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Como um peixe fora d água

A crônica de Francisco Santana

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Indicaram-me um salão de cabeleireiro definido como “top de linha”. Os elogios me entusiasmaram. Marquei uma visita para terça-feira às 9h30. Cheguei lá ressabiado e percebi uma clientela muitíssimo jovem, assim como os dois profissionais. Um estava ocupado, o outro a espera de alguém e tinha um rapaz grudado literalmente no celular. Cumprimentei a todos com um efusivo “bom dia” para quebrar a timidez. Menos o rapaz do celular, todos retribuíram a minha saudação. Eu me apresentei e o cabeleireiro de nome Edward me disse:

– Seja bem vindo véi! De boa?

Quase lhe respondi: vei é seu pai. Começou aí a minha história. Estendi a mão para cumprimentá-lo. Ele retribuiu o gesto à sua maneira, mão espalmada, gesto que imitei, toques com os dedos, punhos cerrados novo toque e, graças a Deus acabou. Ele me deu uma aula como ficaria melhor o corte para minha cabeça e para minha idade. Muita sabedoria. Incrível!

Enquanto uma minúscula tesoura trabalhava sobre minha cabeça fazendo os cabelos caírem pelo chão, os outros três, porque o quarto não largava o celular, conversavam sobre um assunto que não entendi nada. Os termos eram conhecidos, mas o significado não. Eu estava diante de um novo idioma ou dialeto ou gíria. Tentei entender, mas só captei a mensagem.

– O senhor prefere ser chamado de Santana ou de Francisco?

– O Santana tem a preferência. E ele ignorou tudo me chamou de véi o tempo todo. Para que perguntou o meu nome?

– Véi, o senhor aceita uma cerva? Um refri? Um suquin? Um café? Uma balinha?

O que ele não imaginava é que eu odeio as expressões, cerva, refri e suquin. De repente, gritos de euforia se fizeram ouvir. Era do menino do celular, que não se desgrudava dele.

– Consegui! Consegui! Consegui! Cheguei ao quarto estágio!

Todos pararam o que estavam fazendo para ovacioná-lo.  Fiquei na minha sem saber de nada do que estava acontecendo. Ele foi cumprimentado e chamado de vei, brother, mano, PhD e de outras qualidades. Compreendi o que se passou nas entrelinhas. O rapaz participava de um jogo virtual onde raramente alguém consegue chegar ao quarto estágio. Para isso precisava de sagacidade, inteligência, conhecimento de quase tudo e jogar com sabedoria.

– Dizem que quem chega ao quarto estágio já tem sabedoria suficiente para galgar o quinto e último patamar. Tenta véi que você vai conseguir. Persevera que você chegará ao sucesso. O senhor não quer mesmo uma cerva, um refri, um suquin, uma balinha?

– Não! Agradeço a gentileza, estou com um pouco de pressa. E agora o papo era entre os dois profissionais e o outro freguês, isso porque eu estava calado e o outro com os olhos grudados na tela do celular.

– Você tem “notícias” do Hudson?

– Ele continua preso no Centro de Remanejamento do Sistema Prisional- CERESP em Juiz de Fora e por ser boa pinta os detentos querem transformá-lo numa “boneca”. Não vai ser fácil fazer isso para quem é faixa preta e praticante de artes marciais. Se quiserem pegá-lo mano, terão que anestesiá-lo.

Um novo grito se fez ouvir. O brother ou véi do celular chegara ao quinto e último estágio do jogo. Novamente festejado ele foi chamado de irado, killer e sinistro. Finalmente de cabelo cortado maravilhosamente bem e lavado, cheguei ao final dessa aula de comunicação. Não importam as palavras, os gestos e as mímicas, o importante é se fazer entender. Nos sessenta minutos que estive naquele local aprendi mais essa arte e anotei alguns termos utilizados nessa comunicação estranha, mas compreensível.

Cumprimentei a todos, recebi os votos de um “volte sempre” e os cumprimentos do profissional. Como eu já sabia, espalmei a mão, bati nos dedos dele, cerrei o punho, toquei no seu e dessa vez eu não esperava que ele viesse e tocasse ombro direito com ombro direito e ombro esquerdo com ombro esquerdo. Quase falei: “Saravá meu pai!”.


Glossário:

Nojo = auto elogio                                         Vem de zap = pedir contado de whatsApp

Crush = paquera                                            Top = estar no topo, acima

Dar um role = passear, sair                            Pipoco = tiro

Mocréia, baranga, bagulho = mulher feia      Bater um fio = telefonar

Antenado = ligado, atento                            Pagar mico = passar vexame

Mala = pessoa chata                                      Ficar = namoro de um encontro apenas

Busão = ônibus                                              De boa + tudo bem, tranquilo

Pagar calcinha = quando alguma mulher, intencionalmente ou não, deixa a calcinha amostra ou por algum imprevisto.

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