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Dependência de jogos eletrônicos na infância

A opinião de Waleska Magierek

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  • Qual é a diferença entre o brincar e o jogar no universo dos eletrônicos?

 

Brincar é a atividade predominante na infância e é a maneira mais divertida e segura de aprendizado para um cérebro em desenvolvimento. No jogo, as crianças interagem entre si, vivenciam situações e emoções, manifestam indagações, formulam estratégias e, ao verificarem seus erros e acertos, podem reformular sem punição seu planejamento e suas novas ações. Sabe-se que tanto o brinquedo como o brincar são influenciados pelas relações humanas e pelos padrões de uma sociedade. Com o grande avanço tecnológico das últimas décadas, principalmente no que diz respeito à informática, os jogos eletrônicos tornaram-se cada vez mais populares, sendo uma das mais importantes atividades de lazer para crianças e adolescentes.

Muitos estudos relacionam o uso de jogos eletrônicos com uma maior facilidade de aprendizado, o desenvolvimento de habilidades afetivas, cognitivas e motoras, e também a facilitação da socialização. Diversos benefícios de seu uso têm sido comprovados também em tratamentos médicos e psicológicos. Por outro lado, o uso dos jogos eletrônicos é fonte cada vez maior de preocupação para pais e cuidadores, na medida em que tem aumentado progressivamente o tempo que os jovens passam em contato com os games. É bem estabelecido que seu uso pode, para alguns indivíduos, acarretar prejuízo grave na saúde (tanto física quanto mental), no desempenho acadêmico e também nos relacionamentos afetivos. Esses problemas relacionados aos jogos eletrônicos tendem a continuar ao longo do tempo para a grande maioria dos indivíduos afetados. Merece destaque também a altíssima prevalência de comorbidades psiquiátricas associadas a essa condição (ansiedade, por exemplo).

Assim, o brincar faz parte do desenvolvimento normal e saudável de toda e qualquer criança e os jogos eletrônicos pode trazer prejuízos para este desenvolvimento, a depender do tipo e quantidade de tempo empregados.

 

  1. Quais são os riscos dos jogos eletrônicos na infância?

Vivemos uma geração tecnológica em que o acesso a qualquer tipo de informação está ao alcance dos dedos e mentes que trabalham rápido. Cada vez mais cedo nossas crianças têm acesso a tablets e celulares, o que é inevitável e também perigoso. Neste sentido, muitas vezes aquilo que inicialmente era uma diversão se torna uma dependência, um transtorno, e como doença deve ser tratada.

Os jogos eletrônicos modificam os padrões de atenção e de comportamento das pessoas, de forma geral. Eles criam uma condição em que cada vez mais se precisa de mais tempo diante dos jogos por conta das fases e premiações.

Disfarçadamente, brincando, as crianças se tornam vulneráveis à dependência desses jogos e não conseguem diferenciar o que é real do irreal, não conseguem dimensionar o tempo que gastam nessas atividades, abandonam as atividades escolares por essas não conseguirem competir com as cores, os desafios e as infinidades de estímulos mais atrativos.

E facilmente se tornam presas fáceis do mundo dos games, um mundo paralelo para o qual também já temos tratamento médico e não-médico em se tratando de dependência.

 

 

  • A dependência de jogos eletrônicos pode ser comparada a qual tipo de dependência?

 

 

A dependência de jogos tecnológicos pode ser comparada às dependências de drogas lícitas e ilícitas, como a cocaína e o tabaco ou cigarro. O não jogar leva a pessoa a ter sintomas de abstinência como naquelas pessoas que utilizam drogas. A ‘fissura’ traz irritabilidade, agitação; nos casos mais graves, os sintomas físicos também aparecem em graus maiores (sudorese, taquicardia, dentre outros).

As áreas cerebrais envolvidas são as mesmas, fazendo sintomas semelhantes tanto na dependência química quanto na dependência de jogos.

 

 

  • Qual a estatística de casos de dependência de jogos atualmente?

 

Há uma estimativa de 3% de dependência dos jogadores, com um predomínio de homens em relação às mulheres.

 

 

  • Quais são as causas da dependência tecnológica?

 

As causas possíveis para o surgimento de dependência podem ser diversificadas como:

– presença de um funcionamento familiar disfuncional,

– vulnerabilidade cognitiva,

– aprendizagem de estratégias inadequadas para lidar com frustrações,

– fatores biológicos (mudanças no funcionamento cerebral),

– motivações par uso de tecnologia (exploração, socialização, etc).

 

 

  • Como é realizado o diagnóstico da Dependência a Jogos Eletrônicos?

 

 

O diagnóstico da dependência de jogos eletrônicos tem como base uma avaliação inicial minuciosa e completa, visando examinar, além dos problemas relacionados aos games, outras situações importantes na vida do adolescente. Uma abordagem diagnóstica multiaxial tem como objetivo identificar e ao mesmo tempo descartar a presença de transtornos psiquiátricos, avaliar características de personalidade e o nível de inteligência, fazer um levantamento de possíveis doenças clínicas e também avaliar aspectos sociais e o funcionamento geral do indivíduo. O período da avaliação inicial é também fundamental no estabelecimento de um vínculo terapêutico de confiança, que servirá como base para a intervenção motivacional e a terapia propriamente dita.

