Degradação ambiental e degradação humana

Francisco Fernandes Ladeira (doutorando em Geografia pela Unicamp)

Certa vez, durante uma aula de Geografia Física, ouvi a seguinte afirmação, vinda do professor da disciplina: “toda degradação ambiental é também degradação do ser humano”. Isso significa que desastres envolvendo elementos naturais (solo, relevo, estrutura geológica, rios, condições atmosféricas etc.) revelam o quanto nosso modelo civilizacional é falho, notadamente o sistema de produção capitalista, caraterizado pela máxima exploração da natureza, vista apenas como potencial fonte de lucros. Exceto terremotos e erupções vulcânicas, pois (ainda) não modificamos as dinâmicas das placas tectônicas e as estruturas internas da Terra, em tudo o que conhecemos como “desastre natural” há, direta ou indiretamente, o dedo do homem.

Nos últimos dias, tivemos alguns exemplos que, infelizmente, corroboram a frase mencionada no parágrafo anterior. Não bastasse a (insistente) pandemia da Covid-19, nos principais veículos de comunicação são cada vez mais comuns notícias sobre deslizamento de terras, desabamento de rochas, rompimento de barragens, chuvas intensas e secas prolongadas. Isso não é por acaso. Tratam-se de alguns dos resultados nefastos da pressão humana sobre o meio ambiente.

De acordo com o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), uma das consequências de maior impacto do aquecimento global, provocado pela ação antrópica, é a alteração nos padrões de chuvas, tornando as precipitações mais fortes e mais frequentes, por exemplo, na região Sudeste. Estes elevados índices pluviométricos – somados à ocupação de áreas próximas a rios e mananciais, às construções de casas em encostas de morros e à impermeabilização do solo – provocam enchentes e deslizamentos, responsáveis por inúmeros prejuízos materiais e, sobretudo, humanos.

Evidentemente, as pessoas não ocupam áreas de risco porque querem; são forçadas a isso. Como os processos de “especulação imobiliária” e “gentrificação” fazem com que morar nas áreas centrais fique cada vez mais caro; à população pobre resta, como única alternativa, construir suas casas em regiões inóspitas, ficando, assim, vulneráveis aos “desastres ambientais”.

Ainda no tocante aos elevados índices pluviométricos, sabemos que a cobertura vegetal é a defesa natural do solo contra a erosão hídrica, pois o protege do impacto direto das gotas de chuva. Não por acaso, conforme reportagem do SBT News, um complexo turístico localizado acima do paredão que caiu em Capitólio (MG), no sábado (8/1), faz parte das investigações da causa de desmoronamento do cânion. Inaugurado em novembro de 2020, o empreendimento alterou a vegetação da área, diminuindo a capacidade de absorção do solo, o que pode ter aumentado os impactos sobre a estrutura rochosa que desmoronou e deixou dez mortos.

Em sociedade que respeitem minimamente a natureza (e o próprio ser humano), encostas de morros e beiradas de rios jamais seriam locais de moradia, solos não seriam destruídos para práticas de mineração e áreas como os cânions de Capitólio seriam motivo de reverência, não de intensa exploração econômica. Indígenas e aborígenes, entre outros povos considerados “primitivos”, sabem muito bem disso. Nós, autointitulados “civilizados”, não. Ainda temos muito o que aprender.

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