Céu, umbral e inferno

A crônica de Francisco Santana

Minha família era pequena. Meu pai, João Pedro, minha mãe, Maria José e os filhos: Guiomar, Antônio, Maria, Anélia, Aparecida, José, Francisco e Sônia. Restam apenas o Francisco e o José. Os demais se transformaram em saudade. Reconheço que fui uma criança muito arteira, questionador e curioso. Não era fácil eles me convencerem. Minha mãe chegou a dizer que eu era um caso perdido e que me bater e castigar não traria soluções para o meu caso. Para os meus irmãos eu era um menino encapetado. Eu considerava os tratamentos absurdos, mas diante de seus argumentos a minha defesa era fraca. Como convencimento minha irmã me perguntava: “Quem é o filho que mais apanhou? Quem é o filho que mais foi castigado?”. Resposta justa e perfeita: eu!

Minha mãe mal escrevia e mal lia, mas era de uma inteligência supina. Era gratificante vê-la nos educar declinando o seu vasto repertório proverbiais. Às vezes alguns fugiam ao meu entendimento e eu lhe perguntava: “O que a senhora quer dizer com isso?”. Como não adiantava me bater e me castigar ela fez uso de sua inteligência descobrindo o meu grande pavor pela morte, ir para o inferno, ser queimado e sentir o garfo do diabo fincar meu corpo. Com astúcia ela aprendeu a me controlar usando duas expressões: pecado venial e pecado mortal. O pavor do assunto me colocou em suas mãos.

Bastava eu falar um palavrão vinha ela me dizer que eu cometera um pecado venial. Se eu a contrariava ela dizia que eu cometera um pecado mortal. Para me amedrontar ainda mais, ela dizia que os pecados cometidos ficavam grudados no coração. Eles só saíam dali com um trabalho de consciência, orações, pedido de perdão e confissão com um padre. Eu perguntei a ela o que era o pecado venial e o pecado mortal. Afinal eu precisava saber para evitá-los. Ela me disse que o pecado venial era um pecado leve, brando como: mentir, falar palavrões e que eu poderia retirá-lo da minha consciência praticando alguma penitência ou confessá-lo a um padre e que se eu acumulasse esses pecados eles poderiam se transformar em pecados mortais. O pecado mortal na sua concepção era desobedecer a Lei dos Dez Mandamentos. Eu tive que decorá-los para obter a tão sonhada paz e harmonia entre corpo e alma.

Eu me lembrei de um ditado que ela usava em demasia: “Uma pessoa inteligente resolve um problema, um sábio o previne”. Eu nunca a ouvi falar sobre o escritor Dante Alighieri e tampouco de sua obra “A Divina comédia”, mas me lembro de histórias contadas por ela parecidas com o Inferno de Dante. Principalmente no que tange as profundezas do inferno que quando mais fundo se vai, piores são os castigos onde os mortos eram atormentados por muitos demônios.

Hoje, mais velho e experiente, relembro esses fatos e vejo o Papa Francisco revisar conceitos da Igreja e falar abertamente sobre o Céu, Inferno e Purgatório. Que alívio! Seguindo uma vertente após a morte incomoda-me também o Umbral, objeto tratado pela Doutrina Espírita. O que é o Umbral?

“O Umbral funciona como região destinada a esgotamento de resíduos mentais; uma espécie de zona purgatorial, onde se queima o material deteriorado das ilusões que a criatura adquiriu por quando estava em vida. Concentra-se, aí, tudo o que não tem finalidade para a vida superior como a vingança, ódio, inveja, rancor, raiva, orgulho, soberba, vaidade, ciúme, etc. O espírito impregnado com esses sentimentos se encontra intoxicado. Todas as pessoas se atraem por afinidades e semelhanças. Isto acontece na Terra e no mundo espiritual. Desta forma todas as pessoas com sede de vingança e ódio acabam se atraindo para localizações comuns do outro lado da vida, é justamente o que ocorre no Umbral. É a junção de tantas mentes doentias num mesmo espaço e a força dessas mentes acabam construindo todo o ambiente. Fica fácil perceber que um local repleto de pessoas emocionalmente desequilibradas que estão unidas pelo pensamento não é um local bonito e agradável”.

Em homenagem à minha Mãe:

A bondade em palavras cria confiança. A bondade em pensamento cria profundidade. A bondade em dádiva cria amor. (Lao Tsé).

 

(Fonte: Site O Estudante Espírita/ Vidaaposamorte.comunidades.net).

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