro que sim! Bastava um olhar diferente ou um sorriso maroto para alguém se gabar dizendo que estava sendo paquerado. O colega Luiz Carlos era o mais cobiçado da turma, sempre bem arrumado, boa prosa, simpático, gente boa e sorriso fácil, embora negasse. Entre as meninas escolho a colega Denise. Algumas virtudes dela: bonita, espiritualizada, simpática, calmaria, ternura e inteligência. É como disse Mário Quintana: Denise é uma “moça risonha, que ri e sonha”.

Timidamente desfilávamos antes do dia sete de setembro para homenagear a Independência do Brasil nas ruas próximas ao grupo. Um militar da polícia se apresentou voluntariamente para nos ensinar a marchar. Seu nome, Sargento Santana, meu pai. Por ser meu pai, ele cobrava mais de mim: “Estufa o peito! Bate o pé firme no chão! Olha pra frente! Pare de conversar!” E em casa tinha mais bronca.  

No final de um ano, as professoras resolveram fazer várias atividades festivas. O grupo estava divinamente ornamentado com belos arranjos florais com destaque para as rosas doadas pela família Gava (Wilma/Vilmar) residentes no bairro da Penha. A minha turma optou pela realização de uma peça teatral. Apresentaríamos a história da “Dona Baratinha”. A Conceição Simplício foi a Dona Baratinha e eu, o João Ratão. Argumentei, mas fui vencido pelas eloquências das professoras. Eu era muito tímido e não tinha coragem para encarar a plateia. Ensaiamos muito. Quem não se lembra desse verso? “Quem quer casar com a senhora baratinha que tem laço na cabeça e ouro na caixinha”. Eu me entreguei de peito aberto na interpretação, fui tão intenso que no final caí literalmente de cabeça numa grande panela de feijão. Sem fôlego, ouvi o refrão: “João ratão caiu na panela de feijão”.

Não chorei, sorri ao me relembrar de tudo e de todos. Muitos se encontram hoje no Oriente Eterno, mas nunca sairão de minha mente porque fazem parte da minha vida.

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