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  • Clube da Esquina e uma reparação histórica

    Por Francisco Fernandes Ladeira 

    Recentemente, o álbum “Clube da Esquina” –  gravado em 1972 por um grupo de músicos mineiros liderados por Milton Nascimento e Lô Borges – foi eleito o “melhor disco brasileiro de todos os tempos”. A escolha foi realizada por 162 especialistas em música consultados pelo podcast “Discoteca Básica”. 

    Evidentemente, este tipo de lista é passível de questionamentos, afinal de contas, como diz o senso comum: gosto cada um tem o seu. No entanto, a seleção feita sob encomenda do “Discoteca Básica” (que será utilizada como referência para um livro sobre música brasileira) levou em conta critérios técnicos e não pessoais. Portanto, tem bastante credibilidade. 

    O álbum “Clube da Esquina” inaugurou o movimento homônimo que marcou definitivamente a identidade mineira, a partir de uma musicalidade que envolvia do Barroco aos Beatles. Trata-se da trilha sonora do estado. Cada música do Clube da Esquina (não só do disco, como também do movimento como um todo) remete às paisagens alterosas, principalmente, ao que conhecemos como “montanhas de Minas”. Não por acaso, artistas mineiros de diferentes tendências, como o Skank, em algum momento de suas trajetórias, gravaram algo que remetesse ao Clube da Esquina.  

    Por falar em Minas Gerais, de acordo com os estereótipos regionais brasileiros, a imagem de seu gentílico remete a um indivíduo retraído; diferentemente, por exemplo, do “expansivo” carioca. Apesar de estereótipos terem como base visões pré-concebidas e não a realidade concreta, é fato que o Clube da Esquina, durante um bom tempo, permaneceu “retraído”, de alguma forma, às fronteiras de Minas Gerais (exceção feita a Milton Nascimento). Já o guitarrista Toninho Horta, um dos principais responsáveis pelas harmonias inconfundíveis do Clube da Esquina, curiosamente, é mais conhecido no Japão do que em seu próprio país. 

    Para Flávio Venturini, fundador da banda 14 Bis, há uma explicação para essa relativa restrição do Clube da Esquina às fronteiras mineiras. Na década de 70, os principais veículos de imprensa brasileiros privilegiaram a Tropicália, e alguns outros poucos movimentos musicais, em detrimento do Clube da Esquina. Assim, desde aquela época (ou até mesmo antes), os responsáveis pelo mainstream musical de nosso país têm a (nefasta) prática de colocar poucos estilos em evidência para o grande público; não contemplando, portanto, a diversidade rítmica e harmônica do Brasil. 

    Esse desconhecimento do Clube da Esquina em outros estados não mudaria nas décadas seguintes. Em entrevista para a extinta revista Bizz, no ano de 1996, o guitarrista da Legião Urbana, Dado Villa-Lobos, afirmou que “acabara de descobrir o Clube da Esquina, um álbum incrível”. Três anos depois, a Rede Globo organizou um programa com as “melhores músicas brasileiras do século XX”. Nenhuma canção do Clube da Esquina apareceu na lista. 

    Todavia, recorrendo a mais um estereótipo, nos últimos anos, o Clube da Esquina, como todo bom mineiro, “foi comendo pelas beiradas”. Após a popularização da internet (com os tradicionais veículos de imprensa perdendo o monopólio de “apresentar” bandas e cantores para o público amplo), cada vez mais pessoas (no Brasil e no mundo) passaram a ter contato com as músicas do Clube da Esquina. Na grande maioria dos casos, como se percebe em comentários nas redes sociais, as reações são positivas. 

    Desse modo, a escolha do álbum Clube da Esquina como “melhor disco brasileiro de todos os tempos” simboliza bem esse processo de descobrimento da música mineira por indivíduos de diferentes gerações e lugares. Uma reparação histórica a uma obra que não foi devidamente valorizada durante décadas (coincidentemente no ano de seu cinquentenário). Em outros termos, parafraseando o lema da bandeira de Minas Gerais, um reconhecimento merecido, ainda que tardio. Felizmente, Milton Nascimento, Lô Borges e companhia estão vivenciando este momento.

    NOTA DA REDAÇÃO – Francisco Fernandes Ladeira é doutorando em Geografia pela Unicamp. Autor de doze livros

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