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Coroações de maio

A crônica de Débora Ireno Dias

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Vestir a roupa de frio. Por o vestido rodado, feito em cetim e bordado com miçangas e paetês e flores, tudo produzido com esmero pelas mãos da Mamãe. Prender o cabelo longo para a coroa ficar firme e por as asas! Ah, estas eram uma atração a parte. Feitas de pena de pato, eram alvo das disputas entre os anjos – pela vaidade – e dos meninos – pela travessura de arrancar as penas. Participar da missa e saber responder as perguntas do Padre. Ficar esperta na hora de subir as escadas para os anjos atrevidos não voarem na minha frente e pegarem meu lugar. Cantar em alto e bom som (e certamente desafinado) a mesma música de todos os anos (desde os meus 4 anos). E coroar Nossa Senhora! Coroar! A parte bonita dos meses de maio da minha infância e adolescência.

Coroar era um ato solene, desde o ensaio no final de tarde, passando pelas lembrancinhas que as mães faziam para serem entregues aos anjos ao final da celebração. E os vestidos! Tantas cores e brilho, que imagino ser ali que o arco-íris se inspirava para aparecer depois da chuva! E o trono de Nossa Senhora, alto, imponente, decorado em azul, branco e flores, muitas flores, ornando uma imagem pequena, singela, cheia de graça, da Senhora das Graças. A coroa, a palma, o véu e o cordão – coração, eram simples, de tecido. Mas nos dias de festa, eram com brilhos e paetês, e também era diferente a música que se cantava. Nestes dias, apareciam uns anjos grandes, com roupas mais bonitas, cheias de lantejoulas, que também ornamentavam as asas de tule, transparentes e brilhantes. Eu, criança, olhava e queria logo crescer para ser “anjo grande”.

Lembro-me dos dias de mais frio, quando amanhecia tudo fechado, mal se via fora da janela de casa. Olhava a rua e não via a igreja e logo chorava, pensando que a mesma tinha sumido e não teria coroação, não teria Nossa Senhora. E os olhos iam se enchendo à medida que a nuvem sumia e o sol vinha brilhante mostrar que tudo estava ali, onde devia estar (acho que é assim na vida de adulto – quando a nuvem baixa passa e o sol aparece, dá para ver que tudo continua onde devia estar e, às vezes, até de forma mais bonita, radiante).

Durante anos, todos os dias, foi assim: ensaios, vestidos, flores, lembrancinhas e a melhor lembrança, a de estar pertinho de Maria, coroando. Lembro de algumas vezes ter  aproveitado para lhe pedir algumas coisas, já que estava tão pertinho dela. Lembro-me de algumas vezes ter sentido medo, ter chorado sem motivo aparente. Mas sempre perto dela. Ela perto de mim.

Sinto que aquela criança ainda continua ali, a lhe coroar a cada vez que um anjinho lhe homenageia. Sinto que o olhar daquela criança ainda continua ali, junto ao Dela, pedindo, chorando, sorrindo. As coroações de maio não são simples atos, são complexos atos de amor que se leva para uma vida inteira.

Débora Ireno Dias

Maio – 2019

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