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A demissão do diretor do INPE: o que isso significa em termos de conservação da natureza e valorização da ciência nacional no atual governo?

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Delton Mendes

Prof. Col. na graduação em Ciências Biológicas e coordenador do Centro de Estudos em Ecologia Urbana no IF Barbacena. Diretor do Instituto Curupira e doutorando na UFMG. Tem dois livros publicados

 

Nas últimas semanas a comunidade científica internacional, sobretudo o segmento voltado para a conservação e preservação da natureza, ficou estupefata com os acontecimentos ocorridos no Brasil, provocados pela gestão Bolsonaro. Num desses episódios, o professor Ricardo Galvão, um respeitado cientista nacional, diretor do Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais, foi demitido após a instituição divulgar, como sempre faz, os dados relativos ao desmatamento da Amazônia, que cresceu assustadoramente no mês de junho, comparando-se a índices anteriores, como o do ano passado. Bolsonaro classificou os dados como mentirosos, lançando ainda várias acusações à ciência brasileira e ao diretor do INPE. Ricardo Galvão, em contrapartida, no Jornal Nacional (2019), disse que “o presidente faz acusações indevidas a pessoas do mais alto nível da ciência brasileira. (…) É uma piada de um menino de 14 anos que não cabe a um Presidente da República fazer.”

 

Infelizmente, esse é apenas um dos vários exemplos do modo como o atual Governo Federal trata as questões ambientais. Importantes apoios internacionais na defesa e proteção da Amazônia ameaçam retirar-se de planos e projetos de conservação da floresta após discursos e práticas inconseqüentes do presidente. A Alemanha anunciou a suspensão de parte de seus subsídios a projetos de proteção: “A política do governo brasileiro para a Amazônia gera dúvidas sobre a continuação de uma redução sustentável do índice de desmatamento”, declarou a ministra alemã do Meio Ambiente.  Fora isso, são muitas as preocupações de movimentos sociais, ambientais e científicos internacionais e nacionais no que se refere à dignidade de povos indígenas e atividades extrativistas, pontos chave nos planos governamentais e que já trazem históricas desgraças para o país, como os recentes casos de Mariana e Brumadinho. Importante destacar, com tristeza, que o próprio presidente afirmou, há recentes dias, que para combater a poluição ambiental, seria relevante “fazer cocô um dia sim, um dia não”; e, ainda, que ambientalismo é coisa apenas de pessoas veganas. 

 

É preciso ter olhar crítico diante de toda essa situação: apenas nos últimos meses, práticas do agronegócio inconsequente têm sido estimuladas como nunca antes.  Menor fiscalização ambiental e desmonte de instituições têm sido defendidos e, em alguns casos, já em andamento. A quantidade de agrotóxicos permitidos no país aumentou assustadoramente, mesmo sabendo-se dos males provocados por esses produtos. Fora tudo isso, profissionais que defendem posições contrárias às do Governo, como fez Galvão, são sumariamente demitidos.

 

É perturbador perceber que o Brasil esteja sendo visto pelo mundo todo de maneira negativa no que se refere à proteção da natureza. Foram diversos os manifestos de governantes de países, líderes mundiais, contrários aos atos de Bolsonaro, que parece não se importar com o quadro globalizante da economia mundial, intimamente ligado a todo esse contexto. Defender a ciência nacional, valorizando o que temos de mais profundo em termos de conhecimento, reconhecido mundialmente, é estimular nossa própria população a acreditar e trabalhar em prol de um futuro mais sustentável e equilibrado. Infelizmente as perspectivas para a educação e a ciência no Brasil são pérfidas na atualidade e para os próximos anos e, não tenha dúvidas, caro (a) leitor (a), que isso custará muito caro para as gerações futuras. 

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