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Do preconceito notado em “ Jeca Tatu” à gravidade das condições sanitárias atuais: os problemas de saúde provocados pelos vermes

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Por Vitória Oliveira, membro do Centro de Estudos em Ecologia Urbana do IF Barbacena e graduanda em Ciências Biológicas, sob orientação do professor Delton Mendes Francelino

 

Este funesto parasita da terra é o caboclo, espécie homem, baldio, seminômade, inadaptável à civilização”. O trecho citado faz parte de uma carta, intitulada “A velha praga”, escrita em 1917, para o Jornal Folha de São Paulo, pelo autor brasileiro Monteiro Lobato. A obra trazia uma dura crítica aos trabalhadores rurais que, para o escritor, eram preguiçosos e responsáveis pelas queimadas. Lobato levou essa crítica também a um texto do livro “Urupês”, publicado no ano seguinte, quando criou o personagem Jeca Tatu, que era um símbolo de preguiça, sonolência, esterilidade e tristeza e, apesar do preconceito evidente, acabou tornando-se um sinônimo de caipira. 

Não demorou muito para que, ainda no início do século XX, pesquisas realizadas pelo Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, a respeito das doenças que assolavam o ambiente rural, mudassem a opinião do autor, levando-o a rever sua ideia preconceituosa sobre o homem do campo. Por isso, na quarta edição do mesmo livro, Lobato escreveu: “Está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie. Essa bicharada cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte[…] Um país com dois terços de  seu povo ocupado em pôr ovos alheios”.Tal afirmação deixou claro que, independente do local onde vivemos, todos nós, humanos, estamos expostos a diversos tipos de adversidades patológicas.A bicharada à qual o escritor se referiu faz parte do Reino Animalia (que compreende todos os animais, inclusive nós), e é popularmente conhecida como vermes. Esses animais podem ser subdivididos em dois grupos principais, de acordo com suas características morfológicas: Platelmintos (vermes de corpo achatado) e Nematelmintos (corpos cilíndricos e alongados). É importante ressaltar que nem todos representantes desses grupos causam doenças, uma vez que vários deles vivem de forma livre no ambiente, sem precisar de um hospedeiro (no caso da humanidade, pessoa na qual o parasita se abriga).

Esses vermes podem penetrar a pele do hospedeiro (forma ativa) ou serem ingeridos na forma de larvas ou ovos a partir do consumo de água contaminada e/ou alimentos higienizados incorretamente (forma passiva). Já no interior do organismo, podem se alojar no fígado, coração, pulmões, cérebro e, principalmente, no intestino, onde, nesse caso, alimentar-se-ão dos nutrientes já digeridos. Vários sintomas são identificáveis, como dores abdominais e diarréia, podendo ocorrer também náuseas e vômitos, falta de apetite, anemia e problemas respiratórios. Uma vez bem nutridos, os vermes completam seu desenvolvimento, atingindo a maturidade sexual e se reproduzindo, tendo seus ovos liberados junto às fezes do hospedeiro, reiniciando o ciclo da doença. Se analisarmos o mecanismo de disseminação dessas moléstias, fica evidente que está diretamente relacionado à ausência ou precariedade de serviços de saneamento básico e hábitos anti-higiênicos. Atualmente, 36% da população brasileira possui algum tipo de verminose. Entre as crianças, o número é ainda maior: 55%. Um relatório do IBGE (2018) mostrou que essas patologias ocorrem em altos índices em 960 cidades do país (17,2%), que poucos municípios brasileiros seguem as diretrizes nacionais para serviços de abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo de águas pluviais e resíduos sólidos, e que somente 38,2% informaram ter uma Política de Saneamento Básico. Outro problema recorrente é o despreparo de muitos profissionais da saúde na identificação das doenças provocadas por vermes, já que muitas vezes são confundidas com viroses, por exemplo, o que mostra a importância da constante atualização e capacitação dos profissionais envolvidos, na prevenção, no diagnóstico e no tratamento dessas patologias. 

Por muito tempo, preconceituosamente, acreditou-se, como mostrado nos trechos relativos às obras de Monteiro Lobato, que apenas “tinham vermes” indivíduos que viviam no campo, algo que a ciência mostrou ser um equívoco. Hoje sabemos que, mesmo nas cidades, a incidência pode ser grande de pessoas adoentadas por esses seres vivos, que acabam se proliferando com maior potencialidade em virtude de péssimas condições sanitárias e também de higiene. Vale destacar, em término, que significativa parcela da população mundial não possui saneamento básico ideal, passa fome, não tem acesso à água em boas condições de uso e não consegue ter atendimento médico de qualidade. Num contexto contemporâneo em que tanto se discute a sustentabilidade, será que de fato poderemos ser uma sociedade sustentável enquanto tantas pessoas estiverem expostas, ainda, a péssimas condições de saúde e existência?

Apoio divulgação científica: Samara Autopeças

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