Gente ruim por aqui é mato (continuação)

Jairo Attademo

RESUMO DOS CAPÍTULOS ANTERIORES

A RAINHA ENLOUQUECIDA

Semana passada publicamos a primeira parte da história da jovem ferida numa roca de fiar e que, por conta disso, acabou enfeitiçada e dormiu profundamente. O jovem por quem se apaixonara a encontrou dormindo na floresta, levada pela governanta temerosa de que descobrissem o ocorrido. Numa clareira do bosque, a jovem deu à luz trigêmeos, mas a vida de todos corria grande perigo devido à maldade da Rainha, mãe de seu amado.

 

8 – A SAIA DE GUIZOS

 

Tão logo se viu mais forte, a jovem saiu da clareira com os três pequenos e foi para a mansão da família, levada pelo jovem e seu criado.

 

O velho capataz e os empregados da mansão viram de longe a aproximação da família.

Quando a jovem desceu do cavalo, o senhor a reconheceu e a abraçou, chamando a nova governanta para cuidar de todos, antes que pudessem conversar e ela contar tudo o que se passou.

 

No dia seguinte, o rapaz disse à amada quem era e que precisava voltar ao castelo.

Antecipando a tragédia que poderia acontecer se contasse tudo para a mãe, passou antes numa feira de variedades, em busca de algum sábio que o pudesse ajudar a pensar.

 

O príncipe perguntou à amada o que ela desejava como presente da feira. Aurora (até que enfim apareceu o nome dela) pediu uma saia de guizos.

– Com certeza terás a tua saia de guizos, disse o apaixonado rapaz.

Dias depois chegava pelo criado, às mãos de Aurora, uma maravilha de saia.

 

9 – A REVELAÇÃO INVOLUNTÁRIA

 

Agora que Aurora e os filhos estavam em segurança, o príncipe, que se chamava Heitor (até que enfim aparece também o nome dele) precisou ficar mais tempo no castelo a serviço da mãe, que o sobrecarregava para que não saísse mais de lá. Talvez assim ela sossegasse o espírito (se é que tinha um).

 

BRIGA FEIA

A ladainha da megera, o dia todo, atrás dele, o sufocava:

 

– Por que desapareceste? Foram meses numa rotina fora do normal! Esgueirava-se pelo castelo como a fugir de mim. Alguma coisa havia. Ou há! E as suas desculpas? Que caçadas intermináveis eram essas? Se eu descobrir que andas tramando tomar-me o reino, mato-te antes!

 

O rapaz nada dizia, apenas que nunca iria tramar contra ela. Essa era a verdade que bastava por ora.

Certa noite, Heitor não se recolheu. Estava cansado das reuniões e tinha saudade de Aurora e dos meninos.

Foi para a sala de música, agarrou uma garrafa de vinho e a bebeu inteira.

Pegou no sono numa espreguiçadeira.

 

A rainha, passando pela sala em direção aos seus aposentos, viu Heitor roncando alto.

– Que sono pesado, pensou ela.

Foi aí que resolveu cochichar no ouvido dele:

– Heitor, o que fazias na floresta?

O rapaz tinha o hábito de falar dormindo e resmungou:

– Ai de mim! Cravo, Rosa e Jasmim.

Ao que a rainha perguntou:

– Quem são esses?

Virando-se para outro lado, o jovem murmurou:

– Saudade de vocês, meus filhos, saudade de ti, Aurora.

 

Pronto. Segredo descoberto. E o que a rainha ia fazer com isso era inominável.

 

10 – O INOMINÁVEL

 

A megera mandou Heitor para uma viagem e chamou o valete:

– Conheces alguma Aurora nas redondezas?

O valete respondeu:

– Alteza, minha senhora, é uma das filhas daquele fazendeiro da cidade, que tem uma mansão enorme perto do bosque. Aurora não é um nome comum. É ela.

 

A rainha então falou:

– Pois vá até lá e veja se essa Aurora vive na mansão e se tem três filhos com nomes de flor. Se tiver, diga-lhe que eu já soube tudo por Heitor e que desejo conhecer os netos. E que é uma ordem do príncipe.

Lá se foi o valete. Ele conhecia a rainha, sabia que vinha maldade aí, mas desobedecê-la seria ir para a forca.

