Em tempos de pandemia, ciência se tornou questão de opinião, não de evidências

Por Francisco Fernandes Ladeira, doutorando em Geografia pela Unicamp e autor de nove livros

 

A pandemia da Covid-19 fez com que certas questões, antes restritas ao âmbito científico (como as medidas a se adotar para diminuir contágios por vírus e a eficácia de vacinas) passassem também a fazer parte das conversações cotidianas. Aparentemente, isso é positivo, afinal de contas, significa que as pessoas, de maneira geral, querem debater questões que vão além de suas realidades imediatas. 

Entretanto, em um país ideologicamente polarizado como o Brasil, onde a educação científica nunca foi colocada em prática (situação que tende a se agravar com o Novo Ensino Médio) e postagens em grupos de WhatsApp criam universos paralelos com suas próprias “verdades”, determinadas temáticas estudadas pela ciência deixaram o campo das “evidências” e passaram ao âmbito da “opinião”.

Diferentemente de outras formas de conhecimento – como o religioso, amparado em dogmas, isto é, em verdades inquestionáveis; e o filosófico, calcado na constante indagação sobre as mais variadas temáticas, sendo as perguntas mais importantes do que propriamente as respostas – o conhecimento científico está baseado em hipóteses que, ao serem empiricamente testadas, podem ser refutadas ou confirmadas, constituindo assim uma teoria. Este novo conhecimento não é considerado “pronto e acabado”. A partir do momento em que surgir outra teoria que melhor explique a realidade, a anterior se torna obsoleta, é descartada. 

Já em tempos de “especialistas de redes sociais”, este (complexo) processo se torna bem mais simplório. Um sujeito considera que distanciamento social e uso de máscara e álcool em gel são práticas inócuas para evitar a propagação do novo coronavírus, não porque recorreu a bibliografia especializada ou realizou um estudo a partir de rigorosa metodologia. Isso é o que menos importa. Ele discorda do distanciamento social como medida de combater a pandemia da Covid-19 simplesmente porque é sua “opinião”. Da mesma forma, uma pessoa pode achar que vacinas não são eficazes e causam autismo, defender o chamado “tratamento precoce” contra Covid-19 e achar que as aulas presenciais deveriam ter voltado no auge da pandemia; “é minha opinião”.

Nos últimos dias, esses mesmos indivíduos, antes contrários ao distanciamento social (por uma questão de opinião, é claro), passaram a defender fervorosamente o cancelamento dos festejos carnavalescos do próximo ano. O motivo não é a falta de consenso entre especialistas sobre essa questão ou temor de que uma nova cepa do coronavírus seja transmitida entre a população. Mais uma vez, se trata de “opinião”: “não gosto de carnaval, logo não deve ter essa festa”. 

Não se pretende aqui querer censurar a opinião alheia (não sou adepto da nefasta “cultura do cancelamento”), mas opinião se dá sobre música, futebol, filmes ou cor de camisa. A ciência se move por evidências, não por opiniões. Se não concorda com algo, é preciso propor uma teoria mais plausível, não ficar em achismos. 

Antes que me acusem de positivista (ou alcunha similar), não concebo a ciência como uma atividade neutra e despretensiosa e os cientistas como seres humanos superiores aos demais. De acordo com filósofo Bruno Latour, não há pureza no mundo científico: os objetos e os resultados produzidos nesse meio são, concomitantemente, “científicos” e “políticos”. Porém, como disse a médica e pesquisadora da Universidade Federal do Ceará, Lígia Kerr: “a ciência não é infalível, mas é a estratégia mais importante hoje (para combater a pandemia da Covid-19)”.    

Enquanto em outras épocas, para se manifestar sobre um assunto e ser ouvido por um público amplo, eram precisos anos de estudos e reconhecimento por pares, hoje basta ter acesso à internet. A ignorância humana nunca foi tão disseminada (o é que pior, se tornou motivo de orgulho). Infelizmente, são os efeitos colaterais da liberdade de expressão virtual.

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