Ei, moça, não se preocupe! A menstruação é uma manifestação natural do seu corpo!

Por Juliana Rettore Capanema, graduada em Psicologia pela UFSJ, membro do Laboratório de Escrita Científica e Criativa do Podcast “Falando de Ciência e Cultura”, sob orientação do professor e pesquisador Delton Mendes 

Nesta semana li o relato de uma médica ginecologista que havia recebido em seu consultório duas meninas que haviam acabado de ter sua primeira menstruação. A mãe as “levou” para a consulta e logo pôs em evidência a sua preocupação sobre se “aquilo” era normal naquela idade e o que se podia fazer para que fosse resolvida tal situação. Quando a médica começou a conversar com as moças, uma chorou inconsolável e, a outra, expressou-se enraivecida, relatando que estava detestando aquilo. Quando tive acesso a essa narrativa da profissional médica uma diversidade de pensamentos passaram por minha cabeça: como, ainda hoje, na contemporaneidade, tantos tabus ainda persistem na sociedade em relação ao feminino e às subjetividades do corpo de todas nós, mulheres.

Como psicóloga, mulher, em breve mãe, cidadã do mundo, gostaria que isso tivesse sido um caso isolado. Entretanto, infelizmente não é. Com todas as minhas amigas e, inclusive comigo, aconteceu algo parecido. Não é incomum o choro, a vergonha e, por consequência, sentimentos como a raiva e a negação. Desejamos, até mesmo, não termos “nascido mulheres”, algo que está diretamente associado ao fato de nos ser ensinado, desde muito cedo, que menstruar é algo ruim.  Significa a perda da liberdade, perda da infância, perda da naturalidade, das brincadeiras e, a partir da menarca, tornamo-nos mulheres “completas”. Nossa postura deve mudar, devemos nos “comportar”. Precisamos nos atentar o tempo todo para passarmos despercebidas e nunca demonstrar que estamos menstruadas. Além disso, com a menstruação, crescem discursos pautados na mulher como “objeto” de reprodução, não raras vezes alicerçados pela necessidade constante de cuidado para não engravidarmos, ainda que tivéssemos (ou tenhamos) apenas 11 anos e só  quiséssemos (queiramos)  brincar.

Vale destacar, com o necessário olhar crítico, que na maioria dos conteúdos de biologia e educação sexual nas escolas a informação passada é truncada e só confirma toda expectativa negativa em torno do tema. Somos ensinadas que o útero tem um “grande projeto” que é engravidar e quando esse projeto é frustrado, perdemos sangue. As cólicas são consideradas quase um castigo por essa frustração do útero. A dor é naturalizada como inerente ao processo de não engravidar. “É normal ter cólicas, não há porque reclamar”, nos dizem o tempo todo. A menstruação e a cólica devem ser sentidas, anestesiadas, silenciadas e não demonstradas. Se não conseguirmos as esconder, devemos nos afastar da convivência social e ficarmos em casa recolhidas.

Com o tempo, estar num corpo menstruante se torna algo tão detestável que aceitamos qualquer remédio para acabar com esse sofrimento, mesmo que nos intoxique: hormônios sintéticos, analgésicos, chás, ervas, reclusão. Quanto mais pudermos nos afastar de nossos corpos, tanto melhor para vivermos. Imaginem a sensação, e angústia, de “viver” em um corpo tão detestável? Era isso que aquelas meninas do relato da médica já sabiam que passariam. Provavelmente elas escutaram isso de outras mulheres. Toda frustração de habitar um corpo menstruante já era palpável antes mesmo da menarca. Se menstruar é algo tão pavoroso, por que existe? Qual foi a falha tão terrível de uma natureza que se diz perfeita em criar um ser tão doloroso e detestável? Mas, eu digo para vocês, companheiras mulheres: a natureza não falhou. Nós vivemos em um mundo construído por preceitos culturais ainda norteados pelos vieses masculinos. O mundo ocidental foi criado por homens brancos e para homens brancos. Os espaços públicos, as relações sociais, o trabalho e a escola foram elaborados,  primeiramente, como espaços masculinos. Tudo que não se adapta a essa realidade é defeituoso. Menstruar de fato requer alguns cuidados e descanso, porém escolas, empregos, a vida de consumo excessivo não oferecem tempo para essa introspecção, esse cuidado particular e íntimo com nós mesmas.

Diante de todo esse contexto, é de suma importância que entendamos, não apenas nós, mulheres, mas toda a sociedade, que a menstruação não pode ser reduzida, apenas, como o oposto de gravidez; menstruação também é sinônimo de saúde. Se um corpo menstruante não possui boa saúde, inclusive mental, a menstruação denuncia. Seja por sua falta ou por sua abundância, por sua cor, cólicas mais ou menos suportáveis; seja por tantos outros aspectos, a menstruação precisa ser encarada como um processo natural e singularmente conectado à vida integral da mulher. Num mundo marcado por tantos preconceitos e “prisões” simbólicas, acredito que um caminho relevante para todas nós seja, além do acesso à informação e contato constante com outras mulheres, para nos abrirmos e compartilharmos vivências, a luta por políticas públicas em favor de processos educativos mais consistentes, para meninos e meninas, mulheres e homens. Por fim, lanço uma reflexão: você que lê meu texto neste momento já pensou sobre o seu corpo como um universo no qual você habita?

 

Apoio divulgação científica: Samara Autopeças e Jornal Barbacena Online