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    Barbacena, MG Previsão completa
  • Bem que se quis… o que a gente não faz por amor

    A crônica de Francisco Santana

    Você já fez alguma cena por amor? Frejat disse o seguinte: Por você eu dançaria tango no teto
    Eu limparia os trilhos do metrô/Eu iria a pé do Rio a Salvador/Eu aceitaria a vida como ela é/Viajaria a prazo pro inferno/Eu tomaria banho gelado no inverno/Por você eu deixaria de beber/Por você eu ficaria rico num mês/Eu dormiria de meia pra virar burguês/Eu mudaria até o meu nome/Eu viveria em greve de fome/Desejaria todo o dia a mesma mulher”.

    – Santana, imagine você, saí de Barbacena/MG e fui a Maringá/PR para conhecer a Margareth, meu grande amor virtual. Nós nos conhecemos num site de bate papos há aproximados oito meses. Foi uma paixão avassaladora. Ela era uma mulher diferenciada pela inteligência, cabeça pensante e mente brilhante.  A cada diálogo aumentava a minha afeição e a vontade iminente de estar ao seu lado. Margareth era linda e me deixava extasiado diante das fotos enviadas pelas redes sociais. Ela me fascinava tanto que me senti um adolescente.  A viagem foi uma surpresa. Lá chegando, me hospedei num hotel pertinho de seu apartamento e frequentei um restaurante onde eu a tocaiava. 

    A expectativa durou pouco até vê-la saindo do prédio, linda, majestosa elegante. Meu coração disparou de emoção. Fiquei a imaginar como eu ficaria diante dos seus olhos e braços. Pensei mil coisas ao mesmo tempo. Surpreendeu-me o aparecimento de um jovem elegante que saiu do imóvel indo ao seu encontro. Os dois sorriram, trocaram palavras e se beijaram. Fiquei ensandecido e tomado pelo ciúme. Eles entraram num carro e sumiram. Voltei para o hotel e à noite liguei para ela que me atendeu com sua habitual simpatia. Contei a ela todo o ocorrido desde a viagem surpresa até o flagra de vê-la beijando um homem. Muito irado lhe perguntei se aquele jovem era seu namorado. Ela me respondeu: “Namorado não, aquele homem que estava na minha companhia se chama Wagner, meu esposo. Ainda enraivecido sem demonstrar perguntei o porquê dela ter me escondido o seu estado civil. Ela me respondeu: “Não escondi nada, se eu nunca lhe disse é porque você nunca me perguntou”. Ela é uma traidora, uma sirigaita que brincou com meus sentimentos.

    – Raul, que irritação boba, a vida continua. Coloque na cabeça que o seu ciclo com ela terminou, se é que terminou mesmo. Pare de colocar defeitos nela. Você se esqueceu de um detalhe muito importante escondido por trás dessa raiva. Se não me engano você também é casado, aliás, muito bem casado e pai de um casal de filhos. Se ela não lhe disse que era casada, você também não disse a ela que era casado. 

    – Tudo bem Santana, como iria dizer a ela que era casado se ela nunca me perguntou! 

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    A esposa do Luiz Augusto estava aniversariando. Para surpreendê-la, ele alugou um carro de mensagens ao vivo. Esse tipo de surpresa é capaz de dar calafrios – de emoção ou de vergonha. Tudo estava em sigilo. No domingo, às 12h, chegou o carro vermelho todo enfeitado de balões coloridos, tocando uma música do Zezé de Camargo e Luciano É o amor/Que mexe com minha cabeça e me deixa assim/Que faz eu pensar em você e esquecer de mim/Que faz eu esquecer que a vida é feita pra viver”. E o comunicador dizia com voz possante: “Aguenta coração!” O carro estacionou em frente à casa da Sueli, esposa do Luiz Augusto para curiosidade dela, dos seus pais, irmãos e vizinhos. Convocada para sair de casa, Sueli se deparou com o comunicador ao lado de seu marido. Ao abrir a porta, ela estava vermelha de ódio e toda trêmula. Atrás dela vieram seus pais e irmãos. Todos com cara de quem vira assombração. 

    Ainda não satisfeito, o comunicador convocou os vizinhos para se juntarem a eles para aquela homenagem singela, romântica e merecida. Muitos saíram de suas casas batendo palmas e gritando: Sueli! Sueli! Sueli! A coitada não sabia onde enfiava a cara. O comunicador passou o microfone ao Luiz Augusto para ler uma mensagem escrita por ele. Com a voz trêmula sufocada pela emoção ele declarou seu amor a ela, chorando no final. Ela foi presenteada com flores e um Smart Tv 52 polegadas Samsung. Timidamente ela sorriu e se conseguiu ler nos seus olhos: “Quando essa papagaiada terminar eu juro que vou matar você, Luiz Augusto”. A efeméride terminou com mais gritos de Viva Sueli e um coro entoou os “parabéns a você”. Luiz Augusto entrou em casa e viu os semblantes ameaçadores dos parentes e da Sueli que lhe disse: “Eu só não peço o divórcio porque não quero criar nosso filho que vai nascer, sozinha. Eu só lhe digo uma coisa: Essa vergonha que você me fez passar, vai ter troco com juros e correção monetária. Você não perde por esperar”.

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    Sérgio ama Luísa e Luísa ama Sérgio. Ambos formam um belo casal. Talvez a religiosidade seja o alicerce que os mantém leais aos propósitos do matrimônio. Como nos casamentos perfeitos, ou quase perfeitos, há discussões que nem sempre são apaziguadas em diálogos respeitosos. Após uma discussão mais acalorada, Luísa ficou sem conversar com Sérgio vários dias. Ele a procurava e ela o rechaçava. Na rua, Sérgio se encontrou com o padre Juvenal Rocha da paróquia do bairro, que também era o seu confidente e ficou sabendo da desavença do casal. O Padre Juvenal pediu-lhe que fosse à missa do domingo às 10h e que levasse a esposa. Foi o que aconteceu. No altar, estavam duas cadeiras e o padre, antes do início da santa missa convidou o casal para se dirigirem ao altar e se assentassem naquelas cadeiras colocadas ali estrategicamente para homenageá-los Luísa, muito tímida e emocionada tropeçou no liso, quase caiu sob risos dos fieis presentes. Na homilia, o padre improvisou a preleção discursando sobre o amor e as desavenças entre casais citando o caso de Sérgio e Luísa que estavam passando por momentos turbulentos no casamento. 

    Terminada a homilia, Padre Juvenal Rocha chamou o casal para perto de si e os pediu que se abraçassem e se beijassem. Timidamente, eles obedeceram. Além disso, ele pediu-lhes que jurassem perante Deus e as testemunhas presentes que nunca mais brigariam e se comportariam como bons cristãos. A missa terminou e o padre pediu a todos que se levantassem, batessem palmas porque Sérgio e Luísa passariam entre eles. Lá fora, o casal foi abraçado por muita gente e ouviram conselhos para nunca mais brigarem. Sérgio não esperava tamanha repercussão pela pequenez causa da desavença. Chegaram em casa profundamente calados e pensativos pelo que passaram na igreja. Luísa quebrou o silêncio e disse a Sérgio que não sabia quem era o mais fofoqueiro, se ele ou o padre Juvenal Rocha, que sorriu dizendo que não esperava aquela repercussão. Ambos gargalharam e a briga terminou naquele instante. Teria sido um milagre? 

    É bom lembrar que toda crise possui três elementos, a saber: uma solução, um prazo de validade e uma lição para a vida.