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Confissões de um cão enfermo

A crônica de Francisco Santana

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Santana, convivemos juntos há 15 anos. Nesse período, você falava e eu ouvia. Meus latidos de atenção e minhas chamadas para brincadeiras chateavam você. Você sempre reclamava falta de tempo e eu juro que era falta de paciência comigo. Vamos hoje praticar a escutatória: eu falo e você escuta.

Há meses você se assustou ao acariciar meu pescoço e perceber um caroço alojado na região. Da carícia ao aperto até doer. Lati e fui coçar meus olhos porque as lágrimas que rolaram dos seus caíram sobre os meus. Eu sei o que você pensou nesse momento, a morte de sua irmã há pouco tempo que começou também com o aparecimento de um pequeno caroço.

O ato ficou em sigilo até minha dona, Carol, também perceber. Notei apreensão de todos na casa e comentários foram feitos. Fui levado à veterinária para exames e o resultado da biópsia foi o que todos esperavam: câncer linfático. Mesmo velho, sem dentes, surdo, patela fora do lugar e cansado, senti um ambiente triste, parecido com velório e pensei nos semblantes tristes e as atenções comigo foram redobradas. O diagnóstico o ruiu e você quase se sucumbiu, amigo Santana.

Agradeço sua confiança por confiar em mim ouvindo suas confissões. Encantava-me assentar no seu colo e participar de muitos diálogos. Se seu povo soubesse quantas lágrimas rolaram, eles ficariam preocupados. Aliás, você deveria ter estudado Artes Cênicas por ser um virtuoso na arte de interpretar. Pela manhã ao ver-me, você chora até seus olhos ficarem vermelhos e úmidos. Na mesa do café você fala que dormiu mal e pede alguém para colocar o colírio nos seus olhos. Bela interpretação! Você consegue com isso ludibriar todos que acreditam na sua encenação. Santana, todos nós choramos ou por tristeza ou por alegria e você não precisa esconder esse sentimento.  Desde a descoberta da minha doença, vi você chorar todos os dias como está fazendo agora. Chorão! Boca aberta!

Amigo Santana, imagina só comer ração por 15 anos! Graças a você conheci frutas, doces, biscoitos, pães variados, pizza, chocolate, tortas, comida vegana, cereais, gelatina, queijo e muitas outras. Não deixe que falem que foram esses tipos de comida que causaram o meu mal. Você me alimentava perto dos familiares de uma maneira tão sutil que eles não percebiam. Você é o cara. Obrigado de coração.

Fico indignado quando alguém pergunta a minha idade. O problema é meu e o que eles têm com isso? As respostas são sempre as mesmas: “Coitado, está velhinho!”. Se eu tivesse dentes eu lhes morderia o calcanhar e se eles pudessem ouvir, ouviriam o meu pensamento dizer: “Velhinho é você, linguarudo!”. Santana, você precisa fazer uma análise para trabalhar sobre o preconceito. Quando cheguei à sua casa, você riu e criticou a minha cor champagne. Lembra? Dizia que o outro cachorro, Lino, era mais bonito e me apelidou de Sivuca. Gratidão pelo brilhantismo do nome. Você se esqueceu que já fui premiado num desfile em Juiz de Fora pela raridade da cor da minha pelagem.

Sempre agradeci a você por me tratar como ser humano embora, eu preferisse ser tratado com um animal irracional. Percebo que esses valores entre vocês, humanos, estão trocados. Por favor, diga ao seu cunhado, Francisco, e sua nora, Simone, que em breve eles poderão entrar na sua casa sem temer o meu latido e a minha mordida. Para aquele profissional que “faz tudo” e reclamou do meu odor desagradável, diga a ele que quem cheira mal e a %&#@ da esposa dele. E para aquele carteiro que reclamou do meu latido e prometeu me dar pontapés até me matar, deixe-o tranquilo, não lhe diga nada, pois, fiquei sabendo que o álcool o está matando. Beberrão sem vergonha!

Quando eu morrer, minha foto vai aparecer nas redes sociais e comentários vão aparecer de montão. Eu lhe peço encarecidamente que não aceite aquela frase morfética: “O Léo se transformou numa estrelinha”. Prefiro o termo lembrança. Estrelas aparecem somente à noite e lembrança pela manhã, tarde e noite. Quem disser que me transformei numa estrela, será assombrado.

Santana, estou me alongando muito, vou terminar esse depoimento para evitar o seu derramamento de lágrimas. Agradeço sua atenção, carinho, broncas, lições e amor dispensados a mim. Agradeço à minha grande paixão que é a Ana Carolina porque foi ela durante todos esses anos a grande razão da minha existência. Eu sei que ela daria sua vida para me ver curado e saudável. Eu diria que gosto de você, Santana, e amo a Ana Carolina. Agradeço à Catarina que custeou minha alimentação, medicamentos e peço a ela desculpas por ter urinado todos os dias no seu fogão e na sua geladeira. Agradeço os veterinários Felipe e Gaby que foram pais para mim e toda a sua equipe de trabalho.

Agora é esperar o momento da minha partida. Estou triste por não ter mais suas presenças físicas. Estou triste por não mais compartilhar momentos de alegrias com vocês. Sobre o meu possível sofrimento, deixo em suas mãos humanas a prática da eutanásia. Eu sou terminantemente contra esse ato por saber que o meu sofrimento é fruto de saneamento espiritual. Salve Kardec, você me ensinou a gostar dele. Se tiverem que guardar algo meu, que seja na memória. Os meus bens servirão para outros irmãos da raça. Até quando, não sei. Tudo valeu! Que Deus me dê mais tempo de vida para ficar com vocês porque quem está chorando agora sou eu.

“Glorioso São Francisco, meu amado animal de estimação e companheiro Léo ficou doente. Eu estou intercedendo em seu nome, a implorar a sua assistência para nós neste momento de necessidade. Eu humildemente peço que eu possa ser tão bom e um guia para meu animal de estimação como tem sido com todos. Que a sua bênção vai curar meu companheiro adorável e dar-lhe muitos mais dias maravilhosos que podemos passar juntos. Que possamos ser abençoados e curados como parte de sua criação amorosa. Confio e acredito no seu grandioso amor!
Amém!”

1 comentário
  1. Ana Cristina Diz

    Você merece! Parece meu bebê Isadora falando…. Amo!!! Deus te abençoe e te cure!!! Comer ração não é de Deus! Prove tudo! Brinque com os tutores, viaje com eles, curta muito…ainda dá tempo!!!!

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