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    Barbacena, MG Previsão completa
  • De volta ao passado… Jardim Municipal no centro de Barbacena já foi cercado e tinha entrada controlada

    Edson Brandão

    Muita gente estranhou uma das medidas tomadas recentemente para o controle da contaminação pela covid-19 em Barbacena, na chamada Onda Roxa, que foi o cercamento do Jardim Municipal para evitar a concentração de pessoas no local.

    O que poucos sabem é que há 140 anos o jardim com seus canteiros e bosques era cercado e tinha até um portão que controlava o acesso das pessoas. O largo onde hoje está o Jardim Municipal existe desde a segunda metade do século XVIII, quando começou a formação do então arraial da Igreja Nova (nome antigo de Barbacena). A praça era parte do trajeto do Caminho Novo, estrada que ligava as Minas Gerais ao Rio de Janeiro. A partir de 1764, quando a Matriz de Nossa Senhora da Piedade foi erguida, passou a ser a referência para que outras construções, em especial moradas e pontos comerciais surgissem. A imagem conhecida mais antiga da região central de Barbacena data de 1842, na forma de uma gravura que ilustra o livro do Padre Marinho, sobre a Revolução Liberal de 1842, episódio histórico que envolveu a mobilização de forças militares do governo imperial brasileiro nas cidades de Barbacena (MG) e Sorocaba (SP). O Desenho retrata a “Praça de Barbacena”, ainda sem seu jardim.
    A chamada “Praça da Intendência” se referia à sede da Câmara Municipal e depois, Prefeitura, que desde seus primórdios funcionava no prédio histórico hoje denominado “Palácio da Revolução Liberal”.
    Segundo o historiador Nestor Massena, foi Belisário Augusto de Oliveira Penna (1836-1908) , o Visconde de Carandaí que propôs a instalação de um sistema de abastecimento de água no centro da cidade e o principal chafariz, dos seis instalados na cidade, foi exatamente o da Praça da Intendência, que ganhou também o jardim tal qual conhecemos hoje. A obra foi inaugurada em 30 de dezembro de 1882, sendo o presidente da Câmara Municipal (cargo equivalente ao do prefeito atual), o vereador Carlos Pereira de Sá Fortes. Uma fotografia de domínio público, possivelmente feita a partir da torre direita da matriz da Piedade, no final do século XIX, revela claramente a existência da cerca e de um portão de madeira (FOTO ACIMA).
    Ao longo do tempo, vários acréscimos foram feitos à Praça que nos anos 30 do século XX, recebeu o coreto e o monumento ao ex-governador de Minas, Chrispim Jacques Bias Fortes. Curiosamente, o jardim como um todo tem a denominação de Praça dos Andradas, o que aguça ainda hoje a imaginação dos barbacenenses sobre a famosa disputa política das duas famílias na cidade e região. Com as árvores já frondosas, as gerações mais antigas ainda puderam conviver com a fauna que habitava o local, como os macacos, sempre ganhando pipoca e guloseimas dos transeuntes e até um bicho preguiça, que até os anos 80, era notícia quando despencava de uma árvore. Aliás, árvores de diversas espécies foram plantadas no local, dentre elas, o Pau Brasil, símbolo do País. Pequenos monumentos à personalidades como os poetas Padre Mestre Correia de Almeida (1820 – 1905) e Honório Armond (1891-1958), o músico Flausino Vale (1894-1954), o escoteiro Caio Martins (1923-1938), herói do maior acidente ferroviário ocorrido em Barbacena, dão sentido histórico à Praça que já teve um rink de patinação, e uma fonte com estátua em mármore retratando a Leda e o Cisne. Pelo conteúdo erótico do mito clássico, o monumento foi banido de sua localização original, defrontre à Matriz da Piedade, passando tempos na Praça Antônio Carlos, próxima à Faculdade de Medicina e depois no Jardim do Globo, onde está até hoje.
    Símbolo do encontro entre os barbacenenses, em todos os momentos, sejam bailes de carnaval, eventos culturais, manifestações, celebrações religiosas, a Praça hoje cercada é um retrato triste das consequências de uma pandemia, cuja a doença não só afeta a saúde mas impede a convivência das pessoas pela necessidade do afastamento social.

    NOTA DA REDAÇÃO: Edson Brandão é membro efetivo da Academia Barbacenense de Letras e correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São João Del Rei.