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    Barbacena, MG Previsão completa
  • Diálogo entre pais e filhos

    Talvez em nenhuma outra época a relação entre pais e filhos tenha estado tão estremecida e conturbada como agora. Agravadas pelo isolamento social, o que obriga as famílias a conviverem por tempo prolongado, sem os escapes tradicionais (escola, futebol, aulas extraescolares, brincadeiras nas ruas, etc.), o diálogo entre pais e filhos tem se tornado cada vez mais escasso e muitas vezes agressivo e perigoso.

    Mas é importante frisar que a maneira como reagimos diante dos problemas, ou de situações corriqueiras, demonstra o tipo de pessoa que somos, e nossos filhos estarão sempre nos observando, seja nos pontos mais fortes e nos fracos também.

    • Quais tem sido os motivos pelos quais o diálogo entre pais e filhos tem deixado de existir e de maneira positiva?

    Pais e filhos sempre tiveram e terão conflitos ao longo da vida pelo simples fato de serem pessoas diferentes e, desta forma, pensarem diferente.

    Mas atualmente as relações têm estado ainda mais conflituosas pelo fato de que a sociedade mudou: mudou na forma como enxerga os filhos (e estes passaram a ser as pessoas mais importantes de uma casa e que acham que suas necessidades devam ser satisfeitas de imediato), na forma como os pais cuidam e educam seus filhos (passam cada vez menos tempo com os filhos, delegando a terceiros os cuidados, inclusive os básicos, a terceiros), na forma como enxergamos e vivenciamos a família nos dias de hoje.

    Estar em casa já não é mais sinônimo de estar com a família, conviver com ela, conversar com ela. Muitas vezes significa estar dentro de um mesmo lugar, literalmente confinados, mas cada um dentro de seu universo particular, tanto os filhos quanto os pais.

    O excesso e a necessidade de trabalho têm também dificultado a boa e necessária interação entre pais e filhos. O trabalho tem ocupado mais tempo dos adultos do que a preocupação em criar uma família saudável, dentro dos parâmetros que se considera esperados. Fora, ainda, o excesso de tecnologia e atrativos que a Internet possui e que tem tirado muitos pais de casa, mesmo que estejam diante de seus filhos.

    • A quais riscos a família fica exposta quando falta diálogo dentro de casa?

    O risco mais temido é o de se tornarem estranhos uns aos outros, o de se tornarem inimigos ou desconhecidos que moram na mesma casa.

    É na infância que construímos nossas relações parentais e, ao longo da vida, as fortalecemos. Todos nós passaremos por situações conflitantes, ruins e temerosas. Nessas circunstâncias sempre nos confrontamos com aquilo que deixamos de construir ao longo da vida. E não podemos esperar que a relação entre pais e filhos siga a mesma regra.

    Ser família é estar juntos em todos os momentos, sejam tristes ou alegres.

    Adiar ou delegar a terceiros a construção do diálogo dentro de nossas casas mostra a fragilidade de nossas relações interpessoais e pessoais.

    Não ensinar nossos filhos a conversar conosco é um crime que precisa ser banido das nossas relações parentais.

    • Qual é a importância do diálogo entre pais e filhos?

    Eu diria que o maior ganho do diálogo entre pais e filhos é o de uma família realmente entrosada e feliz, apesar das situações que certamente aparecerão ao longo da vida. É importante também para aprendermos a lidar com pontos de vista diferentes dos nossos. É importante para estreitar os laços de afetos entre nós e nossos filhos. Não podemos nem devemos repetir o que aconteceu em gerações passadas, em que os filhos tinham medo de seus pais. Não queremos que nossos filhos tenham medo de nós. Precisamos e queremos que tenham respeito e confiança em nós. Que nos vejam como pessoas e não como tiranos ou desconhecidos. Conversar implica em estabelecer uma relação de afeto.

    Assim, criem o hábito de conversar com seus filhos. Ouçam o que eles têm a dizer. Estreitem as relações de forma a não perderem seus filhos para as armadilhas do mundo.

    • Existe alguma orientação que possa auxiliar os pais a conversarem melhor com seus filhos?

    Sim. Temos algumas orientações que podem auxiliar os pais neste processo:

    1. Estabeleçam uma boa conversa: A boa conversa vem cheia de novidades. Os filhos se empolgam em contar aos pais como enfrentaram os desafios do dia, falam de seus amigos, daquilo que aconteceu na escola ou em outro lugar que frequentam, etc. Eles não devem sentir vergonha ou medo de dizer aos pais como se sentem sobre tudo o que os cercam; eles precisam aprender a confiar em nós, seus pais.
    2. Favoreçam a discussão/oposição de ideias: Os filhos têm suas próprias personalidades, características e com isso formam uma opinião própria diante de tudo que os rodeiam. Eles não precisam concordar com os pais em tudo, porque nem sempre os adultos estão certos. Todos os seres humanos cometem equívocos e erram. Mas, isso não quer dizer que os filhos não tenham que respeitar os pais. Eles precisam enxergar nos pais pessoas capazes de reconhecer seus erros e prontas para perdoar ou ser perdoadas, só assim, quando eles cometerem seus próprios erros, poderão encontrar nos pais apoio e forças para assumir suas próprias responsabilidades.
    3. Evitem brigas em casa: Quando uma casa é cercada de brigas, o amor e o respeito enfraquecem. As brigas só demonstram a fraqueza e ausência da gentileza dentro deste lar. As brigas surgem por diversos motivos: comunicação distorcida, falta de comunicação, dependência de substâncias químicas e a falta de respeito. Todos os pais precisam ter cuidado na infância e na adolescência dos filhos, especialmente em situações que surjam conflitos, para que esses filhos não presenciem brigas. As crianças podem se calar naquele momento, mas na sua vida adulta podem se tornar adultos violentos. Já os adolescentes podem adotar a violência como parte do seu caráter e irão agir com estupidez e brutalidade diante da sociedade e da própria família. Também há pais que foram sempre bons e os filhos por um problema mental ou da própria índole acabam por agredir os pais; para esses o melhor a fazer é procurar uma ajuda especializada e só assim ambos encontrarão a ajuda que precisam.

    ESPECIALISTA RESPONSÁVEL: Valeska Magierek. Psicóloga (UFSJ), Neuropsicóloga (FUMEC), Mestre em Psicobiologia (UNIFESP). Experiência há mais de 20 anos na área de Psicologia Infantil e Neuropsicologia. Autora do livro infantil “A semente mágica”. Atualmente atende no Centro AMA de Desenvolvimento em Barbacena, é palestrante e professora em cursos de Pós- Graduação.