Contra-Ataque: A várzea em sua versão mais fiel

Sérgio Monteiro

 

A várzea em sua versão mais fiel

 

O show de horrores a que assistimos na tarde de domingo é daqueles que comprovam a nossa involução diante de outros povos. Independente da questão desportiva, podem dar as mãos a AFA, a CBF, a Conmebol, a FIFA, a Anvisa e a Polícia Federal, pois se o objetivo não era protagonizar uma comédia-pastelão, ele não foi cumprido. E o que é pior: não acabou ali. Novos capítulos dessa trama ainda estão por vir e provavelmente o desfecho será tão chinfrim que não ameaça o reinado dos Trapalhões quando o legal é ser escrachado. Como nenhuma dessas entidades tem ligação com a indústria cinematográfica, só posso chegar a uma conclusão: não era cena e sim a incompetência em sua forma mais crua.

Como a rivalidade acompanha um duelo entre Brasil e Argentina do início ao fim, brasileiros apontam os ‘hermanos’ como os únicos responsáveis pelas trapalhadas da tarde de domingo. E argentinos, obviamente, acusam as autoridades brasileiras de oferecerem ao mundo um papelão sem precedentes. Mas a discussão deve transcender a essa rivalidade e deveríamos ao menos tentar aprender com tamanha inaptidão.

Ainda que os quatro argentinos da delegação tenham infringido a lei brasileira – e tenham que pagar por isso – o episódio de Itaquera escancara ao mundo a nossa fragilidade diante de uma pandemia de consequências tão cruéis. Aliás, fragilidade é um elogio em respeito àqueles que me leem, porque em uma conversa informal eu batizaria esse “filme” com outro nome. Será que ninguém na Anvisa, na Polícia Federal ou em qualquer outro órgão brasileiro “competente” (também me atrevo a fazer rir) quando o assunto é a pandemia assiste ao Campeonato Inglês? Passa na TV brasileira a semana inteira.

Desde a convocação da seleção argentina para as três rodadas das eliminatórias, já era para as nossas autoridades estarem de olhos bem abertos em relação à entrada desses atletas em terras brasileiras. Afinal de contas, eles não chegaram sem avisar. Todos sabiam o dia e a hora que desembarcariam no Brasil com bastante antecedência e nesse caso o preenchimento do formulário deveria ser o que menos importa para que ações fossem tomadas na própria sexta-feira, ainda no aeroporto. Se a lei não permite a entrada de viajantes com passagens pelo Reino Unido no Brasil, ela deve ser cumprida. Seria legal se tivéssemos autoridades para fazerem cumprir.

Ou então que fosse liberada a entrada, mas com a quarentena dentro do hotel. E não foi no domingo a primeira vez que eles saíram de lá. Também não foi surpresa alguma a ida deles para o estádio no dia do jogo. Saíram no sábado para o treino e o mundo inteiro ficou sabendo, inclusive o pessoal da Anvisa. Porque não agiram ali, evitando escancarar ao mundo a nossa dificuldade em lidar com essa pandemia? A sensação que dá é que as autoridades brasileiras quiseram se apropriar do holofote e da plateia que um Brasil x Argentina oferece. Mas o tiro foi no pé. Não precisamos dar mais exemplos do quanto deixamos a desejar nesse sentido. O próprio presidente faz isso sozinho, o tempo todo.

Esse Brasil x Argentina deve envergonhar a todos nós, independente da rivalidade

Vale ressaltar que a nossa lei é uma piada, o que também não deve assustar ninguém. Gringos vindos do Reino Unido não podem entrar no Brasil ou têm que fazer o isolamento em um hotel (sem fiscalização alguma, diga-se de passagem). Mas brasileiros que estiveram por lá têm trânsito livre. Para ficar no exemplo do futebol, Andreas Pereira chegou, foi apresentado, estreou e até já marcou gol com a camisa do Flamengo. Jogava no Manchester, da Inglaterra. Willian, novo reforço do Corinthians, ainda não foi a campo, mas já deu entrevista, treinou e está circulando por aí. Jogava no Arsenal, também da Inglaterra. Com quase 600 mil mortes, será mesmo que ainda tem gente que pensa que brasileiro não transmite COVID?

Mas tudo bem. A legislação é essa e deve ser cumprida. Os argentinos têm que pagar pelo crime cometido e isso é indiscutível. Ninguém pode chegar aqui desrespeitando as nossas regras à revelia. Nem mesmo nós, brasileiros. A lei deveria ser para todos, inclusive para quem mandato eletivo. Aqui não é a casa da mãe Joana, embora seja difícil convencer a um gringo disso. Exatamente pelas sucessivas trapalhadas que exportamos diariamente desde o início da pandemia.