• 14ºC
    Barbacena, MG Previsão completa
  • A preocupante geração de filhos sem limites

    Todos os dias vimos, preocupados e assustados, o número de queixas recorrentes sobre a falta de limites de crianças e adolescentes.

    Preocupante porque são as gerações futuras que cuidarão do país, assustador porque embora tenhamos evoluído em várias áreas, temos involuído em aspectos importantes.

    • Quais seriam as possíveis causas das queixas da falta de limite das crianças e dos adolescentes nos dias de hoje?

     

    Os especialistas da área da Saúde têm acompanhado um crescimento no número de crianças e adolescentes com queixas comportamentais decorrentes da falta de limites em casa. Muitos desses casos, por vezes, são tratados como doentes, mas na verdade, faltam-lhes educação, limite, hierarquia e até mesmo amor.

    Hoje vemos crianças e adolescentes adoecidos por falta da presença dos pais, falta de ensinamentos congruentes com a sociedade, falta de compreensão do que é certo e do que é errado, falta de respeito às pessoas de forma geral… E falta muita coisa para que eles possam crescer saudáveis, ao invés de apenas crescerem em tamanho e idade, cercados por um mundo ilusório, tal como vivenciamos atualmente.

    Quando deixamos de educar nossos filhos, diretamente, com responsabilidade, deixamos a porta aberta para que eles cresçam à revelia, expostos aos riscos que o mundo traz até mesmo dentro de nossas casas.

    Sabemos que a sociedade do Século XXI é outra, mas não podemos acreditar e aceitar que educar nossos filhos seja artigo de 2ª, 3ª ou 4ª categoria.

    Educação, regras e limites são coisas que nunca saem de moda, que contribuem para a formação moral das pessoas e permitem que convivamos em sociedade.

    • Existe diferença entre uma criança ou adolescente sem limites e uma criança ou adolescente com algum transtorno?

    Existem crianças e adolescentes com transtornos de comportamento e outros transtornos. Existem crianças e adolescentes com falta de limites e regras. E existem crianças e adolescentes com transtornos e também com falta de limites e regras.

    Para as três condições temos implicações sérias e preocupantes, uma vez que o manejo dessas questões exige tempo, dedicação de todos os envolvidos e os especialistas, sozinhos, não fazem milagres.

    Claramente identificamos essas questões e diferenças nos consultórios, mas o mais difícil é a família visualizar e aceitar que ela é parte do adoecimento ou problema da criança.

    • Quais as repercussões a longo prazo da falta de limite na vida de uma criança ou adolescente?

    Se a curto prazo já temos uma situação desagradável, com afastamento das pessoas dos círculos de convivência, a médio e a longo prazo isso significa, além de menos amigos, questões também referentes à dificuldade de inserção em escolas, em grupos sociais e até mesmo no mercado de trabalho.

    É e será difícil para aquela criança ou adolescente compreender que somente lá na casa deles é possível viver dessa forma, sem hierarquia, sem respeito aos pais. Aqui fora, no mundo real, o tempo todo seguimos regras e hierarquia. Temos compromissos e precisamos nos responsabilizar por nossos atos, sejam eles quais forem.

    Mas eu preciso aprender isso dentro da minha casa, com o meu pai e com a minha mãe. A premissa de que o mundo educa é falsa. Na verdade, o mundo castiga. 

    Além disso, enquanto pais, precisamos entender que somos os únicos responsáveis pelos filhos que colocamos no mundo. Então, salvas raríssimas exceções, o meu filho será aquilo que ensino, cuido e amo.

    Um filho é tal como uma plantinha. Precisa regar, precisa cuidar. Conheço pais mais preocupados com as plantas do que com seus filhos. E isto é um crime contra a criança e contra a sociedade.

    A criança e o adolescente sozinho não têm condições e maturidade para escolher o caminho do que é certo e do bem. Alguém precisa mostrar a eles esse caminho.

    Mas se eu, mãe ou pai, não sou capaz de fazer isso, então meu filho estará fadado à própria e perigosa sorte.

    • Como os pais podem fazer para educar seus filhos com mais responsabilidade?

    Educar dá muito trabalho. Alimentar, vestir, levar para a escola, cuidar são obrigações de todos nós pais. Mas também é nossa responsabilidade a construção do caráter, o estabelecimento da hierarquia entre pais e filhos (fundamental também lá na escola).

    Costumo dizer aos pais que me procuram para se fazerem mais presentes na vida de seus filhos, não delegando às ajudantes, aos avós e às professoras a responsabilidade de educar.

    Não compensem suas ausências com presentes e viagens. Não barganhem afeto e responsabilidades.

    Ensinem o que é certo fazendo o que é correto. Uma criança aprende pelo exemplo que vê.

    Tendo sido escolha ou não ser pai e mãe, é obrigação de cada um de nós educar para que realmente possamos pensar num futuro melhor. E nem é um futuro melhor lá fora, mas melhor dentro de nossas próprias casas, porque o tempo e a vida cobrarão de cada um de nós seja lá o que tenhamos feito com os filhos que tivemos.

     NOTA DA REDAÇÃO – Valeska Magierek  – Psicóloga, Neuropsicóloga e Palestrante. Atende no Centro AMA de Desenvolvimento em Barbacena.