Como a poluição luminosa das cidades interfere na qualidade de vida de seres vivos silvestres, na vida humana e na observação do céu noturno?

Por Delton Mendes Francelino, professor, cientista e produtor cultural. Coordenador do Centro de Estudos em Ecologia Urbana do IF Campus Barbacena, Diretor do Instituto Curupira e Coordenador/criador da Casa da Ciência e da Cultura de Barbacena, Minas Gerais. Tem dois livros publicados.

 

Muitos de nós, que tivemos nossas infâncias a partir por volta dos anos 90, nos acostumamos com o triste fato de, dentro das cidades, não conseguirmos ver com muita “clareza” o céu noturno. Não raras vezes, em meus cursos, vivências e aulas, é comum as pessoas se assustarem quando (ao compararmos fotos do céu à noite em regiões não urbanizadas e em regiões urbanizadas) notam diferença significativa na quantidade de estrelas e outros corpos celestes, possíveis de serem vistos. Este é um problema, inclusive, discutido por muitos amigos astrônomos e físicos.

Todavia, o que pouca gente sabe, ou nunca parou para pensar, é que a iluminação das cidades, ou seja, a iluminação artificial, de postes e outros, como outdoors eletrônicos, prejudicam também o comportamento de seres vivos diversos silvestres, como as aves. Trata-se do que denominamos de “poluição luminosa”. Pesquisas indicam que algumas espécies têm literalmente confundido regiões de intensa iluminação artificial com processos de iluminação natural, fornecida pelo Sol ou pela Lua (lembrando que esta apenas reflete a luz do Sol). Isso muda o comportamento desses seres vivos, seja no que se refere, por exemplo, à busca por alimento (forrageamento), seja no que se refere à outras dinâmicas, inclusive reprodutivas. Recebi mensagens semana passada de duas pessoas que disseram terem notado as aves “acordarem” mais cedo numa região de um empreendimento aqui na cidade.

Cabe destacar que esta poluição luminosa interfere diretamente também na qualidade de vida de pessoas, de todos nós. A luz noturna artificial e em excesso (poluição luminosa) pode ocasionar mudanças nos ciclos fisiológicos, comportamentais, alterando padrões de sono e também a produção de hormônios, por exemplo. Pesquisas revelam aumento de estresse, fadiga, cansaço e ansiedade.

Hoje, uma pauta muito comum na urbanização é aumentar a iluminação artificial e de fato isso é relevante, uma vez que estudos evidenciam que, em termos de segurança pública, lugares mais iluminados diminuem as possibilidades de crimes diversos, como o roubo e o estupro. Trata-se, como se pode ver, de uma discussão muito complexa, delicada, mas que precisa ser feita.

Será que, ao menos em regiões nas quais sabemos que há fragmentos de floresta, de mata, ou próximas à Áreas de Conservação da Natureza, não podemos ter planos diferentes de iluminação? E, uma vez que as cidades estão crescendo, a maior parte delas, será que nos distanciaremos cada vez mais deste hábito que era comum de nossa espécie nos recentes milênios, que é observar o céu noturno, nos admirarmos com o cosmos e praticarmos a coletividade e sensibilidade a partir deste gesto tão simples, de olhar para o céu noturno? Será que tenderemos a, cada vez mais, não termos o “respeito” pela noite, algo que, biologicamente, é fundamental para nosso descanso? Vale a reflexão, não é?

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