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    Barbacena, MG Previsão completa
  • Abandono de animais e pandemia

    Crônica de Susana Furtado

    Era um dia completamente normal, acordei cedo, antes da padaria abrir, observei se o enjoado do Tomé não tava na espreita. Caminho liberado. Uma passadinha na esquina do 61 pra ver se o broto estava na janela. Ahh…aqueles cachinhos! Nada, a dorminhoca ainda devia estar enrolada nos cobertores. Então, o jeito era correr atrás do prejuízo.

    De uns tempos para cá eu já tinha notado que a cidade andava meio esquisita. Meu lugar preferido para mendigar comida e carinho sempre fechado. O que será que aconteceu com todas aquelas crianças? Nem na rua eu não as tenho visto. Todo mundo com mordaça na boca, que coisa mais estranha! Será que eles não são vacinados contra a raiva?

    Atravessei a rua na zebra, igual minha mãe me ensinou, ainda pequeno. Ela falava que os carros não costumam frear, mas se a gente fosse atropelada em cima da zebra a chance de ganhar comida era maior. Passei pela porta do açougue, o Tião já tinha separado meu café da manhã:

    – Bom dia Estopa! – E jogou aquela pelancada maravilhosa!  Hummmm… Retribuí com umas abanadas de rabo e tomei meu rumo.

    A loja que vende bicho estava aberta. Olhei para um companheiro triste, de gravata e com um perfume danado, dentro da gaiola. Coitado, não sei como não ficava sufocado com aquele fedor. Pulei para tentar arrombar o ferrolho, mas tomei um chute no traseiro, como sempre. Acontece que na porta da loja tinha uma criança, aí meu amigo, já era!

    Pouco depois o moleque tinha chutado a canela do infeliz, ameaçado chamar a polícia e implorado para a mãe que, olhando para um cachorro tão sujo e minguadinho como eu, disse delicadamente:

    – Esse cão está doente e imundo, Juninho!

    – Aaaaaaalto lá!!!! Sou pobre, mas sou limpinho! – Apontei com o nariz para o córrego do lado de baixo.

    Ela parece que entendeu ou então a chantagem do moleque foi mais inteligente do que minha cara de mau elemento. Alguns minutos depois e eu já estava dentro de um banheiro, cheio de espuma e água quente. Pensei comigo: “Já vi esse filme antes…”

    No segundo dia ganhei uma almofada. Eu gostei tanto que usei de decoração na garagem – sempre sonhei em pisar na neve, ficou tudo tão branquinho, liiiiindo! Só não entendi porque eles não gostaram da minha arte e me trancaram num quarto escuro.

    Eu sentia falta da pelanca do Tião, odeio ração! Quem pode preferir em sã consciência aquele trem que parece cocô de cabrito do que um belo escondidinho de comida no lixo? Fiquei uns dias sem comer direito, nervoso, resolvi experimentar o jardim da “mamãe”. Provei de tudo que tinha lá, até espinho e, a não ser por uma florzinha vermelha, tudo era ruim como ração.

    O final foi o mesmo de sempre. Fui jogado no porta-malas e tive que ouvir aquele sermão como se ÊÊU tivesse pedido que me levassem para casa. Me despejaram na estrada, já conhecia até os buracos do caminho, pela linha do trem era mais rápido.

    – Tava sumido Estopa! Senti sua falta, amigão!

    E enchi a pança, feliz, com aquela porção gigante de pelanca dobrada.

    NOTA DA REDAÇÃO – Susana Furtado Dias é barbacenense, servidora do Poder Judiciário de MG. Nascida no dia de São Francisco de Assis, tem uma relação muito especial com os animais. É autora dos livros “A Gata Malhada e o Gato Paçoca” e “A Maratona de Cães”, publicados pela Páginas Editora, de Belo Horizonte.