Estrelificar

Otávio Henrique Martins

  Estive pensando no “virar estrela”. Não me refiro à acrobática façanha, comum entre crianças e ginastas, de pegar impulso e trocar os pés pelas mãos. Penso sobre esse eufemismo que nos contam quando mais novos para acostumarmos com a morte de alguém. 

   A primeira vez que me lembro de ouvir, foi quando minha madrinha padeceu à tentação de brilhar mais distante. Assim que me contaram que ela tinha virado estrela, tinha prometido não dormir aquela noite para vigiar o céu em frente a casa da minha avó, para flagrar o processo de surgir uma nova estrela. Tentei decorar a posição e distância de cada uma entre si no céu, não sabia se uma estrela ia surgir do nada como uma luz sendo acesa ou se eu veria Deus colando uma estrela naquela grande tela escura que estava o céu, mas se eu visse algo de diferente entre as constelações… teria a certeza que ali estava minha madrinha! Dali em diante eu sempre poderia olhar para aquela estrela, nas noites mais tristes e saber que ela seria minha confidente. Naquele dia tinha tantas estrelas, como é comum em céu de cidade pequena, que no processo de vigiar e fiscalizar a posição de cada estrela acabei cedendo ao sono e não pude ver qual seria a minha madrinha. Talvez Deus seja criança furtiva também, que só age quando ninguém vê.

   Depois disso, demorei passar por um luto novamente. Com o crescimento, amadurecimento e conhecimento, soube que estrelas também morrem mas em nada se assimilam com as mortes daqui. Algum tempo atrás, tive o desprazer de saber que minha amiga Duda, resolveu estrelificar. Procurei buscar entender e sentir o luto, e suas várias etapas, para poder ensinar aquela criança, resistente ao sono e decoradora de estrelas, como que de fato as pessoas viram estrela. 

  Primeiramente, a pessoa vira céu. É impossível não olhar para o céu. No cotidiano, acima dos prédios dos afazeres, dos horizontes do pensar… a lembrança da pessoa se torna absoluta. Quando você olha para o céu, o céu olha de volta para você e a distância daquilo que é tão presente se torna torturante.Segundamente, a pessoa vira nuvem. No começo, aquelas bem escuras que anunciam tempestades torrenciais de recordações e saudades. Depois, se torna nuvens que você dá risada ao imaginar a forma e se acostuma a observá-las, mesmo que longe.Terceiramente, ela se torna estrela. Estrelifica-se em constelações de memórias, sentimentos e carinhos tão presentes que sua luz vagará eternamente no íntimo universo de cada um. Levando  calor e sendo vidente dos mais distantes mundos e olhares astrológicos, que vão te jurar de pé junto que elas ainda estão tão vivas e brilhantes quanto antes. 

   Hoje, eu e aquela criança que perdeu a guerra contra o sono, sabemos que tudo que vemos e sentimos é iluminado com a luz da nossa  madrinha e da Duda. Não existe saudade no cosmo. Do céu a retina, tudo se destina a ser tangível ao coração.

⚠️ A reprodução de conteúdo produzido pelo Portal Barbacena Online é vedada a outros veículos de comunicação sem a expressa autorização. 

Comunique ao Portal Barbacena Online equívocos de redação, de informação ou técnicos encontrados nesta página clicando no botão abaixo:

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Ao utilizar nossos serviços, você concorda com tal monitoramento. Aceitar Saiba Mais