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Castigo e tortura

A crônica de Francisco Santana

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Quando criança eu era tido pelos irmãos como chorão, revoltado, rebelde sem causa determinada, respondão com tendências aos conceitos de demoníaco, endiabrado e pirracento. Por estas qualidades eu fui o mais castigado numa casa de oito irmãos.  É como dizia minha mãe: “O Chico não é flor que se cheira”. Apanhei demais e ao pensar, ainda sinto dores na carne cheia de calombos das tamancadas, varadas de marmelo e palmadas. Meu pai nunca bateu nos filhos, ele nos educava com o olhar.

 

Minha mãe tinha em mente um lema: “castigar sempre diante de um mau comportamento”. Agindo assim ela impunha limites, disciplina, desenvolvimento moral, educação e formação de cidadãos bons e justos.  “Educar não é uma tarefa simples. Requer trabalho e paciência por parte dos pais. Cabe a eles ensinarem as regras e os limites do convívio social, com calma e segurança.” (Site Guia do bebê).

Ela sempre justificava as surras dadas, sobre o que eu tinha feito de errado, cuja repreensão era para o meu bem e que no futuro eu iria agradecê-la. Obrigado, mãe! Às vezes eu me tornava surdo e cego diante dos seus ensinamentos. Os castigos eram justos? Eu sempre dizia que não e hoje mudei de ideia e digo que sim. Na época não se poderia dar asas às mentes revoltadas como a minha.

Isso seria castigo ou tortura? O que difere os dois? Castigo é uma sanção usada para reprimir uma conduta considerada incorreta. Ele pode ter caráter educativo e disciplinar. No caso das crianças e jovens os castigos se dividem em corporais, restritivos e impositivos. A tortura foi definida pela Associação Médica Mundial, em assembleia realizada em Tóquio em 10.10.75 como: “A imposição deliberada, sistemática e desconsiderada de sofrimento físico ou mental por parte de uma ou mais pessoas, atuando por conta própria ou seguindo ordens de qualquer tipo de poder, com o fim de forçar outra pessoa a dar informações, confessar ou por outra razão qualquer”. Amigo leitor tire sua conclusão.  

Os castigos de hoje estão mais brandos, suaves e sem dores físicas. Eles fazem doer a consciência. Proibir o uso do celular é uma prática muito utilizada. Há um fazendo sucesso no mundo inteiro, sendo copiado e modificado por milhões de pais. Cada um o adéqua à sua melhor maneira de agir com os filhos. Conheço um pai que estipulou a mesada da filha adolescente em 100,00 e listou várias tarefas a serem cumpridas, para ter direito ao valor estipulado. Cada tarefa tinha um valor proporcional. Não a cumprindo não ganha. Como exemplo: fazer o para casa, 15,00, deixar de fazê-lo a multa é aplicada. O saldo varia de acordo com o cumprimento das tarefas.

Quando se fala em castigo me vêem à mente um inusitado, hilário e constrangedor ocorrido na casa primo José Teodoro residente na cidade de São João Del Rei onde passávamos as férias escolares duas vezes por ano. Ele era casado com Maria e pai de cinco filhos, quatro homens e uma mulher. Nos finais de semana seu lazer era ler jornal para se atualizar. O seu informativo favorito era “O Globo” por ter mais credibilidade, dizia ele. Num final de semana fomos visitá-lo. A gente conversava de tudo um pouco, mas o assunto principal era sobre a família. De repente ele nos pediu licença para conversar com os filhos.  

– Geraldo! Oh Geraldo! Vá à banca de revistas e compre para mim “O Globo”! Toma aqui o dinheiro”.

  • Ah pai! Peça ao Pedro! Na semana passada fui eu quem buscou. O senhor se lembra?
  • Isso mesmo!  Pedro, agora é a sua vez então.
  • Ah pai! Estou estudando, tenho prova amanhã no colégio. Peça ao Rodrigo para buscar para o senhor!
  • Estuda mesmo meu filho. Rodrigo venha cá, busque para mim na banca “O Globo”. Um pé lá e outro cá!
  • Ah pai! Tudo eu! Tudo eu! Tudo eu! O Gustavo não faz nada nessa casa, até parece que o senhor e a mãe gostam mais dele que dos outros filhos!
  • Que injustiça meu filho! Eu gosto de todos vocês com a mesma intensidade tanto que eu quero a presença de todos aqui agora.
  • Aqui estamos pai. O que o senhor quer com a gente?
  • Gustavo, Geraldo, Pedro e Rodrigo, aqui está o dinheiro. Eu quero que todos vocês vão à banca de revistas lá do centro e me tragam “O Globo”, sem reclamações, brigas e choros. E prestem bem a atenção no que vou lhes falar! Vou falar apenas uma vez e quero ser bem entendido. Vocês vão buscar o jornal e entregá-lo a mim da seguinte maneira: cada um segurando numa ponta, de caras alegres e na frente dos seus primos de Barbacena. Entenderam?

 

E lá se foram os quatro filhos cumprirem a missão. Em pouco mais de vinte minutos Geraldo, Pedro, Rodrigo e Gustavo chegaram com o jornal, cada um segurando numa ponta e o entregaram ao pai. Estavam todos sorridentes, alegres e esbanjando felicidades.  Será que estavam mesmo?

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