Contra-Ataque: Na bola, na fé e na guerra

Sérgio Monteiro

 

Na bola, na fé e na guerra

 

Quando te disserem que “Libertadores é guerra”, não ouse duvidar. Classificado para as quartas-de-final da competição, o Atlético teve que superar, além do poderoso e tradicional Boca Juniors dentro de campo, a fúria de dirigentes, comissão técnica e jogadores argentinos na última terça-feira, no Mineirão, após o término do jogo. O duelo, que terminou empatado e acabou sendo decidido nos pênaltis, se estendeu para além das quatro linhas, transformando o acesso aos vestiários em uma verdadeira praça de guerra. O resultado disso foi a depredação do estádio e uma longa série de depoimentos em uma delegacia de BH, que só foi terminar no início da tarde do dia seguinte.

Em campo, Galo e Boca voltaram a fazer um jogo aquém do esperado. Assim como no confronto de ida, em Buenos Aires, foram poucas as chances de gol para ambos os lados. Também repetiu o jogo de ida o fato de o Boca ter um gol anulado pelo VAR, já na segunda etapa, após checagem e confirmação de impedimento de um de seus jogadores. Foi a senha que a equipe portenha precisava para dar ares de guerra ao jogo. Já no momento da confirmação da anulação do gol por parte do árbitro, argentinos e brasileiros se estranharam à beira do gramado, dando mostras da selvageria que se avizinhava.

Ainda dentro das quatro linhas, o empate persistiu e a decisão da vaga foi decidida nos pênaltis. Melhor para o Galo que, mesmo desperdiçando duas cobranças, venceu por 3 x 1, com destaque para o goleiro Everson, que defendeu duas cobranças argentinas e ainda marcou o último gol brasileiro. Candidato a vilão após falhar no lance do gol anulado do Boca, o goleiro alvinegro saiu de campo como o herói da classificação. Se tivesse torcida no estádio, certamente sairia dos gramados ovacionado por um mar de atleticanos.

Mas a partida chamou mais a atenção após o seu término. Nos corredores de acesso aos vestiários, o que se viu e ouviu foram cenas lamentáveis.Revoltados com a anulação do gol pelo VAR e com a eliminação, os argentinos utilizaram bebedouros, grades e barras de ferro como armas para agredir seguranças do Atlético e do estádio e tentar invadir os vestiários dos árbitros e do adversário. Um cenário que em nada se aproxima dos valores esportivos. Mais um capítulo de uma triste realidade que envolve parte dos times sul-americanos há anos. E infelizmente é tratada como normal pelas autoridades desportivas.

Menos mal que alguns jogadores e membros da comissão técnica e diretoria do time argentino foram identificados pelas câmeras de segurança e levados a uma delegacia na capital mineira para depoimentos. Após 12 horas, foram liberados, mediante pagamento de fiança e assinatura de termos circunstanciais de ocorrência, para seguir viagem à capital argentina. Mas esse jogo certamente não acabou ali.

Classificado para as quartas-de-final, o Atlético terá pela frente mais um argentino e, enquanto a delegação do Boca se explicava a autoridades brasileiras pelos crimes de dano qualificado, lesão corporal e desacato, a imprensa portenha já fazia alarde em cima da situação, tentando transferir a responsabilidade pela selvageria para os atleticanos. Claro que o interesse dos hermanos é uma punição com mando de campo para o Galo, adversário de mais um de seus times na próxima fase.

E não para por aí. Independente da Conmebol embarcar ou não na armadilha dos argentinos, a direção do Atlético pode se preparar para possíveis represálias no mês que vem, quando serão realizados os dois confrontos entre os alvinegros e o River Plate, pelas quartas-de-final. Possivelmente, o time brasileiro será recebido de forma nada amistosa, acirrando ainda mais uma velha e ultrapassada rivalidade entre os dois países vizinhos. Que possíveis ameaças não interfiram no resultado dentro de campo e que a comissão técnica do Atlético aproveite esses vinte dias que terá pela frente para melhorar o time. Porque senão o atleticano terá que renovar o seu plano de saúde. Porque haja coração para aguentar tamanho sofrimento.

 

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Crédito –www.uol.com.br