• 18ºC
    Barbacena, MG Previsão completa
  • Contra-Ataque: A Copa do medo, do risco e da negligência

    Sérgio Monteiro

    A Copa do medo, do risco e da negligência

     

    Há pouco mais de uma semana de seu início, a Copa América ainda é uma incerteza. O anúncio do Brasil como país sede, após as recusas de Argentina e Colômbia, que iriam receber a competição, causou um alvoroço em todo o país e tem provocado manifestações contrárias até mesmo entre jogadores das seleções sul-americanas envolvidas na disputa. O incômodo é em relação aos índices de contaminação e óbito causados pela Covid-19, que continuam altos no país.

    Péssimo exemplo no combate à pandemia, o governo brasileiro mais uma vez opta pelo “e daí?” e não dá ouvidos à opinião pública. Pior do que isso: dá mais uma prova de que o que menos importa, nessa pandemia, são as vidas perdidas, que já somam mais de 470 mil. Os números da doença no país e os riscos que a competição traz na bagagem são ignorados em Brasília e na sede da Conmebol e o discurso oficial é de que haverá sim a disputa, doa a quem doer.

    Na contramão dos países que sediariam o evento – a Colômbia abriu mão por causa de seguidas manifestações populares contra o atual governo e a Argentina se esquivou em virtude dos altos números da Covid-19 no país e por temer uma provável terceira onda – o Brasil praticamente caiu do céu para a Conmebol ao aceitar ser o palco dos jogos e do medo. Não por acaso: irresponsabilidade, incompetência e insensibilidade unem nosso governo e a direção da entidade máxima do futebol sul-americano.

    Alguém há de levantar a mão e questionar porque a Eurocopa, que acontece no mesmo período, não é alvo de tantas manifestações contrárias. Não custa lembrar que nos principais países europeus houve, de fato, lockdown. Esse abre e fecha que o Brasil protagoniza, sem critérios, sem fiscalização e sem respeito ao povo, passa longe de ser um lockdown. Não é difícil entender que por lá, a vacinação está em um estágio bem mais avançado. E vale lembrar que o resultado disso é que já tem até público nos estádios.

    Enquanto o Brasil perde tempo e se mostra ineficaz no combate ao vírus, em vários países mundo afora a pandemia foi tratada com a seriedade necessária. E-mails ofertando vacinas foram respondidos a tempo, medidas de combate e prevenção foram tomadas de fato e exemplos de respeito à saúde e à dor do próximo dados por líderes nacionais.

    Fato é que a Copa América está marcada para acontecer em território nacional entre os dias 13 de junho e 10 de julho. Independente de vacinação, de terceira onda ou de novas variantes. Aliás, independente de pandemia, um assunto que é levado a sério bem longe daqui. Independente da aceitação popular.

    A única coisa que pode ameaçar a competição é a recusa das próprias seleções em disputá-la, algo que vem sendo discutido nos últimos dias. Jogadores de grandes seleções, como Argentina e Uruguai, já se posicionaram e ameaçam não vir ao Brasil para os jogos. E a própria seleção brasileira já se movimenta no sentido de boicotar a competição, mesmo contrariando a cartolagem brasileira.

    Novos capítulos virão e é esperado um anúncio oficial de Tite e seus comandados após a sexta rodada das Eliminatórias, na próxima terça-feira. O jogo de braços é acirrado, mas treinador e jogadores brasileiros parecem certos de seu posicionamento e irredutíveis em sua decisão. Que o Brasil consiga mostrar ao mundo, ainda que por linhas tortas, que ainda há seriedade e respeito com a vida alheia.

    Imagem Crédito – Nathalia Angarita / Reuters