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  • Contra-Ataque: Quanto vale a vida?

    Sérgio Monteiro

    Quanto vale a vida?

    Na semana em que o futebol brasileiro deveria estar comemorando a classificação de Santos e Palmeiras para a final daLibertadores – esta é apenas a terceira vez na história que a principal competição continental é decidida por dois times brasileiros – a CBF consegue roubar a cena e chamar para si os holofotes. Não por um bom motivo, muito pelo contrário. O que, em se tratando de CBF, não é novidade alguma, infelizmente.

    Cuiabá e Guarani se enfrentaram pela 35ª rodada da Série B ontem, em Cuiabá. Um jogo que prometia ser um dos melhores da rodada, com duas equipes na disputa pelo acesso à Série A. Isso em condições normais e se estivéssemos em um país sério. Se o Guarani não tivesse entrado em campo completamente desfigurado, sem a mínima condição de jogo, desfacelado pela Covid e pela irresponsabilidade dos cartolas que comandam o futebol no Brasil.

    Não é de hoje que o futebol brasileiro é conduzido de forma desrespeitosa

    Com 17 atletas contaminados pela Covid-19, sendo seis deles descobertos já no dia do jogo, a equipe paulista contava apenas com 12 jogadores na delegação – já no Mato Grosso – e solicitou, no começo da tarde, o adiamento da partida. O que seria a atitude esperada de uma entidade com o mínimo de seriedade e respeito pela vida alheia. Afinal de contas, o protocolo da própria CBF adotado desde o retorno do futebol, em meados do ano passado, diz que é preciso ter um mínimo de 13 atletas em condições de jogo.

    Mas a resposta da CBF foi a mais cruel possível: adiamento no máximo de um dia. Ou seja: o famoso ‘se vira’, tipicamente brasileiro. Para completar 13 jogadores na delegação, o Guarani convocou um atleta que estava em Campinas, em reta final de recuperação da Covid-19. O volante Lucas Abreu partiu para Cuiabá em voo de carreira, chegando no estádio 18 minutos antes do início da partida. Não participou do aquecimento, da preleção, nem nada. Vestiu o uniforme e foi para o banco de reservas, na certeza de que seria utilizado no segundo tempo, dadas as circunstâncias.

    Além de comprometer o equilíbrio da partida, a CBF endossou o coro daqueles que, desde o começo da pandemia, demonstram um total desprezo pela vida e minimizam uma doença que vem colocando em pânico um planeta. Dos 13 jogadores relacionados pelo Guarani, a metade se recupera da Covid. Não contaminam mais, mas ainda sentem reflexos da doença. Dois deles, inclusive, tiveram sintomas e se queixam de cansaço exagerado em atividades físicas. Resultado: o time andou em campo no segundo tempo, vendo o Cuiabá – que não tem nada com isso – golear e as chances de acesso à Primeira Divisão caírem por terra. Cada gol do Cuiabá era mais um gol da Alemanha.

    Sabemos todos que o calendário está apertado e que os interesses comerciais são fundamentais para qualquer campeonato disputado no país. Infelizmente, o esporte, muito mais do que a paixão de qualquer torcedor, envolve cifras, contratos e patrocínios milionários. Mas nada poderia ser mais importante do que a vida.

    A infeliz decisão da CBF colocou em risco, além de atletas e árbitros que participaram da partida, passageiros do voo que levou Lucas Abreu para Cuiabá, além de funcionários e hóspedes do hotel em que ficou hospedada a delegação do Guarani. Isso porque a chance de o Guarani ter entrado em campo com mais jogadores contaminados é grande. Os próximos exames dirão.

    Quem perdeu – e de goleada ontem – não foi apenas o Guarani. A irresponsabilidade e a crueldade de nossos dirigentes foi uma surra em todos os brasileiros. O placar da Arena Pantanal, ao final da partida, estampava um 4 x 0 para o time da casa, mas o resultado dessa partida, na verdade, é outro: 207 mil x 0.

     

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    Crédito – Agência Estado