Eu, repórter de campo

Por Francisco Santana

A minha função na emissora de rádio que eu trabalhava era gerenciar a discoteca. Isso implicava em manter os discos em perfeitas condições de uso, elaborar a programação musical para alguns comunicadores, ouvir outras emissoras de rádio para saber quais eram os sucessos musicais do momento no Brasil e no mundo e manter contatos com as gravadoras. A ritualística da emissora era priorizar a música, notícias e programação religiosa. A quase totalidade da equipe era formada por jovens estudantes talentosos. Para completar e ganhar mais audiência, foi criada a equipe de esportes. Com tantos talentos não foi difícil montar uma. Fui convidado para participar dela. Pensei: em que área eu produziria mais? Narrador? Nem pensar! Comentarista? Nem pensar! Plantonista? Nem pensar! Então, escolhi ser repórter de campo. 

Na minha curta trajetória de repórter de campo cometi e assisti a erros hilários e hoje gosto de relembrá-los contando para meus filhos e netos. Um grande problema era ter que correr atrás dos jogadores para entrevistá-los.  Eles se aqueciam correndo e o repórter tinha que ir atrás deles que pressentindo a nossa presença, aceleravam os passos. A grande maioria não gostava de ser entrevistado. O microfone era algo medonho e assustador e dizíamos que microfone não morde. 

O meu batismo aconteceu no estádio Walter Antunes, campo do Andaraí, no jogo entre o Tupi de Juiz de Fora e o Andaraí de Barbacena. Dei duas mancadas homéricas. O Andaraí entrou em campo. De longe, avistei o zagueiro Delci, meu alvo. Ele ficara famoso por enfrentar e marcar com lealdade e perfeição a dupla Tostão e Dirceu Lopes do Cruzeiro de Belo Horizonte. Delci era estudante da Escola Agrícola de Barbacena, zagueiro clássico, futebol refinado, mas que sabia e não tinha vergonha de dar chutões para cima ou para o alto. Dentro do campo, corri muito para alcançá-lo e quase não tive fôlego para a entrevista. Finalmente ela aconteceu. Será? Batemos um longo papo e ouvi o meu nome sendo gritado pelos torcedores da geral. Fiquei orgulhoso e com o ego inflado. Pensei: devem ser meus colegas do Colégio Estadual que vieram ao campo me prestigiar e me aplaudir. Certo? Errado! Eles gritavam o meu nome para eu ligar o microfone. A entrevista com o craque Delci não aconteceu, conversamos com o microfone desligado. Que fiasco! Pior ainda foi a chamada de atenção em rede nacional dada pelo narrador: “Santana, no microfone tem uma tecla de nome on que ao ser acionada acende uma luz vermelha. Isso significa que o aparelho está “ligado” e a outra se chama off que apaga a luz vermelha. Isso significa que o aparelho está “desligado.” Isso rende até hoje.

Tupi em campo, entrevistei o craque do time, Jair. Dessa vez, tudo certo, já familiarizado com o on e com o off. Foi uma entrevista perfeita e produtiva. Devolvi a palavra ao narrador e ele pediu-me que continuasse o meu trabalho em campo. Meio perdido pela continuidade do trabalho, olhei para o número da camisa dos jogadores. O mais próximo a mim era o de número “4”. Cheguei perto dele e disse: “Estamos aqui com o zagueiro de nº 4 do Tupi de Juiz de Fora, o craque Jair”. Ele me olhou, sorriu e disse: “De novo, repórter? Você acabou de me entrevistar há poucos segundos. O que você quer que eu fale?” Eu totalmente sem graça e sem assunto, lhe disse: “fale o que quiser, fale qualquer coisa” Cruel, né! No final do jogo, sem o microfone, fui até ele o cumprimentei pelo excelente futebol apresentado e me desculpar pela mancada. Nós nos cumprimentamos e ele me abraçou. Ficamos conhecidos. 

Já ouvi um gaguinho ser entrevistado. Ele demorava alguns minutos para formar uma frase. Que repórter cruel! Risos gerais dentro e fora do gramado. Já assisti uma entrevista com um jogador boca suja onde ele falava 10 palavras e 11 palavrões. Tiveram que desligar o microfone do repórter. Entrevistei um jogador cujo time perdeu de 4 X 0. Ao perguntar-lhe o porquê daquele placar tão dilatado ele respondeu: “Falta de azar”. Já entrevistei um jogador que para responder às perguntas me tomava o microfone e depois de responder me devolvia. Já entrevistei jogador que se parecia muito com apresentador de auditório: “Inicialmente, eu queria agradecer a você repórter por me conceder essa oportunidade para falar aos ouvintes dessa emissora. Quero agradecer a Deus por me proporcionar terminar esse jogo sem contusão e ao distinto público de Barbacena que está nos ouvindo nesse momento. Estou à sua disposição para responder seus questionamentos e blá, blá, blá…”. Uma vez deparei-me com um jovem à beira do gramado portando um caderno e uma caneta nas mãos. Perguntei-lhe se iria entrevistar algum jogador em especial. Para meu espanto, ele disse que iria entrevistar o “mudinho”. Exclamei: “Mudinho? Mudo não fala!”. Ele me explicou que era um trabalho escolar sobre os deficientes no esporte. Não sei no que deu. A última imagem vista foi o estudante correndo atrás do mudinho e o mudinho se esquivando correndo dele fazendo gesto com o dedo na boca querendo dizer que era mudo e vários jogadores dialogando com o estudante repórter, talvez lhe dizendo que o mudinho não poderia conceder-lhe a entrevista pela sua deficiência.   

Hoje, o nosso futebol profissional morreu. Espero algum dia que algum time renasça das cinzas e que meu neto possa vibrar e se lembrar do vovô Santana lhe contar tantas histórias engraçadas. Louvo os times da região que me serviram de laboratórios: Olimpic, Vila do Carmo, Andaraí, Independente, Guarani, Volante e América (Barbacena); Minas, Atlhetic, Social e América (São João del-Rei); Dorense (Dores de Campos); Carandaí e Social (Carandaí); Texas (Ressaquinha); Montanhês (Barroso); Tupi, Tupinambás e Sport (Juiz de Fora); Mineiro e Social (Santos Dumont) e América (Antônio Carlos).

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