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Copa do Brasil e a mágica da inversão de poder

Hélcio Ribeiro Campos

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Terminou mais uma Copa do Brasil, a competição que mais faz surgir a novidade no futebol nacional com a vitória de clubes pequenos sobre grandes, dos times mais baratos sobre os mais caros.

Em 2018, o Cruzeiro foi o campeão. Aliás, bicampeão. E em apenas dois anos sobrepujou os mais midiáticos e financiados clubes brasileiros, já que são detentores das duas maiores torcidas: Flamengo e Corinthians. Não que se trate de um típico “Davi x Golias”, pois o Cruzeiro também é um clube grande, com altos investimentos. É, na atualidade, um time até mais caro que o corintiano.

Por outro lado, não há como fechar os olhos para os (muito) maiores investimentos recebidos pelas agremiações do eixo Rio-São Paulo frente aos times dos demais centros, como Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador e Recife, por exemplo.

Entre as torcidas existe a tradição de “torcer pelo mais fraco”. Essa máxima já proporcionou deliciosas e surpreendentes vitórias na Copa do Brasil, a não ser que o time que torcemos estivesse na briga pelo caneco.

Criciúma-SC (1991), Santo André-SP (2004) e Paulista de Jundiaí-SP (2005) são os maiores exemplos dessa catarse social que temos pela via do futebol. Eles bateram Grêmio, Flamengo e Fluminense (respectivamente) nas finais. O Criciúma ainda teve o sabor de triunfar invicto.

 

Criciúma, 1991: a primeira grata surpresa a vencer a Copa do Brasil.

Deixei de citar o Juventude, campeão de 1999, por estar ligado ao capital da multinacional Parmalat e, assim, destoar do sentido de ser uma agremiação do interior que venceu sem os mecanismos de poder.

Outras vezes, ainda que derrotados, clubes menores que seus adversários deram o tom do diferente  entre os favoritos e chegaram às finais. Foram os casos de Goiás (1990), Ceará (1994), Brasiliense (2002), Figueirense (2007), Vitória (2010) e Coritiba (2011 e 2012). Todos os seus segundos lugares são muito mais difíceis de alcançar do que os títulos dos já esperados candidatos a campeões.

Enfim, a mesma ideia vale para quando chegamos a uma final entre associações esportivas grandes, mas que dispõem de investimentos diferentes. Por isso, quão valiosos formam os títulos do Cruzeiro sobre Corinthians (2018), Flamengo (2017), São Paulo (2000) e Palmeiras (1996); do Grêmio frente ao Corinthians (2001) e Flamengo (1997); e do Sport diante do Corinthians (2008).

Além do mais, despontam técnicos e jogadores na Copa do Brasil. Foi assim com Luiz Felipe Scolari e Roberto Cavalo (Criciúma, 1991); Vagner Mancini, Réver-Fla e o goleiro Victor-Atlético (Paulista, 2005); o volante Henrique-Cruzeiro, Cleiton Xavier e o lateral André Santos (Figueirense, 2007).

Enfim, a Copa do Brasil é a copa “justiceira”. Reúne emoções e lampejos dos ditos clubes menores e mais baratos diante dos mais caros e midiáticos, lotados de suas grandes cifras de cotas da TV e patrocínios.

A Copa do Brasil é uma catarse social para várias torcidas, num país que, sobretudo nos dois últimos anos, distribuiu vexames, a exemplo do maior número de desempregados da história e da subida da mortalidade infantil (após duas décadas seguidas de quedas).

Por isso, a Copa do Brasil é tão especial, tão legal: pode nos fazer triunfar e alegrar diante dos poderosos. Isso em outros ramos da vida cotidiana é raridade, quase inexistente.

Não por acaso, o futebol é o esporte das multidões.

Hélcio Ribeiro Campos

NOTA DA REDAÇÃO: Helcio Ribeiro Campos é autor de publicações sobre Futebol e Geografia; mestre e doutor em Geografia Humana; escreve o blog Futebol, Cultura e Geografia; editor da Revista Pluritas; professor do IF Barbacena.

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