 

 

  • Quais são os sinais e sintomas de que a criança ou o adolescente possa apresentar Dependência de Jogos Eletrônicos?

 

É importante que a família fique atenta aos sinais de que alguma coisa possa estar fora de controle.

 

 

  • A dependência por Jogos Eletrônicos pode estar associada a algum outro transtorno?

 

As comorbidades psiquiátricas podem ter uma relação de causa e efeito com a dependência de tecnologia e uma tendência a se reforçarem mutuamente. As comorbidades mais frequentemente encontradas entre dependentes de jogos eletrônicos são depressão, ansiedade social e transtorno de déficit de atenção/hiperatividade. Jovens com depressão, ansiedade social e TDAH podem tornar-se mais vulneráveis a desenvolver dependência de jogos eletrônicos por serem mais impulsivos, terem menor habilidade social e de empatia e menor controle emocional. Nesses casos, o uso dos jogos, que inicialmente funcionavam como uma estratégia de enfrentamento (ou de auto tratamento), pode evoluir para um comportamento de dependência, que por sua vez pode agravar o transtorno inicial.

Além disso, estudos científicos já têm mostrado que jovens dependentes de jogos eletrônicos apresentavam novos diagnósticos de depressão e de ansiedade social durante o período do estudo, enquanto os jovens que deixaram de ser dependentes evoluíram com redução dos sintomas desses transtornos. Talvez tal fenômeno possa ser explicado se considerarmos que o indivíduo dependente de jogos eletrônicos pode apresentar inúmeros prejuízos a nível familiar, social e escolar que se tornam fatores de risco para quadros depressivos, ansiosos e de desatenção. O jovem dependente de videogame passa muitas horas jogando e termina por afastar-se da família e dos amigos, evoluindo com agravamento do isolamento social. Também diminuem as horas de estudo, o que pode contribuir para piora significativa do rendimento escolar. Com frequência, muitas horas noturnas são despendidas com o jogo, o que piora ainda mais a capacidade atencional do indivíduo.

 

 

  • Como se dá o tratamento para a Dependência Tecnológica?

 

O tratamento da dependência de jogos eletrônicos não tem o objetivo de abstinência plena, como se faz necessário no tratamento das dependências de álcool e outras drogas. Mas um período de afastamento do jogo pode ser necessário, caso o prejuízo mostre-se bastante intenso e o comportamento não possa ser evitado de outra forma. Uma criança submetida à uma vida dependente fica impedida de crescer e tenderá, ao longo de sua vida, inclusive sua vida adulta, a estabelecer relações de dependência; primeiro a dependência dos pais, que se transformará em dependência nos relacionamentos e no trabalho, o que se configurará na incapacidade de tomar decisões e permanecer sempre recebendo ordens.

Até o presente momento não há nenhuma medicação comprovadamente eficaz no tratamento específico da dependência de jogos eletrônicos. Dessa forma, o uso de psicofármacos está indicado quando existe alguma comorbidade psiquiátrica passível de ser tratada com essa abordagem, o que se pode melhorar o prognóstico da dependência de jogos eletrônicos. A psicoterapia é considerada a principal abordagem de tratamento. Em situações nas quais a criança ou o adolescente não reconhece o problema e não se apresenta motivado para o tratamento, a psicoterapia familiar pode ser particularmente útil. Ela também está indicada em situações em que se faz necessário o restabelecimento dos limites e da hierarquia entre os membros da família, o que é bastante comum em casos de dependência de jogos eletrônicos.

 

 

  • Que orientações podem ser fornecidas aos pais quanto aos cuidados com os filhos no tocante à tecnologia?

 

O uso por muito tempo durante o dia de aparelhos eletrônicos traz riscos e danos para a saúde mental, física e social das crianças e jovens, sendo, portanto necessário o controle do tempo de contato com o mundo virtual de maneira que não se torne excessivo e prejudicial.

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda um uso limitado das mídias de no máximo 1 hora para crianças de 2 a 5 anos de idade. Deve-se evitar o uso para crianças menores de 2 anos. Para os maiores de 5 anos a utilização deve ser no máximo de 2 horas por dia.

É essencial evitar uso desses aparelhos durante as refeições e antes de dormir.

É importante estimular o contato com a natureza e atividades físicas diariamente para que as crianças possam ter um adequado desenvolvimento motor, interagir presencialmente com outras pessoas e ter outros estímulos saudáveis para o seu desenvolvimento.

Os pais precisam estabelecer regras de utilização em casa, proibir o uso excessivo e dedicar um pouco do seu tempo para brincar e estar presente na vida dos seus filhos. Embora seja cômodo deixá-los sozinho jogando há uma série de riscos e prejuízos para sua saúde física, social e mental.

NOTA DA REDAÇÃO: Valeska Magierek. Psicóloga e Neuropsicóloga, com experiência de 20 anos no atendimento de crianças, como palestrante e professora universitária. É Diretora clínica do Centro AMA de Desenvolvimento em Barbacena e autora do livro “A semente mágica”. www.centroamadesenvolvimento.com.br

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