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18 de junho de 2017 às 12h40 atualizada em18 de junho de 2017 às 12h41

Afetar, gerar e transformar

A opinião de Delton Mendes Francelino

Delton Mendes Francelino
Afetar, gerar e transformar

Após a Segunda Guerra Mundial o mundo se viu diante de percepções nunca antes tidas. Depois de toda a destruição dos conflitos bélicos compreendidos entre 1914 e 1945, da quantidade de mortos e do caos social e territorial, pela primeira vez na história da humanidade uma maioria de nações optou por desenvolver estratégias que evitassem os embates políticos e ideológicos que motivaram e alicerçaram o choque de interesses que assolou parte significativa da Europa e da Ásia e disseminou culturas de ódio por todo o planeta.

No entanto, em contrapartida a esses objetivos centralizados nos países “vencedores” do pós-guerra, simbolizados, sobretudo, pela criação da ONU (Organização das Nações Unidas), um novo contexto também começava a ebulir, liberto dos anseios de governantes mundiais: uma realidade de questionamento e movimentação de contracultura, que possibilitou, no cerne de múltiplos âmbitos da sociedade, a eclosão de importantes ideologias alternativas de percepção do mundo, das ações da humanidade em relação a si mesma e ao planeta.

Exatamente nesse panorama, um processo muito simbólico, rico e bonito começava a evocar e examinar posturas nunca antes questionadas com tamanha propriedade. Os limites éticos e morais do homem perceberam-se barreiras líquidas, possíveis de serem alteradas e reconstruídas, recambiadas e reprocessadas.

O contexto da Guerra Fria e da dicotomia EUA (Estados Unidos da América) X URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), por um lado, evidenciou que os objetivos de “união” dos países do globo em prol da superação dos problemas provocados pelas guerras do início do século XX eram superficiais e nada poéticos. Percebeu-se que todo o romantismo visto sob o olhar da esperança era mais uma estratégia discursiva de manutenção do poder de grandes eixos capitalistas, liderados pelos EUA, em contraponto a um eixo teoricamente socialista, por sua vez encabeçado pela União Soviética.

Todavia, por outro lado, os movimentos de luta e questionamento social cresciam, mesmo quando ditaduras se fortaleciam nos países do Hemisfério Sul. Todo esse universo gerou, entre as décadas de 1960 e 1970, principalmente, a base de reflexão que possibilitou o despontar do pensamento ambiental e ecológico mais forte e embasado. Pela primeira vez em nossa curta história no planeta a humanidade disseminava com maior potencialidade discursos de proteção e conservação da natureza, pela construção e elaboração de melhores projetos de convivência com os recursos naturais, além do senso de meio ambiente e práticas de sustentabilidade.

Um novo panorama se desenhava, com várias facetas; grande parte delas não muito sólidas, mas ricas de possibilidades. De certa forma, a Terra começava a ver em seu ventre uma balburdia maior, enaltecida por pessoas que se preocupavam de fato com o ambiente no qual viviam e onde, no futuro, abrigaria seus descendentes. Nesse contexto de um século conturbado, nasceram, ainda que em terreno pedregoso, as sementes mais prósperas dos movimentos ambientais e ecológicos, sociorrelacionais e ecoculturais.

Todos nós, humanos, somos como estrelas gigantes, em fase de supernova: aptos para explodir a qualquer momento, originando outros processos e outras significações. Somos seres adaptáveis a diversos ambientes, possíveis de percepções abstratas e significativas, disseminadores estratégicos de metabolismos inteligentes de construção de alternativas. Podemos olhar para o passado e com ele aprender; podemos projetar o futuro e para ele rumar com ética, bom senso e respeito. Podemos olhar para o céu noturno, sentir as estrelas e as galáxias, a Lua e os planetas, mas, principalmente, a matéria e energia escuras que moldam o universo e sobre as quais tão pouco conhecemos e nos percebermos parte de um âmbito muito maior e, assim, aprendermos e nos educarmos pela humildade.

Não há qualquer defensor da natureza que não seja, antes de qualquer coisa, um arauto da imaginação e um discípulo fiel da liberdade. Não há artista feliz sem a livre criação. Não há pensamento ecológico sensível sem a percepção do todo, do emaranhado de processos culturais e sociais que constroem também o perfil ecossistêmico de atuação da espécie humana no globo, ou seja, sem a capacidade simples e inefável de imaginar, de projetar futuro e acreditar.