A dor nem sempre está nas lágrimas, mas às vezes nos sorrisos

Francisco de Santana

Há algo acontecendo dentro de mim de difícil explicação. Já tentei, mas encontrei resistência e deboches das pessoas. É como se eu tivesse dupla personalidade, duas pessoas, dois egos dentro de mim. Eles me aconselham, confundem minhas ideias e não me deixam raciocinar por mim. É um domínio forte que me faz chorar, refletir e a orar. Ás vezes eles desaparecem, fico calmo, volto a sorrir e de repente tudo volta ao que era. Perdi a vontade de me confessar com alguém, ninguém confia em mim. Conversei com um padre, com um médium e ambos disseram que eu estava tomada por um espírito obsessor. Deram o nome da doença e não me falaram da cura.

Frequentei igrejas e centros espíritas, mas os problemas continuaram. Eu preciso de ajuda e percebo que só eu posso me ajudar. Já fui taxada de doida, paranóica, falsa, fingida, de diferente e desigual. Se sou tudo isso reconheço que não sou uma boa companhia. Sou uma para meu marido, outra para meus filhos e outra para familiares de amigos. A minha luta é diária para tentar ser eu mesma. Peço a caridade e a compreensão de todos que se aproximam de mim. As exigências dos outros que habitam em mim incomodam e me torna uma pessoa diferenciada. Pelos cantos eles me fazem chorar e perante os outros eles me fazem sorrir. Nas mãos deles me torno uma pessoa falsa, hipócrita, fresca e fingida.

Passei por vários divãs, as psicólogas disseram que eu estava tomada por uma doença da alma que se chama depressão, que nasce e se expande de dentro de nós para fora e que o tratamento era em longo prazo, sem a certeza da cura total. O tratamento era paliativo. Perguntaram-me se na minha família tinha alguém que já fora internada em hospitais psiquiátricos ou em casas de repouso. Sutilmente percebi que o meu diagnóstico era loucura, demência.

Diante desse parecer fui ao consultório de um e uma psiquiatra. Ouviram-me por várias confissões. Nenhum resultado prático depois das receitas de medicamentos antidepressivos. Os habitantes do meu ser não gostaram das minhas buscas pela cura e paz interior. Eles foram abusados, agressivos e me culpavam pelos ocorridos. A minha situação piorou. Os psicotrópicos comandaram o meu corpo e mente. Deixei de lado os afazeres domésticos, meu papel de esposa, de mãe, filha e amiga. Meu corpo só pedia cama e descanso de tudo.

Deixei de amar os que até ontem eu amava. Minha vida perdeu o valor, logo eu que achava que a vida era o nosso maior patrimônio. Meus dois filhos, notando a minha diferença comportamental, queriam saber o porquê, clamaram pelo meu sorriso e pelas minhas brincadeiras. Eu não os reconheço mais. Estou sem forças para reagir, preciso da ajuda de alguém e não sei quem poderia ser esse alguém. Sempre confiei em Deus, mas se ele está abandonando-me a viver na terra é porque Ele está guardando algo muito melhor para mim. Há dias depois de me medicar, o mais perverso habitante da minha mente me aconselhou o auto-extermínio aconselhando o uso de muita medicação, raticida (chumbinho), faca, navalha, águas do rio das mortes, forca ou pular de um prédio bem alto. Eu disse a ele que era um caso a pensar.

Estou cansada, sem ânimo, ninguém pode me ajudar, viver, pouco me importa mais. Vislumbro na porta do meu quarto minha avó, meu avô, meu pai, parentes e amigos. Todos eles com um sorriso nos lábios e estendendo as mãos para mim. Parece que acertei nas doses e nas misturas de remédios. Sinto meu corpo leve, parecendo levitar. Agora não o sinto mais, os habitantes que moravam dentro de mim foram embora e ouço lá no fundo uma música de ninar.

“Lembre de mim
Hoje eu tenho que partir
Lembre de mim

Se esforce pra sorrir
Não importa a distância
Nunca vou te esquecer
Cantando a nossa música
O amor só vai crescer

Lembre de mim
Mesmo se o tempo passar
Lembre de mim

Se um violão você escutar
Ele com seu triste canto te acompanhará
E até que eu possa te abraçar!
Lembre de mim…”

Adeus… Por favor, não me prejulguem, fiz o que tinha que fazer o melhor para mim.

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