 

O homem chegou à mansão e foi atendido pela governanta, a quem pediu que chamasse Aurora, em nome do príncipe. Explicou à jovem sobre o pedido da rainha e a ordem que recebera.

O capataz e a ama, quase ao mesmo tempo, encorajaram-na a enviar os pequenos para a rainha conhecer.

Aurora e a ama ajeitaram os meninos, que foram para o castelo da megera com o valete.

Chegando lá, o homem levou as crianças à presença da horrível mulher.

 

Sem olhar para os netos, a rainha chamou a cozinheira-chefe e ordenou:

– Coloca essas três criaturas na sopa de hoje e cozinha-as bem.

A cozinheira, apavorada, pegou os três que se foram com ela sem saber o que lhes iria acontecer.

 

Quando o príncipe chegou, a megera o recebeu sorrindo e mandou servir o jantar. Disse ela:

– Deves estar cansado. Mandei-te fazer uma sopa forte para acalmar-te o estômago e o coração.

Quando Heitor começou a comer, a monstra disse:

– Come, come, filho meu, come que é tudo teu.

A tristeza e a sopa deixaram o príncipe doente e acamado.

Não acabou ainda! A maldade da rainha não tinha limites.

O JOVEM E A DONZELA

11 – A LUTA FINAL

 

A megera mandou agora que o valete buscasse Aurora, na fazenda, com a desculpa de que seria realizado o casamento dela com o príncipe. A moça, com saudades do amado, vestiu a saia de guizos e seguiu o homem.

 

A rainha a esperava.

Uma vez no castelo, conduziu Aurora a um jardim externo, onde lançou-se sobre ela, enfiando as longas unhas em seus braços e atirando a jovem em cima de uma mesa. Aurora era forte e desvencilhou-se. As duas rolaram pelo chão, provocando um imenso ruído nos guizos da saia da jovem.

 

O barulho dos chocalhos chegou até Heitor, acamado. O príncipe se lembrou dos guizos de Aurora e levantou-se às pressas, para encontrá-las esgoelando-se mutuamente.

 

Heitor as separou e mandou que a mãe fosse amarrada, pois estava descontrolada.

Chamou o valete e os serviçais. Diante de todos, perguntou à mãe o motivo de tanto ódio.

 

A rainha espumava e, às gargalhadas, contou que o jovem comera os próprios filhos.

Nesse momento, a cozinheira interveio e revelou que as crianças estavam seguras. Ela as escondera.

Heitor mandou chamar o Conselho, que ouviu a todos e sentenciou a rainha à prisão perpétua no calabouço do castelo, onde ficou por trinta anos na companhia dos ratos, sem ver o sol e de onde só saiu morta, já em estado de putrefação.

 

A cerimônia de coroação de Heitor e a celebração do casamento ocorreram juntas, onde estiveram presentes toda a família de Aurora, o capataz, a governanta e os demais criados da fazenda.

 

Não se sabe se viveram felizes para sempre.

 

É bem provável que não, sempre aparecem seres fora da casinha na vida de todo mundo, ainda mais no centro do poder, seja monárquico ou republicano. Sabemos o que é isso.

 

NOTA:

 

A oralidade tradicional está registrada no livro onde encontrei a lenda, que é a obra “Contos Tradicionais do Povo Português”, de Theófilo Braga, Volume 1, Clássicos da Literatura Portuguesa.

 

No entanto, gosto de me divertir inserindo cenários, personagens e sequências que possam dar ao relato, por excelência fabuloso, uma pequena verossimilhança, tentando fazer o leitor voar na fantasia sem tirar os pés de alguma lógica, mesmo diante da absoluta fantasia.

 

Tento não corromper a essência das lendas, ricas exatamente por terem nascido em milenares disse-me-disses que explicam o então inexplicável, com passagens e seres mirabolantes, sempre deixando lições para reflexão, consoante os valores de cada época.

 

Jairo Attademo mora em Portugal. Foi um dos fundadores da FM Sucesso, colabora com o BOL e faz o noticiário internacional do Contato Direto, às 2as, 4as e 6as feiras, além de apresentar um programa semanal sobre música portuguesa contemporânea na Sucesso.

 

Se quiser ver essa história em Vídeo, visite o canal dele, LENDAS & HISTÓRIAS. Para ver a história, clique AQUI.

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