Equações de iniquidade

Otávio Henrique Martins

Apesar de sempre ter os dois pés e a cabeça nas ciências humanas, nunca deixei de me intrigar com o universo dos números. Muito além da escola e seus métodos um pouco antiquados, eu via meu cotidiano repleto de números que me proporcionavam pensamentos, assim como eles, infinitos. 

Não precisa ser dos maiores entusiastas da matemática para perceber a presença dos números na nossa vida, por exemplo: Se quiser saber quem eu sou, minha história, minha ideias… podemos marcar uma conversa. Podemos combinar em determinada hora dentre as 24 dos nossos dias. A gente poderia combinar melhor se comunicando através de nossos celulares (que cada um tem seu número único). Claro que seria melhor se fosse no começo de mês, onde os dígitos da minha conta bancária não estão tão solitários. Talvez poderíamos até combinar da maneira mais antiga e tradicional, pode visitar aqui em casa! Minha casa inclusive tem um número também, que difere ela das demais da rua. Minha rua é diferente das outras pelo CEP… ou se simplesmente quiser saber quem eu sou, só pesquisar meu CPF ou RG. Os números quantificam as variadas especificidades de cada coisa no nosso mundo. Eles estão por toda parte registrando nosso passado, organizando o presente e destinando nossos futuros. 

Apesar de infinitos, os números não são suficiente para quantificar o que se é vivido pessoalmente e socialmente! Apesar de 24 letras disponíveis eu meu alfabeto, meus sentimentos gritam palavras aos milhões diariamente. Apesar de 24 horas em meu dia, elas parecem anos quando estou com saudades de quem eu amo. Apesar de 1 vida só que tenho, já vivi outras 1000 só nesse ano.

Apesar de produções e plantações baterem recordes numéricos, os produtos não são distribuídos entre aqueles que produzem e plantam. Apesar de empresas farmacêuticas exibirem lucros exorbitantes, algumas doenças erradicadas a anos em alguns países ao norte são tormentos presentes em outras regiões do sul. Apesar de existir muita casa ociosa em grandes capitais, a população em situação de rua só cresce. Se existir alguma lógica por trás do número, é a da perversidade. Acredito grande parte da apatia social que vivemos hoje em dia, se dá ao fato de numerificarmos tudo. Pessoas rezam, batem continência, matam, negligenciam a vida de trabalhadores em nome de um tipo de número bem específico: o lucro. Justifica-se tudo pela falta ou busca do lucro. Governos caem, vidas subtraem, recursos multiplicam e pessoas não dividem. 

Esse texto é uma convocação a todas pessoas resistentes que investem em emoções sem juros, emoções de convivências e não de conveniência. Temos de criar um exército de pessoas vigilantes, empáticas e solidárias capazes de sentir humanamente as numerosas incógnitas em nossa sociedade. Os números tem de ser nossos instrumentos e não nossa finalidade. Ainda há de existir pessoas que pautam sua vida e relações através de números, mas acredito na potência coletiva em ver as coisas de maneira mais igualitária. Quem sabe um dia as coisas mudem de fato, essas pessoas… serão só outros 500. 

NOTA DA REDAÇÃO: Otávio Henrique Martins é estudante de Ciências Sociais na UEMG, professor de música no Studio 72,músico na banda Flor De Minas e poeta. Siga no Instagram @_otavioohenrique

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